quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

NO COLETIVO - II

Que o tal do espírito do Natal está desaparecendo, isso talvez seja verdade, mas fato mesmo é o fortalecimento, nesse período do ano, de algo essencial à graça da vida: a imaginação. A imaginação que reaviva vidas e a que cria vidas.

Sim, vejo agora o poder da imaginação nesses dois sentidos, e os demonstrarei contando a situação a partir da qual comecei a percebê-los.

Estamos no finalzinho de Dezembro e há poucos dias atrás, na faculdade, eu ainda me encontrava sufocado pelos trabalhos e provas finais. Ainda que tenha sido o primeiro semestre, ou justamente por ter sido o primeiro, a tensão foi muito grande. Apesar de não trabalhar, leve-se em conta que eu sempre quis dar o melhor de mim. E muito mais que a preocupação em ser aprovado, o que me desgastava era o trabalho que davam os trabalhos e saber que ainda iria encarar outras avaliações.

Foi nesse estado de cansaço que, voltando da faculdade para casa, subi na topique. Passei a viagem toda em pé e, como se tratava de um coletivo – o meu templo ambulante – passei a viagem inteira também pensando. Entre os pensamentos daquele dia, porém, não havia uma idéia que me permitisse criar, uma sequer que me deixasse cair na ficção; apenas o estresse do dia-a-dia me ocupava a cabeça. Como era forte o meu desejo de que tudo aquilo acabasse! E como era intensa, também, a esperança em tempos melhores, em dias mais calmos. Posso estar aumentando as proporções ou, sem querer, devo estar parecendo meio dramático, mas se eu estava sentindo o que eu realmente estava sentindo, a esperança foi fundamental para que minha cabeça, concordando com o resto do corpo, também ficasse de pé.

Empurrada por essa esperança, minha imaginação foi longe. Vi, no ano que viria, um estudante mais bem sucedido, um escritor mais inspirado e... mais escritor, um leitor mais atento – não só das palavras, um amigo mais presente, uma pessoa mais calor, um ser mais amor, com uma vida mais sonho. Todas essas imagens fizeram surgir no meu rosto um sorriso discreto. Fosse outra época, esse sorriso viria de lembranças de bons momentos, mas eu pensava unicamente no lado oposto: o futuro.

É, o clima natalino inevitavelmente junto ao final de um ano permite mesmo os sentimentos mais ternos e esperançosos. Mas naquela topique eu não era o único contagiado por esse clima. Com a cabeça mais leve e o olhar menos preocupado, pude observar que, apesar de todo o aperto e de toda a pressão involuntária de corpos sobre corpos, sentimentos de ternura voavam livremente; embora muitos estivessem sufocados fisicamente, não o estavam pelo que sentiam; desejos de felicidade, declarações de boas-novas do que ainda iria acontecer, sonhos revelados, abraços de amigos, beijos de namorados, todas essas palavras e gestos se executavam na mais intensa reciprocidade.

E se eu atentei para tudo isso, de repente desviei meu foco e voltei-me para algo quase totalmente alheio ao que se passava. Um garoto, talvez com uns oito anos, sentado no colo da mãe, aproveitou o veículo parado e indicou, pela janela aberta, o Papai Noel lá fora. Chamando a atenção dos pais – e a minha – o menino quase gritava, repetindo freneticamente “Tá ali, ó, o Papai Noel, tá ali!”, com o dedo esticado servindo de seta. O pai não viu nenhum homem gordo e vestido de vermelho, e como estava em pé, até se curvou um pouco para observar melhor, mas continuou não vendo Noel nenhum. Eu também não vi. A mãe, talvez tentando disfarçar a incredulidade, deu um forte beijo no rosto do filho e o chamou de coisa linda: “Ô coisa linda!”. O pai deu uma risadinha, passou a mão nos cabelos do garoto e voltou à posição normal. A topique saiu e o menino girou a cabeça para trás, como ainda querendo ver o Papai Noel, que se distanciava cada vez mais; acompanhei-o no movimento e não vi nada. Digo, vi sim. Vi perfeitamente a imaginação agindo, com toda a sua força e magia.

Foi saindo dentre esses dois belíssimos quadros que, no final da linha, desci da topique. Mais do que nunca, senti-me realmente deixando um lugar sagrado e sereno: senti-me renovado e quando olhei para trás, no lugar do carro barulhento havia o mais exuberante templo sobre a Terra. Sinos enormes badalavam nas duas imponentes torres e a porta por onde eu tinha saído ostentava agora uma pesada aldrava, encostada na espessa superfície de madeira trabalhada. Fiquei parado ali por uns dois minutos, boquiaberto, até que a buzina de um carro que pedia passagem me trouxe à realidade. Virei-me de volta e fui para casa.

Se alguns momentos deste ano que acaba foram ruins, ou se os dias que virão trarão tempos desagradáveis, já não me falta imaginação – nos dois sentidos – para que eu possa transformá-los nas horas mais lindas que existem
.


Desejo um ótimo Natal e um excelente Réveillon a todos. E que não lhes falte imaginação nunca. "Feche os olhos, mas deixe a mente bem aberta" - Ponte para Terabítia

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A CHUVA

Esse quebra, mais uma vez, a sequência de textos mio velhos.

“São as pequenas coisas que valem mais.
É tão bom estarmos juntos
E tão simples: um dia perfeito”
Um dia perfeito – Renato Russo

“Como é barulhenta essa chuva. Só falta quebrar o telhado, meu Deus!” Assim pensou a senhora que, na cozinha, preparava um cheiroso jantar. “Essa chuva só serve pra dar susto na gente”, resmungou o velho que cochilava no sofá da sala e acordou de repente, com o estouro de um trovão. No mesmo instante, porém, se acalmou. Percebeu, pelo excitante cheiro de frango cozido, que tinha despertado na hora certa: a janta já estava pronta.

Queria pelo menos sentir esse cheiro o homem magro que se abrigava em um alpendre, a duas casas dali. E também pensava, “é tão doce a água da chuva”, enquanto bebia mais um gole do que conseguia obter nas mãos sujas feitas em concha. Expulsada a sede, veio o não menos incômodo frio. Se há um minuto tinha agradecido a chuva que caía, já então a condenava. Batia rápido e involuntariamente os dentes, tentava se agasalhar com uns panos ensopados e tinha raiva dos meninos que gritavam e corriam na rua; pareciam nem ligar para o fato de o céu estar caindo naquele momento.

Se essa era a aparência, a realidade era exatamente oposta. Uns seis garotos, de oito a doze anos, aproveitavam a chuva para tornar o corre-corre ainda mais gostoso e divertido. As poças que se formavam nos buracos da rua não pavimentada eram o que mais animava os meninos. Alvo dos pulos das crianças, essas poças ficavam numa oscilação entre cheia e vazia: a chuva, em poucos segundos, fazia transbordar os profundos buracos, mas estes logo eram só lama nos pés dos garotos. E assim, entre a gritaria e gargalhadas, entre a luz dos relâmpagos e o susto rápido com as trovoadas, eles brincavam. Só estavam ali por causa do toró que desabava. Caso contrário, estariam em suas casas, provavelmente assistindo à televisão, esperando o grito da mãe a chamar para comer.

E foi esse grito que, em direção aos pirralhos, os fez parar a correria. A senhora que temia perder o teto da própria casa para a chuva apareceu á porta da rua e soltou grito um estridente, a ver se superava a arrogância dos céus. Dos seis, três foram em direção a senhora gasguita. Os outros três se dispersaram em direções diferentes. Os meninos entraram na casa daí em pouco a chuva começou a parar.

A lua lentamente apareceu entre as nuvens e, sob a sua luz, um casal de namorados passou com cuidado entre os buracos cheios de água. Abraçados, aqueciam-se, depois de terem saído do alpendre que encontraram quando foram pegos de surpresa por alguns pingos da chuva. Aproveitavam, ainda, o abraço e os beijos para compartilhar e dissipar o medo daquele homem feio que, sob o alpendre, os encarou tão fixamente.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

VERMELHO

Essa é mais uma das meio velhas que eu disse que ia ficar postando.

Eles vinheram e tiraram
Desta terra o vermelho
Da veia,
Do lenho.

Queriam o vermelho.
Seu sangue era azul.
E desta terra, à força de ficar roxo,
Conseguiram a bela cor.

Vampiros impiedosos:
Não tinham sangue nem coração.
Só pensavam em sugar
O vermelho de toda vida.

Levaram o vermelho
Do lenho e da veia
E dessa cor trouxeram outro tom:
O vermelhos dos olhos que choram de dor.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

INTERIOR PERIFÉRICO

Algo que eu acho um pouco melhor.


Depois de alugar, sem cobrar nada, os meus ouvidos a uma prima minha, emprestei-lhe minhas mãos. Bem-aventurados fomos nós naquele momento, que executamos com perfeição as quatro faculdades da linguagem humana. Enquanto ela falava o seu breve relato, numa serenidade empolgada, eu a escutava hipnotizado, ao mesmo tempo em que lia todos os seus gestos. E já pensava, então, como se organizariam as frases, daquela crônica que eu ouvia, numa folha de papel, escrevendo dezenas de linhas imaginárias, uma por uma; antes, é claro, que eu realmente lhe propusesse a escrita de suas palavras e ela aceitasse. Por isso, agora estou efetivamente escrevendo.

Mas, que pena, não realizamos a quinta habilidade lingüística, melhor que todas as outras – que pena! – porque elas, essa habilidade e minha prima, são lindas. Além disso, poderíamos ir mais longe, e eu não costumo ser incestuoso.

Bom, ela não vai parar de me aperrear até eu terminar isso aqui, e como não vou deixá-la ler antes que eu realmente termine, o melhor mesmo é começar logo o referido relato. Aqui vão, porém, palavras minhas, observando-se uma transcrição perfeita apenas nas idéias; ela exigiu que suas palavras não passassem além dos meus ouvidos. Mas como destes minhas mãos são uma extensão...

Moramos na periferia da capital e há mais de dois anos que ela vive aqui em casa com a gente - comigo e com meus pais. Vinda de uma pequena cidade do interior do Estado, chegou entre os prédios acanhada, e não foi com muita facilidade que seus pulmões se acostumaram ao novo e bem mais poluído ar. Seus olhos, se não tiveram chance de se assustar com a nova paisagem, devido à rápida passagem da rodoviária para a casa, foram empáticos com os ouvidos, que não puderam fugir do enorme barulho. O sofrimento destes se mostrou na expressão daqueles. Foi até engraçado vê-la confusa, pondo, às vezes, as mãos sobre as orelhas e espremendo os olhos, como se esperasse, a cada vez, um barulho ainda maior que o anterior.

Como é natural acontecer, porém, todo o corpo dela acabou por se adaptar ao ambiente. E qual o corpo, os hábitos também adquiriram outros contornos, de acordo com a nova superfície de vivência. Foi se referindo aos próprios costumes – a apenas um, na verdade – que numa manhã dessas ela me falou, surpresa, do que havia acontecido no começo daquela mesma manhã.

Acostumada a “acordar junta com os pintos” lá na cidade onde nasceu, com o tempo ela começou a se espreguiçar cada vez mais tarde, o que é, no mínimo, de estranhar. Ela me contou, enfim, que naquela manhã de domingo tinha acordado mais cedo que de costume, desfazendo um hábito atual e recuperando um mais antigo. Estando de pé quando ainda roncávamos, ela me disse que naquele momento também ouviu um silêncio que há muito não escutava. Não quis acordar ninguém e, não conseguindo mais deitar-se, saiu para frente da casa. Sentiu um “arrepio na espinha, um frio gostoso” assim que viu a rua vazia, sem uma alma que pudesse contrariá-la no desejo de ficar um minuto sozinha; só um vira-lata passava naquela hora, o que, na verdade, a felicitou ainda mais.

Todo esse ar de calmaria, de vento soprando nas saias, de um bocejar demorado, de cachorro velho perambulando, tudo isso a fez lembrar a outra casa em frente à outra rua. Ela me falou, entusiasmada, o quanto tinha achado parecido, naquele momento, esse bairro onde vivemos e a sua cidade natal.

Foi quando, na mesma hora, cunhei a expressão que, depois, tornou-se título destes parágrafos. Sempre tive gosto por aproximar palavras que teimam em se manter distantes, e que só o fazem porque não sabem que são todas irmãs. A mãe eu não sei quem seja, mas como bom padrinho devo auxiliar na conciliação das que não se dão.

Ela, de início, não entendeu o que eu quis dizer, mas depois que lhe expliquei, não parou de rir, e mesmo de dar gargalhadas. Não sei se foi porque achou a expressão inteligente e sutil ou se por ver o quanto era ridícula. Eu, no final, acabei sem saber; acompanhei-a nos risos e assim continuamos o dia.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

HOJE

Bem, pretendendo retomar um compromisso com o "Blogs de Quinta", vou postar aqui algumas coisas meio vellhas - e que eu não acho tão boas. Mas, enfim, a consciência do compromisso é maior, então, até que eu escreva algo um pouco melhor, vou ficar postando essas ingenuidades.

Hoje estou à toa
Hoje o tempo voa
Hoje é Dezembro
Hoje eu me lembro
De que hoje é um dia
De que hoje em dia
O hoje já é passado.
É um hoje acelerado
Que passa rapidamente
Na velocidade da mente.
Tudo cresce e decresce
E o mundo padece.
Eu sem ocupação
Com a caneta na mão
Pensando enganado que hoje é
Um dia como outro qualquer

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

UMA PROVOCAÇÃO

Pensando um pouco – e somente um pouco – sobre nossa atual condição de blogueiros mais voltados à escrita literária, cheguei a alguns pontos. Esses pontos não são de forma alguma conclusivos porque, para isso, os pensamentos teriam de ser um tanto mais demorados e profundos.

Considerando, também, a nossa posição opinativa – pelo menos daqueles com quem conversei – a respeito do veículo daquela mesma escrita, a artística, pude, então, ver claramente as duas questões, as quais, na verdade, se reduzem a apenas uma.

Destas duas opções, em uma nos encaixaríamos: ou seríamos um grupo de hipócritas/fingidores ou seríamos totalmente verdadeiros, entrando, porém, nuam grande contradição.

Explico-me

Se concordarmos em dizer que o livro é o melhor meio e o mais favorável à leitura de textos literários, e que a percepção destes só se dá de forma completa e profunda nas páginas de papel, estaríamos fingindo descaradamente ao trocar comentários os mais apaixonados possíveis, já que a tela de um computador é fria o suficiente para não permitir uma aproximação calorosa, necessária à literatura.

Por outro lado, seríamos totalmente honestos e sinceros com nós mesmos e com os amigos blogueiros; os profundos comentários seriam um puro reflexo da nem um pouco rasa percepção dos textos. Estaríamos, entretanto, nos contradizendo. Seríamos como que líderes ou precursores de uma revolução contra a qual nos voltamos. Revolução essa que teria como auge a popularização dos e-readers ou leitores de e-books, os livros eletrônicos.

Ou ainda, e por fim, uma terceira opção que me veio agora e que anula as duas anteriores: não escrevemos literatura. Nossos texto, portanto, são perfeitamente adaptáveis ao ambiente virtual.

Mas essa possibilidade eu descarto completamente. Escrevemos, sim, literatura. Nossa preocupação maior é o despertar da sensibilidade, é a leitura prazerosa, ou não, é a leitura angustiante. O que nos faz escrever, enfim, é saber que depois aquilo vai ser lido gostosamente.
Além do mais, somos nós que temos que nos adaptar, ao novo ambiente cultural que já está surgindo, o que é, naturalmente, bem mais difícil do que um ajuste biológico.

A questão única, aliás, de que falei mais atrás e em que tudo isso se converte é o quanto seremos resistentes a essa evolução da qual fazemos parte. Ainda que defendamos com unhas e dente nosso habitat - o livro - não podemos ser bairristas irracionais e nem, é claro, podemos nos entregar de bandeja a essa situação de mudança que tanto nos ofende. Afinal, somos seres humanos, temos o poder de agir sobre a natureza, sobre suas mudanças, acelerando-as, fazendo-as ir mais lentamente e até mesmo impedindo-as.

E é justamente por sermos seres humanos que não devemos nos preocupar tanto assim com o grau de frieza de um veículo de arte porque, além de ser veículo de arte, enquanto esteivermos aqui, tudo - embora fatos provem o contrário - mas acredito que enquanto existirmos, tudo será suscetível de sensibilização.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O CARRO, A MOTO E O LIVRO

Grandes amigos na infância e na adolescência, os três homens, já adultos, há muito tempo não se viam. Depois de se encontrarem pela Internet, num site de relacionamentos, decidiram fazê-lo pessoalmente – é, às vezes a tecnologia causa algumas redundâncias. Combinaram lanchar em um café no centro da cidade.

O primeiro a chegar desceu de um ônibus, andou um pouco e no fim de uns cinco minuto não viu nenhum rosto conhecido. Sentou-se a uma mesa e, enquanto esperava, ficou rascunhando uma folha de papel já rabiscada que tirou de entre as páginas de um livro. Perguntado se queria alguma coisa para comer ou beber, ia dizer que ainda não, que esperava uns amigos, quando estes o interromperam súbita e simultaneamente, quase com um grito:

- A gente vai querer três "cappuccinos"!

O atendente, com uma caderneta na mão, deu um pequeno pulo com o susto que tomou. O que estava sentado pinoteou na cadeira e virou-se com o coração aos pulos: "Mas que...?" - engoliu o resto da pergunta que fez em pensamento. Mas não deixou passar o erro que ouviu dos amigos; depois de se cumprimentarem e sentarem-se todos, falou ao garçom, baixinho:

- É, pode trazer três cappuccini.

- E traz também - determinou um dos outros dois - três pedaços de... Não, não, eu quero torta. É, três fatias de torta. Qualquer uma tá bom.

Decidiram, também, quem começaria a falar. Tendo um amigo de cada lado, o homem que chegara adiantado levou novo susto quando recebeu dos dois, quase ao mesmo tempo, aquela pancadinha camarada perto do ombro, comum no cumprimento masculino. O que o surpreendeu mesmo foi a batida não tão camarada e, além disso, os dois, no ato do gesto, atropelaram-se na fala pedindo ao outro que falasse:

- Diz aí, meu chapa!

Isso soou como um eco desarmonioso e super desagradável aos ouvidos do pobre homem, os quais se sentiram imprensados, esmagados verbalmente.

Pareceu-lhe, também, ao homem que já tinha guardado o papel dentro do livro, que não era a primeira vez, depois de muito tempo, que aqueles dois se encontravam. Tinham uma certa semelhança nos gestos e na fala, e mesmo uma sincronia, que impressionava.

E se queriam que ele dissesse, mais que isso, também queriam dizer. Não ouviram uma resposta do interlocutor em comum e já se puseram a falar de si. Primeiro o da esquerda, que, apontando para o lado da rua, queria mostrar algo de que se orgulhava:

- Tão vendo ali - dirigindo-se aos outros dois - tão vendo aquela máquina? Aquela potência? - dizia isso de um moto alta e vermelha estacionada em frente ao café. E continuou: - Pois é, comprei ela...

Mas o outro, da direita, meteu-se no meio e foi falando, exultante:

- Isso é porque tu não sentiu a força da minha Hilux 2010! Além de tudo, é linda - e estendia o braço em direção a um carro com carroceria e prateado, também parado em frente ao café.

Houve uma rápida discussão (no bom sentido) entre os dois a respeito de seus respectivos veículos, durante a qual chegaram os pedidos. Um dos dois, com a boca meio cheia de torta, parou a discussão inacabada e voltou-se repentinamente para o outro que, até aquele instante, só havia pensado o quão estranho estavam aqueles dois; não estava reconhecendo-os. Desde a última vez que tinham se visto, no último ano do Ensino Médio, aqueles dois haviam mudado muito. Dessa vez, porém, falou, quando foi requisitado:

- E tu, não fala nada. Como é que está a vida? Tem esposa? Tem filhos? Tu não coloca nada lá na Internet pra gente ver, macho!

De fato, o homem não punha quase nada na sua página individual - pouquíssimas fotos, nenhum vídeo e algumas frases um tanto subjetivas e herméticas. Por outro lado, soube de quase toda a vida atual dos antigos amigos só clicando aqui e ali.

Pensando em brincar um pouco com os dois, engoliu o pedaço de torta e falou:

- É que eu sou um pouco reservado, vocês sabem. Quanto à esposa, casei uma vez. Passamos um bom tempo juntos, mas nos separamos; foi quando eu estava com ela que tive o primeiro filho. Depois quis ter o segundo e ela já não me apoiava mais. Então, vocês sabem...

- É, eu sei. Mulher é foda mesmo. Quando empaca numa coisa, não tira mais da cabeça.

- E tu tá cuidando sozinho desse filho? - perguntou o outro. Tá trabalhando em quê?

- Pois é. Como eu queria, tive ainda outro filho. Trabalho mesmo foi fazê-los...

- Que nada, cara! - atalhou o outro - O mais fácil é na hora de fazer. Depois é que você tem que aguentar o tranco, a barra pesada.

- Mas pra mim o difícil mesmo foi fazer. Suei pra caramba...

- Quem é que não sua nessas horas? - disse o mesmo, gracejando, que interrompia já pela terceira vez.

- Suei muito. E a gestação deles não demorou só nove meses. Pra nascer, pra vir realmente ao mundo, o primeiro custou uns dois anos.

- Como assim? Tu fala e parece que foi tu que engravidou!

- E esse dois anos! Que história é essa!? - perguntou o mais afobado.

Estava se divertindo com a confusão dos dois. Sem responder a nenhuma pergunta ainda, continuou:

- O meu trabalho eu já fiz. Agora é só esperar o retorno financeiro, se tiver, desses pestinhas que me ocuparam tanto tempo. Ganho dinheiro às custas da minha prole.

- O quê!? - ecoaram novamente os dois.

Um prosseguiu no espanto:

- Tu bota os teus filhos pra trabalharem pra ti? - E não hesitou em dizer: - Mas que porra é essa!? Que tipo de pai é tu?

Parou, enfim, com a brincadeira, com a irreverência e percebeu que aqueles dois nunca ouviram falar no seu nome e, se não fosse aquele dia, jamais saberiam o que ele fazia. Apanhou o livro que estava sobre as suas pernas e o mostrou aos amigos:

- Este é meu filho mais velho.

Surpreenderam-se os dois; ambos tiveram um rosto indescritível. Ficaram um tempo calados, olharam-se e, finalmente, e de novo, agora sem muita surpresa por parte do outro, parabenizaram o amigo no mesmo instante; um "parabéns" bem insosso e irônico:

- Ah, parabéns. Eu não sabia que escrevia, que tu era escritor.

- Pois é.

E entre gargalhadas por se perceberem vítimas de uma pegadinha, um deles perguntou ao outro, que também tremia de rir por ser o armador da brincadeira:

- Eu vou querer esse aí. Quanto é que tu quer nele? Dez reais tá bom? - e foi tirando a carteira.

"Que miserável" - pensou o autor do livro - "Dez reais!..." Mas falou:

- Não, não! Esse aqui eu trouxe pra dá de presente mesmo.

Tirou o papel de dentro do livro e disse

- Toma, pega. Eu não quero nada, esse é presente. Depois te dou um também - dirigindo-se ao ou outro.

Terminaram o lanche e, na despedida, ficaram de se ver de novo, queriam reestabelecer a amizade.

O primeiro a chegar também foi o último a sair. Viu a moto e o carro dispararem rua a fora e ficou esperando o ônibus. Chegou ao apartamento, pegou a folha de papel do bolso, sentou-se à escrivaninha e pôs-se a escrever para terminar o que começara.

Terminei de escrever, está pronto, mas não mostro este conto àqueles dois, nem a ninguém, nem se virarem os meus leitores mais assíduos e fanáticos. E, pensando bem, seria uma ótima estratégia para as minhas publicaçoes póstumas: um texto ainda não lido. Mas deixa pra lá, porque certamente não seria este.






























quinta-feira, 17 de setembro de 2009

HOMEM SEM BRAÇOS

O homem é mais amplo que o céu
O homem é mais vasto que o mar
Mas o homem se perde no céu
O homem se afoga no mar

O homem só vê o grandioso
O homem é tão pequeno!

O homem é maior que tudo
Migalhas se passam de mundos
O homem tem grande visão
Mas os braços são curtíssimos

São cotocos, são nada
Não abarcam outra infinidade

O abraço de infinitos
Portanto é impossível
Só há visão, vontade
As pernas e os braços... puf!

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

D. APARECIDA

Hoje, vendo-me entre pessoas tão importantes, que decidem o destino de tantas outras todos os anos, lembro-me de minha saudosa mãe. Imagino que ela ficaria feliz ao ver seu nome impresso, não em um papel qualquer, mas em um papel publicado. Antes de tudo, então, o nome: Maria Aparecida Nunes ou “D. Aparecida”. Mas ela ainda não estaria satisfeita. Um nome não se sustenta por si só, é preciso que o repitam. E para isso é necessário um forte significado, algo que o dê peso e faça com que as pessoas se lembrem dele. Assim como os juristas doutrinários, cujas citações são indispensáveis em qualquer página do direito, ou, em outra área, um Machado de Assis, e ainda um tal de não sei o quê Passos, que surgiu agora e de quem falam tanto.

O fato que vou contar é, no mínimo, pitoresco. Quanto à significação, vejamos.

Naquele ano, eu estava concluindo o curso de Direito. Morava com minha mãe e, até pouco tempo dali, éramos mantidos apenas com a renda vinda de um comércio, cuja administração era responsabilidade exclusiva dela. No entanto, eu arranjara um emprego – auxiliava as atividades em um escritório de advocacia. Hoje, auxiliam-me também. Pude contribuir com as despesas da casa e, excetuando outros gastos, tinha economizado meus primeiros vencimentos a fim de comprar uma casa para mim.

E comprei.

Na mudança, quando fui despedir-me de mamãe, deu-se o fato.

Àquela época, meus vinte e poucos anos não me permitiam um extraordinário senso de organização. Meu quarto não era dos mais ordenados. Cadeira como cabide para as camisas, camisas sobre livros, livros abertos sobre a cama e a cama servindo de resumo para toda aquela balbúrdia.

Poucos meses antes do dia que deixaria a casa materna, comecei a perceber que os livros, e somente os livros, se isentavam da bagunça. Todos os dias, ao chegar do trabalho, eu não os via onde tinha deixado. Mudavam-se para a estante, enfileirados na prateleira, em uma harmonia horrivelmente contrastante com todo o resto do quarto. Estranhei à primeira vista, obviamente, os livros no lugar deles; envergonhei-me, até, por perceber o quanto eu era displicente. Mas, sobretudo, gostei de ter minhas coisas, ou parte delas, arrumadas. De resto, continuei economizando minhas ralas receitas para aplicá-las na compra da casa.

Casa comprada, alguns móveis arranjados, coisas juntadas, fui dar tchau a D. Aparecida, que estava, claro, cuidando do comércio. Assim que entrei, estanquei. Tomei um pequeno susto e fiquei observando. Mamãe não me viu – atendia umas pessoas no balcão, um pouco a frente de onde eu estava – mas eu a vi. E ouvi.

Ela quase gritava, falando alto com os do outro lado do balcão. Eram dois homens e uma mulher, que contestavam o que mamãe dizia, tentando superá-la no tom de voz. Daquele alarido, contudo, pude distinguir bem o que falaram.

- É isso mesmo! um real. E eu não quero saber se é absurdo, meu senhor! – falou mamãe, levantando a voz e dirigindo-se ao mais insistente no retruque que, tentando se acalmar, persistiu:

- Vamo, mulher, me dá logo esse cigarro, que eu já to ficando nervoso – pondo uma moeda sobre o balcão.

- Tá faltando 75 centavos.

- Ora! Mas que droga é essa?!

Pude enfim entender o que estava acontecendo e o que havia acontecido, quando mamãe respondeu:

- Ora digo eu! E eu não quero ouvir palavrão aqui, não! falou irritada. E continuou, séria e, pude perceber pelo queixo elevado, com uma certa altivez – O senhor nunca ouviu falar no Princípio da Seletividade? Pois é. Se não sabe, ele fala que todo produto supérfluo tem que ter uma maior alíquota, que esses produtos devem ser altamente taxados.

O quê?? Foi o que pensei. O fumante irritado não deve ter pensado muito diferente. Porém, enquanto eu, muito surpreso, sabia do que mamãe falava, embora sem saber por quê, o homem do outro lado do balcão, já sozinho, franziu a testa de um jeito!...

- A senhora tá tentando me enrolar, é? falou, levantando a voz e os braços. Sacudindo as mãos, como se espantasse um cachorro sarnento. – Ah! esbravejou, e saiu resmungando. Mas ouviu, ainda, algumas palavras da estranha D. Aparecida. Denunciando a fumaça do cigarro, defendendo o meio ambiente e dizendo ser uma das poucas pessoas a “fazer a diferença nesse mundo indiferente”, ficou falando sozinha, numa espécie de protesto repleto do jargão jurídico, o qual eu bem entendia, mas do qual eu não entendia o contexto.

Aproximei-me e a fiz parar de falar. Muito curioso e assustado, perguntei o que havia sido aquilo. Como resposta, ou sem ligar para a minha pergunta, continuou entusiasmada com o mesmo discurso. Complementou, ainda, dizendo que não poderíamos só esperar pela ação dos governantes. Ela enfim parou ao perceber o meu olhar de estranhamento e medo. E me respondeu, com raiva, que só era velha, mas não estava morta e que, além do mais, estava ajudando tanto os fumantes a se livrarem de vício tão danoso quanto o governo – pelo qual não esperava – a cumprir um princípio tão importante. Sentia-se, portanto, muito feliz com isso, mesmo não vendendo um cigarro, pois era esse o objetivo.

Atônito diante daquela eloqüência, preferi não contestar uma palavra e apenas me despedi, dando-lhe um forte abraço e um grande beijo no rosto. Deixei um livro no quarto dela; talvez encontrasse, nas suas leituras, o capítulo das competências tributárias e visse que as alíquotas do IPI, imposto sobre o qual ela agiu, são fixadas somente pelo Poder Executivo. Mas creio que não encontrou, porque até o final da vida permaneceu com aquele entusiasmo surgido de repente e uma filantropia eufórica de jovem que reza gritando mas não sabe da missa a metade.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O MELHOR MESMO É NÃO SE APAIXONAR

O melhor mesmo é não se apaixonar. Foi o que me disse um amigo, com o qual perdi contato há um tempo, quando lhe contei a história na qual ele tinha sido um dos personagens.


Mas como um personagem pode não saber da história da qual participa? É curioso mesmo. E engraçado; ri muito do que se passou. Corrigindo-me, não foi exatamente hilário; ri mesmo foi do ridículo de tudo aquilo. Mas foi o que aconteceu.


Durante cerca de um mês, assisti a um espetáculo que se apresentava a mim diariamente. Tendo por cenário um aconchegante e distraído escritório de Recursos Humanos, os três protagonistas se envolvem - ou não - numa irrisória e lamentável peça que a vida, docemente, prega pra eles.


Com o desfecho em minhas mãos, e aproveitando a folga do domingo, falei a Sílvio tudo o que ele não havia conseguido ver. Pela manhã, o chamei ao meu apartamento. Almoçamos e depois contei.


- Faça o favor de pular a minha parte, falou ele, chateado, antes de eu começar. Não preciso e nem quero saber de mim mesmo. Aliás, não sei o que eu estou fazendo aqui. Isso tudo já me aborreceu demais.


-Calma, calma. O que vou te falar não é nada além do que realmente aconteceu. E, ora, por que eu não falaria de ti, meu grande amigo Sílvio? Eu gargalhava por dentro, assim como hoje eu faço, só que abertamente, ao lembrar desse episódio que descrevo agora; por dentro, porém, apenas um risinho, que não dava para conter.


- Por que eu te deixaria de lado? Não, nunca faria isso. Além do mais, foi a melhor parte da trama; ou do drama. Ou seria comédia?


- Não venha me irritar mais, seu...


- Do que mais me lembro é da sua cara, quando tudo começou. E, pelo que me vem à mente, não era tão carrancuda quanto essa que você tem aí agora. Era a de um bobo, um lunático, cujos pensamentos só eu, como maior amigo, poderia tentar adivinhar e deduzir do que tratavam. Foi o que fiz. Não precisou muita observação pra concluir, com uma certa raiva, que você estava caidinho por Helena. Um bobo mesmo!


E assim eu contava, como que sem pausa na fala. O máximo que Sílvio fazia era erguer o dedo, querendo se pronunciar. Mas eu o atropelava e prosseguia com a minha elaborada palestra. Para dar efeito à enunciação, rodeava-o lentamente e parava, ele sentado à mesa me escutando. Fui nisso até o final, quando me sentei.


Tomado por uma raiva, ainda que contida, e por um divertimento que tudo aquilo me causava, continuei:


- Isso mesmo, um bobo! Um abestalhado! E não te chamo assim à toa. Saiba que naquele tempo, fiquei sabendo que Helena estava de olho em outro, o Mário. Dessa vez, Sílvio levantou o dedo e abriu a boca, mas não deixei sair nada. Se acha estranho ou se se aborrece por não ter te contado na época, deve imaginar agora também quanto rancor guardei por não saber que o meu amigão não me disse sequer uma palavra sobre o que lhe ocupava tanto os pensamentos. Preferi, então, só te observar, pra ver onde tudo terminaria. E depois que ouvi, entre a recepção de um e outro candidato a emprego, depois que escutei Helena cochichar com a marta e dizer que estava "a fim daquele gatinho, o Mário" ah que nojo! decidi prestar mais atenção à Helena. Quando percebi, já tinha sob minha vista três seres que, sem saberem, ora me irritavam, ora me faziam rir. Por tabela, me voltei também a Mário.

- Mas eu...

- Não se preocupe, falei, apertando os ombros dele, pois eu estava naquele momento atrás da cadeira. Você foi que mais me divertiu. A sua cegueira, a sua maneira de se enganar foi singular. Estava ridiculamente apaixonado e não conseguia ver nada a um palmo à frente do nariz. Coitadinho! Odeio qualquer tipo de torpor. Mas o seu caso era diferente, não era? Era. Você achava inconcebível a idéia de que Helena pudesse gostar de outra pessoa. Lembra? Você mesmo me disse isso quando tudo acabou. Ou melhor, nem começou. Além de tudo, ainda é medroso; não teve coragem de se aproximar dela. O que te torna um homem muito contraditório: apaixonado e medroso. Pelo que vejo na TV e nos livros, geralmente não é assim.

Nessa hora, vi que Sílvio mudava de raivoso e nervoso pra tristonho. Se ele não disse nada, foi antes pelo que mestava sentindo, porque parei de falar assim que o percebi daquele jeito. Eu, porém, tinha de terminar o que havia começado. Não podia abandonar a direção com o carro andando; tentei ir por um caminho menos desconfortável pra Sílvio. Eu sabia que ele não sentia mais tanto amor assim por Helena, então enveredei por ela.

- Helena não agiu muito diferente. Afinal, também estava apaixonada.

Sílvio realmente me assustou quando, com ódio na voz, gritou – Uma vagabunda!

- É, continuei. Uma vagabunda que não enxergou os teus sentimentos, que só tinha olhos para outro. Toda vez que a via pelos corredores do escritório, eu sentia raiva dupla daquela cachorra. Falava palavras assim a fim de despertar em Sílvio algo que substituísse a tristeza, mas não surtiu o efeito esperado. Talvez estivesse arrependido, porque de vez em quando ficava cabisbaixo. Insisti. Isso não pode: além de desperdiçar tempo pensando num homem que não estava nem aí pra ela. Isso mesmo, Mário era o único que poderia sair a salvo dessa história toda. Já, já eu chego nele. Além disso, a vagabunda ainda fez, e está fazendo , o meu amigão aqui sofrer. Ela, pelo menos, se aproximou do Mário e, como você já sabe... Assim que Marta ficou sabendo do sentimento da amiga, arregaçou as mangas e tratou logo de aproximar os dois. Pois é, existem na Terra esses seres chamados “cupidos”, que gastam o tempo a concretizar a irracionalidade e a pieguice das paixonites agudas. Como eu soube você pergunta? Às vezes, apenas a observação não basta. Tive de ir a campo e, discretamente, tirar essa informação de Marta. O que não foi lá tão difícil... Não é à toa que ela está na recepção.

- Enfim, e sentei-me de frente pra ele, que já estava perceptivelmente esmorecido; o olhar distante, o corpo relaxado. Ver isso, em parte, foi bom; era quase certo ter conseguido meu objetivo. Mas pra arrematar com sucesso, as últimas frases foram essenciais.

- Enfim, o Mário, que era neutro nisso tudo e podia sair sem seqüelas, foi atacado em cheio pela embriaguez quando cedeu aos galanteios da famosa bêbada.

E um enorme sorriso abriu-se dentro de mim quando, ainda sem me olhar diretamente, Sílvio disse:

- O melhor mesmo é não se apaixonar.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

NOBREZA

Três filhas criadas e um filho, o qual tinha acabado de sair dos vinte anos. Os pais, experientes em fazer formar nos filhos uma personalidade independente, viam com raiva o caso do filho mais novo. Talvez fosse a idade, que lhes enfraquecia os ossos e os nervos. Não agüentavam mais, como antes, a pressão que, com a criação de um filho, vem de ambos os lados: o físico e o emocional. Talvez fosse a mudança; tinha tido três meninas e depois viera um garoto.

A verdade é que somente os pais e as irmãs e quase todos que conheciam Návilo não o consideravam tão independente quanto ele se dizia. Mas ele gritava-se livre, muito livre. O único, aliás.

Ora, só ele aproveitava realmente os amigos que tinha. Saía com eles e com eles brindava abundantemente as alegrias e chorava as tristezas. Estas eram logo esquecidas e tornavam-se motivo para mais um brinde. Só ele, dentre todos da sua família, era livre para amar plenamente qualquer pessoa, porque aprendera com um guru que tudo está interligado: as estrelas e as pessoas, os animais e as pedras, as árvores e Jesus; tudo é uma coisa só. E ele, sendo parte de tudo isso, sentia-se em harmonia com a natureza, da qual, para manter essa ligação, tinha de ter a maior proximidade possível. Comprava, então, jarros com mudas de plantas e punha no seu quarto. Seu café-da-manhã era com pão integral, iogurte natural, linhaça e outras sementes encontradas em lojas de produtos naturais.

Livre das “pecaminosas ambições humanas” que, dizia ele inflamado, destroem tudo que tocam, também não era nada apegado ao dinheiro. “Esse demônio de bolso não me domina, não preciso dele para viver!” gritava ele aos que lhe aperreavam o juízo, aconselhando-o a arranjar um trabalho depois de lhe negar um pedido de dinheiro. Os acessos de raiva, contudo, não partiam só de Návilo. Seus pais e suas irmãs de vez em quando desentalavam a garganta falando tudo o que o “pivete irresponsável” devia ouvir.

Návilo, às vezes, nem esperava terminarem e se trancava no quarto, triste e raivoso, impossibilitado de enfrentar aqueles parentes incompreensíveis. Tão egoístas, tão mesquinhos, tão rudes, tão... Não o aceitavam como ele era, tinham-no como um intruso folgado e preguiçoso, um fardo. Pois se fosse realmente assim, facilitaria satisfeito o trabalho daqueles incessíveis para conseguir o seu exílio familiar. Estava decidido, alugaria um apartamento e sairia dali o quanto antes. Falou a decisão aos pais.

Não fosse pela raiva, pelo desespero, Návilo talvez tivesse observado melhor e percebido a própria situação. Não estava em condições de se rebelar e sair de casa assim, sozinho e sem um tostão.

Mas, de qualquer forma, ele saiu. Para não dizer que se sentiram aliviados, o melhor é falar o quanto os pais ficaram indiferentes ao receberem a notícia do caçula. Tinham tido a mesma idéia que o filho. Haviam alugado um apartamento para Návilo e só esperavam o melhor momento para contar a ele. Uma discussão em que todos estivessem de cabeça quente seria ótimo. Porém, enfim, nem foi preciso.

Ele não esperava que os pais implorassem para ele ficar, não imaginou uma cena em que todos choravam sua despedida; passou-lhe pela cabeça, contudo, que se pedissem poderia reconsiderar. Mas não, aquilo foi horrível.

Depois de todos os pensamentos de ressentido, vieram os de orgulhoso.

Não podia hesitar, era sua liberdade que estava em jogo, aproveitaria ela plenamente; estaria longe dos que tentavam limitá-lo. Que ficassem sós com seus demônios, que ele se viraria muito bem sozinho.

E orgulhoso, foi.

Orgulho que, na primeira semana, foi substituído pelo desespero de se ver sem o apoio, digamos, familiar. As asas de Návilo, cujos músculos eram fornecidos e fortalecidos pelos seus pais, perderam força e se atrofiaram no momento em que se afastaram da fonte de nutrição. Ele estava como um pássaro filhote ousado que, vendo outros semelhantes voarem, tenta fazer o mesmo, pulando do ninho e abandonando a ave mãe. Tinha sentido a dureza e aspereza do chão e piava.

Não suportando mais a falta que lhe fazia o bico da mãe, ligou para ela.

- Mãe...

quinta-feira, 30 de julho de 2009

CONVERSAS, E NÃO COM VERSOS (repostagem)

No APPLE, o Pedro, com aquela conversa de repostagem no blog, me fez pensar em repostar esse aqui. Há praticamente um ano eu o escrevi, mas não houve muitos comentários (só um, do Thiago). Por isso, ele está aqui de novo. Mas, prometo, não pretendo ficar fazendo isso de repostagem.

Ele acordou e, ainda deitado, sorriu: pensava nos amigos, que dali em pouco iria rever, como quase todos os dias. Adorava a presença deles, poder conversar, sobre tudo.
Levantou-se e viu aquele quarto vazio, só ele ali. Não se sentiu tão à vontade, mas logo lhe veio outro sorriso confortante, lembrou-se de como aquele espaço ficava cheio e animado quando os seus amigos iam lhe visitar. Foi, então, cumprir os primeiros afazeres do dia. Mas o que faz um estudante adolescente no começo de um domingo?
Estava na hora de ir encontrar os amigos e bater aquele papo gostoso. Nada melhor que uma boa conversa! O tempo, nessas horas, torna-se um inimigo.
Antes de sair, mexia na estante sempre desarrumada quando viu uns papéis soltos, com versos escritos por ele. Veio-lhe um ímpeto de jogar todos no lixo; para nada serviam, senão desarrumar a estante e tomar-lhe o valoroso tempo. Não diziam muita coisa: versos sem sentimento. Foram parar na lixeira do banheiro. Bastava de tentativas de sentir, para isso havia os amigos, as conversas com eles, um abraço, um beijo na namorada e tudo com o que é possível sentir realmente, sem se ter o trabalho de versejar.
Desapontado consigo por ter percebido o quanto havia perdido se dedicando àqueles versos, ficou ali parado, sentado na cadeira. E uma folha foi sendo rascunhada. Versos. Os únicos com algum sentimento, talvez.
De vós, de vós eu não preciso!
Necessito é de voz
Eu não vos sinto
Sinto muito
Não me tornastes poeta algum
Só roubastes meu tempo
Pensando em vós
Esqueço a vida
Até nunca mais, senhores
Perturbai outra vida
Vontade de sentir
É o que sinto

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Há vidas que tomam rumo. A minha decidiu arrumar tomos.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

O QUE DIZEM OS LIVROS

Essa é antigona:

E assim fala um bom livro
- Leia-me que eu te livro
Da mais dura corrente
Que é não ter nada na mente

E assim diz um livro aberto
- Venha que eu te liberto
Da pior escuridão
Que cega e aleja a mão


Por fim diz um livro escrito
- Quer conhecer o infinito?
Conheça meus parentes
Passados e descendentes

quinta-feira, 25 de junho de 2009

FORTALEZA

Fortaleza
Cidade bela
Cidade deles
A brônzea cor
Te ilumina a pele
E outros corpos
Sentem teus prazeres.

Fortaleza
Cidade minha
Cidade minha
As tuas ruas
Gritam-te "mesquinha!"
E o teu povo
Entorta a boquinha.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

GERAÇÕES (CONT.)

Tá aí a "segunda parte" do texto. Para não ficar sem nexo, boto o último trecho da parte anterior:

...Ana Clara, no entanto, não reconhecia o esforço da avó e irritava-se, às vezes, com o cuidado excessivo de D. Alzira, soltando-lhe gritos mandando que a deixassem em paz. Entre aquelas duas gerações, onde deveria haver um elo existia um imenso abismo.

D. Alzira não resistiu: chorosa, buscou o ombro do marido, que a confortou um pouco. Mas as lágrimas na camisa de Seu Alfredo não secaram tão rápido assim. No outro dia, assim que acordou, ele foi ter uma conversinha com a garota “atrevida”, “respondona” e “mal-educada”.

- ‘Bora, menina, acorda! gritou Seu Alfredo, entrando no quarto onde Ana dormia. Acorda, acorda! Tô falando contigo, menina! continuou, aproximando-se da cama e sacudindo a garota pelas pernas.

Ana Clara acordou assustadíssima; pulou da cama e em um segundo ficou em pé, perturbada pelo despertar repentino. O que foi, o que foi?! Passou os dedos nos olhos, agitou a cabeça e os sentidos foram se recuperando.

Seu Alfredo ainda resmungava, gritando. Ana percebeu quem tinha lhe acordado, só não entendeu por quê. Mas não procurou saber; estava muito cansada, odiava ter de viver com aquele velho e não agüentaria esse desaforo.

- Olha aqui, seu velho nojento!...

O bate-boca só teve fim quando Seu Alfredo, velho conhecido da hipertensão, tombou no chão, ali mesmo no corredor, e bateu com a cabeça na parede, derramando sangue e morrendo poucos minutos depois.

Limpou-se o sangue, limpou-se o corpo e foi limpo, também, o episódio daquela triste manhã.

O tempo acalmou os ânimos. Exceto os de Ana Clara que, apesar de carregar uma barriga crescente, mesmo com um cansaço desanimador, não renunciou das suas saídas com as amigas. Digo, ela não tinha renunciado até aquela noite em que a vimos entrar cautelosamente em casa. Ela foi direto à cozinha.

Ana abriu a geladeira e no mesmo instante fechou: não gostou nada do que viu. Olhou ao redor e, sobre a mesa, viu algumas maçãs, peras e laranjas. Assim que mordeu maçã, sentiu algo no ventre se mexer. “Ah!”, soltou um gritinho de susto e largou a maçã no chão. Os próximos gritos, bem mais altos, foram para chamar a avó:

- Vó, vó, vóóó! Vem aqui vó!

D. Alzira emergiu da sua tristeza de repente, num sobressalto. Levantou-se custosamente, acendeu a luz da sala e, no mais rápido que pôde, dirigiu-se à cozinha. Chegou e viu Ana sentada numa cadeira, com as mãos na barriga, reclamando da demora da avó. D. Alzira puxou uma cadeira e sentou-se bem perto de Ana, de frente para ela. Passou a mão leve na barriga da neta, alisando, acarinhando; curvou-se para encostar a cabeça e ouvir a vida lá dentro.

Ana Clara viu-se numa situação embaraçosa: um misto de raiva (por não saber exatamente o que fazer) e tranqüilidade (por sentir-se em paz com a avó). Hesitante, pôs a mão sobre os cabelos brancos de D. Alzira e começou a alisá-los, bem devagar, ao mesmo tempo em que chorava, contida, lutando contra as lágrimas.

No dia seguinte, à mesa para tomar o café da manhã, as duas passaram alguns minutos que nem duas estranhas que se conheciam. Apenas os olhos falavam, inquietos, e, nas passagens pelos cantos da cozinha, a vista de uma corria pelo rosto da outra. Até que Ana quebrou o mutismo:

-Vó...

- Oh, minha filha! – antecipou-se D. Alzira – Desculpa por tudo, mas é que agora tu tem uma criança dentro de ti – disse, aproximando-se da neta – E ela exige cuidados. Não pode passar o dia no meio da rua assim, sem comer direito.

Se Ana Clara cessou as saídas, foi antes por causa do cansaço que começou a sentir nos meses que se seguiram. Nesse tempo, sentiu algumas sensações pertinentes a essa fase da vida feminina: dores nas costas, insônia e as incômodas contrações.

Veio a criança. E foi-se o que seria um início de conciliação, de uma aproximação maior. A chegada de Alfredo, como foi chamado, tomou toda a atenção de D. Alzira, que encontrou no filho o que, na mãe, não vira nem sombra: paz. Aqueles dois seres, aquelas duas sensibilidades, aquelas duas extremidades se encontram e mantiveram-se num auxílio recíproco. D. Alzira cuidava de Alfredo, banhava-o, dava-lhe comida, carinho, e este, sem saber, retribuía animando a vida da bisavó, fazendo-a voltar a sorrir.

Ana, que não quis saber muito do filho, até achou bom que os dois tivessem se entendido; seria menos preocupação (ou ocupação). Sentiu-se, porém, invisível entre eles. Não quis saber, enfim, de nenhum dos dois. E continuou vivendo como bem antes de conhecer os avós.