sexta-feira, 17 de abril de 2009

O CONFORTO DE CADA DIA

Eram oito e quarenta da noite quando o homem chegou em casa. A testa negra brilhava, reflexo do leve suor nela fixada; o cheiro de calor impregnava toda a roupa; o cansaço no rosto denunciava o quanto o dia fora difícil. A pasta de plástico que ele carregou consigo o dia todo, quando à noite foi posta sobre uma cadeira na sala, estava deformada. Mas estava vazia, e foi isso que fez com que ele entrasse em casa quase correndo e com um sorriso no rosto. Largou a pasta e quis logo abraçar a mãe, que preparava o jantar na cozinha. Naquela noite, nem perguntou o que iria ser a mistura; de tão feliz, havia se esquecido da fome. Passou o dia inteiro na rua deixando cópias amassadas do seu currículo em lojas do comércio da cidade e em escritórios de Recursos Humanos, que usavam o papel para anotações cotidianas.

A senhora só sentiu os enormes braços do filho a enlaçando, como se fossem esmagá-la. Ele levantou a coitada da velha, que nem a uma criança, e rodou naquele cubículo que era a cozinha, derrubando uma panela e dois pratos. Nem ligou pros protestos da dona da casa, que gritava, batia, se sacudia, mandando lhe soltar. O homenzarrão, de 27 anos, gargalhava, beijava sem parar a querida mãe. Esta, depois de ver que já não haveria janta e ter a certeza de que o filho enlouquecera de vez, tacou com toda a força a colher melada de feijão na cabeça daquele homem irreconhecível.

- Ai, mãe! – reclamou, como acordando do transe. E a colocou no chão.

- Tu ficou louco, Reginaldo?!

- Não, mãe, é que...

- Eu não quero saber. Tá vendo o que tu fez? Estragou a janta toda. Olha aí, que meladeira! – falou zangada. E sabendo que, apesar de não ter sido a causadora do desastre, iria ter que limpar tudo sozinha, tratou rápido de pegar o rodo e o pano para botar o precioso jantar no lixo. Nisso, balbuciava, baixinho, pragas contra o filho e a vida, duas coisas que arduamente tinha de sustentar. Reginaldo, que não ouvia as ofensas, tentava chamar a atenção da mãe; em vão. Sem perder a paciência, ele segurou os braços dela e a fez o encarar.

- Mãe, eu acho que vou conseguir um emprego – uma euforia na voz. É pra trabalhar nos Serviços Gerais num shopping. Eu vou poder ajudar a senhora, pagar as contas... Tudo vai melhorar, a senhora vai ver. Ainda não tá nada certo, mas ficaram de me ligar amanhã.

- Ah, é?! Tu bem que poderia começar me ajudando a limpar essa sujeira que tu fez aqui. Hoje a gente vai dormir sem comer, e a culpa é dessa sua loucura.

Assim que o chão ficou limpo, deu a hora de ligar a TV. Os dois, naquela noite, assistiram à telenovela sem o prato de janta entre as pernas. E, em frente à televisão, se esqueceram da fome e a mãe perdeu a raiva e o filho viu com era bom não trabalhar. Mas a resposta do dia seguinte por ora ansiava Reginaldo, o que não o desesperou, pois a esperança e a televisão ainda brilhavam fortemente.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

A VIDA JUSTIFICADA

- Ora! A vida é uma só!
- Calma! A vida é só uma!