segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

NEM TODO SANTO DIA É SANTO

Desculpem a prolixidade do texto.

Todo santo dia tratamos de dormir e de acordar, comer, fazer o que se faz. Mas nem todo dia é santo, então dormimos, acordamos, comemos e ficamos matutando; uma ideia besta nos toma a cabeça, no sono, ao nos espreguiçarmos ou na mordida do pão à mesa. Tendo a ideia se apossado devidamente, ainda fazemos o que se faz, mas não como se costuma fazer; o alheamento agora pretende ser de um nível maior que aquela indiferença rotineira. Ora, temos, a partir daí, se nos perguntarem porque andamos tão avoados, um motivo mais do que forte para dizer que por ora não respondemos imediatamente à questões frívolas - frente ao iluminado pensamento - como a tal pergunta, que não é de imediato respondida. Além dos demais estímulos externos, que se anulam.

A ideia que tive não me causou tudo isso, e não sei se por isso dou graças aos céus ou os amaldiçôu. Ela também não durou muito; antes do fim do dia já tinha me deixado, ou eu por mim a abandonei, o que mais uma vez me deixa confuso, visto que já me soltaram um "Deus te livre de uma ideia fixa" ao passo que a ideia fixa é que constrói homens fortes. Não sou forte. Sou besta, com uma ideia besta, não passa disso. O que pensei é no máximo curioso, e parte dessa curiosidade já se evapora se a mesma ideia passou por outra cabeça que não a guardou, como não guardo agora.

Trata-se apenas de uma observação do cotidiano, digamos linguístico, já que o objeto está na área da palavra falada. Para ser mais preciso, são duas falas, comumente pronunciadas por todo mundo, seja a pessoa religiosa ou profana. São as seguintes: "todo santo dia...", seguida de um complemento indicado pelas reticências e "nem todo dia é santo". A contradição é explícita. Talvez porque não façam parte dos chamados ditados populares, embora sejam exaustivamente ditos e bem populares


Os ditados, apesar de serem usados tanto, não se desbotam - às vezes uma nódoa aqui ou acolá - e seguem de boca em boca, de tempos em tempos, sem perder a força significativa. E assim só sobrevivem porque podem ser ditos por todos e por cada um. Nisso são iguais às falas citadas. E uma sentença à moda ditado prova o que aqui se diz: "Jesus não tem dentes no país dos banguelas", nome - para dar o crédito - do disco gravado pelos Titãs em 1987. É simplesmente a adaptação humana, que não deixa de agir no campo das ideias. Se o dia é santo ou deixa de ser, isso não importa, o que vale é a ação da palavra sobre a realidade, a que nos é chamada a atenção pelos ditados e pelas falas em questão, enfatizando-a.

Se foi santo aquele dia em que os raios do Sol nascente iluminaram muito mais que o meu quarto, chegando a invadir os aposentos do meu cérebro - alguém falaria ser um contato com os próprios deuses - ou não, se não foi nada santo o dia em que no meu quintal plantei uma árvore da ciência do bem e do mal, cujo fruto mordido me fez olhar para algo invisível aos ouvidos e perceber a santa contradição que há séculos se estabelecera, sinceramente não sei dizer. O fato é que naquela noite eu não sonhei com os anjos.

acho que estou lendo muito Saramago.