quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

ESPELHO DO MUNDO

Às vezes, quando me faltam idéias e assuntos, pego o meu caderninho e me debruço sobre uma folha em branco, à procura de estímulo. Isso bem que funciona, mas é uma angústia danada até surgir a primeira frase. Uma impaciência que me faz roer as unhas. E quem é que gosta dessa sensação? Então, para enfraquecer essa coisa queratinívora – porque ela não morre – pus-me logo a definir as primeiras linhas, que são essas.

Agora posso prosseguir com mais calma. Digo, agora eu posso iniciar, pois algo já germina nesse solo regado por muito barulho diário que é a minha cabeça. Iniciemos o que importa. Ah, cabe dizer aqui, também, que foi meu irmão caçula, de dez anos, quem me deu de bandeja o que faltava para construir o que se segue. Agora, chega de blá, blá, blá.

Quando ouço uma criança dizendo, tão veementemente, a expressão “Ai, meu Deus!”, repito-a só para mim, apavorado: ai, meu Deus! Ora, isso nunca devia sair da boca de uma criança, não podia existir na mentinha desses seres que deveriam ser inocentes e despreocupados. Há questões que dizem respeito somente a adultos. Esse “ai, meu Deus!” é de propriedade exclusiva dos marmanjos e marmanjas; mas aí vem uma criança traquinas e, com sua travessura, furta isso dos pais, tios e professores. Não sabe ela que é feio roubar. Um bando de adultos irresponsáveis! Que não perdem uma só chance de reclamara para o vento, como se estivessem sendo cutucados.

Dentre as variações de uso - susto, surpresa, decepção, raiva -, essa expressão é a mais comum manifestação de suplício; quase involuntariamente, a Deus nos queixamos. Às vezes seguida por um bufo, é dita, como todos sabem, quando a pessoa enche até a tampa e transborda. Mas os pequeninos não têm tampa, eles são o período em que tudo é absorvido e tudo é liberado. Talvez esteja aí causa de tanto se ouvir eles (os pequeninos) se lamentarem. Poder-se-ia dizer que as crianças são o espelho do mundo. Basta olhar para elas para perceber como está o resto, pelo menos socialmente. Como se fossem o termômetro em um corpo febril ou as células nervosas de um cérebro gigante. Cuidemos, então, de nossa saúde mental e procuremos manter nossa temperatura em 37°C. Olhemos para as nossas crianças, elas nos dizem alguma coisa a mais que “Ai, meu Deus!”.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

TUDO PASSA

Para quem deseja morrer, não há nada mais confortante que a vida. Foi o que Nair mais ou menos pensou ou sentiu ao acordar naquela manhã.
Na noite anterior, ela apenas escutou. Os gritos do violento bate-boca entre os pais, àquela altura, já eram suficientes para deixá-la extremamente nervosa. Não teve coragem para ver, mais uma vez, os dois se agredindo. Ficou deitada na cama, rolando para lá e para cá, inquieta; os gritos vindos do quarto vizinho a perturbavam muito. As mãos puxando os cabelos com força, a pressão forte da mandíbula, o rosto avermelhado, a respiração forte. Aaaah! Quando é que isso vai acabar?!

O pai de Nair era garçom. Eram dez e trinta e cinco da noite quando ele chegou. Como o esperado, estava bêbado. Ele saíra no começo da tarde, sem dizer aonde iria exatamente.
- Vou me encontrar com uns amigos. Mais tarde eu tô chegando.
Somente isso. O bastante para as duas que ficaram em casa terem a certeza de que voltaria bêbado.
Para ele, nada melhor que os feriados. Nesses dias, não ficava apenas vendo os outros beberem.

Passava das onze e os dois ainda discutiam. Não se limitavam às ofensas e promessas de separação. Mesmo tonto, ele pegou ela pelos braços e a jogou brutalmente sobre a cama, fazendo-a cair do outro lado.

Nair pôs as mãos sobre os ouvidos e apertou, apertou, apertou. Não agüentava mais escutar os gritos. Se pudesse, explodiria a cabeça com as mãos ali mesmo. Aaaah! Um berro para espantar os dos pais. Quando percebeu, Nair só escutava o seu desespero. De novo, tudo havia cessado. E, de novo, o sono abateu aquele corpo de quinze anos. O sono, o alentador e compreensivo sono, a parte do dia de que Nair mais gostava, depois do amanhecer, é claro.
Ela acordou e tudo da noite passada tinha sumido. A casa estava silenciosa, ouvia-se apenas uns passos na cozinha, um cheiro de café. Seus pais estavam lá. Conversavam. Ela apareceu e, apesar de não ter esquecido aquela noite, viu que ainda estava viva, todos os três estavam ali, tomando o café-da-manhã juntos.
Nair tinha certeza que noites como aquela iriam se repetir. Mesmo assim, também sabia que a vida (ainda que no seu sentido mais restrito – a dormente passagem do tempo) haveria de acalmá-la e, quem sabe, resolver tudo.