Três filhas criadas e um filho, o qual tinha acabado de sair dos vinte anos. Os pais, experientes em fazer formar nos filhos uma personalidade independente, viam com raiva o caso do filho mais novo. Talvez fosse a idade, que lhes enfraquecia os ossos e os nervos. Não agüentavam mais, como antes, a pressão que, com a criação de um filho, vem de ambos os lados: o físico e o emocional. Talvez fosse a mudança; tinha tido três meninas e depois viera um garoto.
A verdade é que somente os pais e as irmãs e quase todos que conheciam Návilo não o consideravam tão independente quanto ele se dizia. Mas ele gritava-se livre, muito livre. O único, aliás.
Ora, só ele aproveitava realmente os amigos que tinha. Saía com eles e com eles brindava abundantemente as alegrias e chorava as tristezas. Estas eram logo esquecidas e tornavam-se motivo para mais um brinde. Só ele, dentre todos da sua família, era livre para amar plenamente qualquer pessoa, porque aprendera com um guru que tudo está interligado: as estrelas e as pessoas, os animais e as pedras, as árvores e Jesus; tudo é uma coisa só. E ele, sendo parte de tudo isso, sentia-se em harmonia com a natureza, da qual, para manter essa ligação, tinha de ter a maior proximidade possível. Comprava, então, jarros com mudas de plantas e punha no seu quarto. Seu café-da-manhã era com pão integral, iogurte natural, linhaça e outras sementes encontradas em lojas de produtos naturais.
Livre das “pecaminosas ambições humanas” que, dizia ele inflamado, destroem tudo que tocam, também não era nada apegado ao dinheiro. “Esse demônio de bolso não me domina, não preciso dele para viver!” gritava ele aos que lhe aperreavam o juízo, aconselhando-o a arranjar um trabalho depois de lhe negar um pedido de dinheiro. Os acessos de raiva, contudo, não partiam só de Návilo. Seus pais e suas irmãs de vez em quando desentalavam a garganta falando tudo o que o “pivete irresponsável” devia ouvir.
Návilo, às vezes, nem esperava terminarem e se trancava no quarto, triste e raivoso, impossibilitado de enfrentar aqueles parentes incompreensíveis. Tão egoístas, tão mesquinhos, tão rudes, tão... Não o aceitavam como ele era, tinham-no como um intruso folgado e preguiçoso, um fardo. Pois se fosse realmente assim, facilitaria satisfeito o trabalho daqueles incessíveis para conseguir o seu exílio familiar. Estava decidido, alugaria um apartamento e sairia dali o quanto antes. Falou a decisão aos pais.
Não fosse pela raiva, pelo desespero, Návilo talvez tivesse observado melhor e percebido a própria situação. Não estava em condições de se rebelar e sair de casa assim, sozinho e sem um tostão.
Mas, de qualquer forma, ele saiu. Para não dizer que se sentiram aliviados, o melhor é falar o quanto os pais ficaram indiferentes ao receberem a notícia do caçula. Tinham tido a mesma idéia que o filho. Haviam alugado um apartamento para Návilo e só esperavam o melhor momento para contar a ele. Uma discussão em que todos estivessem de cabeça quente seria ótimo. Porém, enfim, nem foi preciso.
Ele não esperava que os pais implorassem para ele ficar, não imaginou uma cena em que todos choravam sua despedida; passou-lhe pela cabeça, contudo, que se pedissem poderia reconsiderar. Mas não, aquilo foi horrível.
Depois de todos os pensamentos de ressentido, vieram os de orgulhoso.
Não podia hesitar, era sua liberdade que estava em jogo, aproveitaria ela plenamente; estaria longe dos que tentavam limitá-lo. Que ficassem sós com seus demônios, que ele se viraria muito bem sozinho.
E orgulhoso, foi.
Orgulho que, na primeira semana, foi substituído pelo desespero de se ver sem o apoio, digamos, familiar. As asas de Návilo, cujos músculos eram fornecidos e fortalecidos pelos seus pais, perderam força e se atrofiaram no momento em que se afastaram da fonte de nutrição. Ele estava como um pássaro filhote ousado que, vendo outros semelhantes voarem, tenta fazer o mesmo, pulando do ninho e abandonando a ave mãe. Tinha sentido a dureza e aspereza do chão e piava.
Não suportando mais a falta que lhe fazia o bico da mãe, ligou para ela.
- Mãe...
10 comentários:
hahai!
muito comum nos dias de hj...
antigamente tb...
axo q sempre vai ser...
:P
Ele pede dinheiro emprestado e não liga pra dinheiro. Esse teu personagem é uma figura muito paradoxal. Mas não fica claro, ele encontrou o amparo da mãe?Ela não me parecia disposta a mimá-lo.
Uma vez escrevi uma pequena poesia, uma mera frase, talvez, que expressa ligeiramente o que seu texto diz...
"Gostoso é voar
Mas voar é sair do ninho..."
Cara, não gostei do final... heurheurheuh
Depois de tudo que a família fazia com ele... enfim, essa revolta quanto ao final só mostra como o texto está bom.
Tá bom mesmo, não é teu melhor texto, mas é muito bom tbm!
Abraço
esse é um excelente texto! bem realista!
pergunta cretina: continua?
=D
bjunda
putzzz muito bom!!!
Adoro teus contos!
acho que entendi bem o sentido do texto.. na verdade me identifiquei em alguns pontos.
é sempre mais fácil esbravejar e dizer impropérios, e o quanto se é aprisionado do que realmente agir conseguir sua liberdade e espaço por seu próprio esforço. Entendi isso a pouco. Ainda bem que não da forma como seu personagem descobriu :p
Beijos!
desculpe a demora do comentário
Homi, num faça isso com a gente não! Postar, rapaz!
"Homi, num faça isso com a gente não! Postar, rapaz!" (2)
Melhor de nós, temos mais um membro do Blogs de Quinta:
Zé Neto - http://pertodoser.blogspot.com/
Adcione-o por favor!
abraço
Cara novo no blog de quinta(sim, de novo) adicionem, por favor, ele já fez o mesmo!
Marcelo Almeida - http://visoesnaareia.blogspot.com/
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