sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

NO COLETIVO

Seja o ônibus ou a topique, o transporte coletivo passou a ser, para mim, mais que um veículo que aumenta sua carga incessantemente. Carga que, com o tempo, começa a apresentar sinais de azedume, justamente por causa do mau transporte.

Esses coletivos tornaram-se um templo ambulante onde posso refletir e criar. É durante as viagens que faço todos os dias que tenho uma das chances de ficar desocupado. Uso esse tempo para pensar, a não ser quando um amigo substitui meus pensamentos por uma boa conversa.

Confortavelmente sentado ou cansadamente em pé; disputando ou cedendo espaço; praticando ou sendo alvo da generosidade humana, eu penso. Ponho-me a refletir sobre a vida, o presente, o futuro e os problemas, cujas soluções eu desejaria achar em apenas uma s dessas viagens.

Sempre olhando pela janela, eu penso. Aproveito também esse momento para costurar ou rasgar alguns textos que passarei ou não para o papel. Idéias e mais idéias sacudem-se em minha cabeça, assim como sou sacudido pelo tremor do veículo que vai na estrada esburacada.

Enfim, é através dessa dupla viagem, onde também percorro meus pensamentos, que chego aos meus dois destinos : o físico e o ideal. Afinal, onde você acha que eu pensei nesse texto?

QUE NESTE ANO NEM TUDO SE REALIZE, POIS AINDA TEMOS O RESTO DA VIDA PELA FRENTE; E SERIA CHATO FAZER TUDO EM UM SÓ ANO. FELIZ ANO NOVO!


quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

A TIA DE QUALQUER SOBRINHO

Um rapaz entrou na banca de jornais e revistas, a única que havia na praça. Sem cerimônias, ele chegou e abordou a senhora dona da banca:

- Tia, me dá dois bombons.

- Tá aqui, meu filho - disse sorrindo, simpaticíssima.

Depois de entregar as moedas, o rapaz agradeceu e se despediu.

- Valeu, tia. Até mais.

Dentro da banca, eu continuava folheando algumas revistas. A presença gentil daquela magra senhora permitia a qualquer um ficar à vontade.

Em poucos minutos, um casal de adolescentes chegou à procura de biscoito recheado.

- Tem biscoito, tia?

Se tinha biscoito eu não sei, mas antes mesmo daqueles dois irem embora, a banca virou um pacote de biscoito fechado. Todos os garotos da cidade estavam ali. Nesse momento, um só vocativo começou a saltar e voar para todos os lados, enlouquecidamente. Tia, tia, tia...

Quando os "sobrinhos" foram embora e o sufoco passou, voltei a ficar só na banca, minha oportunidade para descobrir algo que estava me intrigando. Aproximei-me do balcão-vitrine e perguntei:

- Com licença. Por que a senhora sempre é chamada de tia?

- Ora - e abriu o costumeiro sorriso - porque tia não é mãe e nem avó, é mediana e descompromissadamente tia.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

INFELIZ ANIVERSÁRIO

A menina estava completando nove anos. A mãe sugeriu que as duas recebessem os convidados para a festa à porta de casa. A cada pessoa que chegava, a menina dava pulos de alegria e fechava a cara: seus amigos vinham com os pais. Aqueles ela abraçava bem forte, mas tentava se esquivar quando se curvavam para lhe beijar nas bochechas. Beijos tão sem sal quanto os comentários que os seguiam: como ela está crscendo! Já é uma mocinha! Que pena.

Houve, então, os parabéns. A aniversariante e os amigos se impanturraram de bolo e refrigerante. E logo trataram de gastar as energias ganhas. Pega-pega, esconde-esconde, gritos, gargalhadas, e dois ou três joelhos ralados mas superados pela alegria de brincar.

Já perto do fim da festa, a menina pediu à mãe a máquina fotográfica.

- Cuidado, filha. Isso foi muito caro!

Certamente, a mãe não sabia que caro era ficar entre aqueles adultos. Para a menina, caros eram os seus amigos.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

PRECIOSAS ESTANTES

Eu quero furar a fila de livros da minha estante, invadir o mundo das prateleiras e sentir o calor daquele imprensado (todos lado a lado). Com a paciência dos imortais, quero ficar ali, até sentir o toque de um dedo que, não por acaso, me escolha e me leve ao universo das mesas, lugar reservado aos bons e capazes, merecedores de atenção.

Quero ter a chance de dizer algo aos olhos. Que esses olhos, depois de me conhecerem, não me esqueçam. As mãos podem até me abandonar sobre a mesa, mas que, a qualquer tempo, voltem a me procurar: eu estarei em qualquer estante. Eu estarei, feliz da morte, nas estantes da memória.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

EVOLUÇÃO

e-commerce, e-business,
e-books, e-mail,
e-volução e
e-u
no meio disso tudo
dessa automação
adaptando-me menos a mim,
um e-man.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

PROSA E VERSO

Ao grupo APPLE

Alguns bons amigos se encontram
e a prosa se torna verso
e o verso instiga a prosa
e a prosa rola solta,
a prosa sobre o verso das coisas.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Versos ilegíveis

Versos rudes, que só falam bem de si
Metalinguagem sem nenhuma meta
Quanta futilidade existe
Em se vangloriar em cada linha!
Esses versos são ilegíveis.
Para eles, o poema não é outra coisa
Senão uma vitrine para expor suas caras feias.
Tudo é um papel em branco
Papel que acaba se rasgando
Livro que mofa na estante.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Síntese do amor

"Eu te amo":
Tão estético, tão sintético
Tão simples
Quanto o amor deveria ser
Tão pequeno e forte
Tão necessário
Pra mim é ouvir você dizer
"Eu te amo"

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Palavras cabíveis

Palavras. As intrometidas insistem em aparecer nas horas mais inoportunas, para atrapalhar ou mesmo arruinar toda uma situação.

Às vezes, elas só pensam em se libertar e levarem consigo a carga pesada de seus significados. Não sei se culpo a boca ou, antes disso, o cérebro pela irresponsabiliade de soltar essas criaturas quando inescrupulosas. Mas o que importa aqui são as consequencias.

Uma conversa entre amigos vai indo bem; todos comentam e opinam sobre o assunto em questão, até que elas surgem e se impoem: um outro amigo, acostumado à sinceridade extrema e egoísta, chega e abre a boca. As palavras que desta saem afugentam todas as outras. Todos ali, então, são obrigados a suportar o peso da incoveniência. Já não há mais espotaneidade; todos apenas escutam, cada vez mais desgostosos de falar.

O que adianta ser servo da verdade e fazer tudo o que a imprudência manda? Isso é até perigoso! Calemo-nos e falemos na hora certa, pois se tudo cabe nas palavras, sinto dizer que as palavras não cabem em tudo.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Um estranho

Ouço o silêncio das palavras
Vejo o lado escuro da lua
O sol já não me cega
Mas o que sinto é medo
Medo de mim e dos outros
Dos outros que têm medo de mim

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Amantes

Amantes, amadores
Que se unem em torno do ser amado
Compartilham uma paixão
Uma paixão que conserta lacunas, ocupa linhas em branco.

Amantes do prazer
Dado, não com generosidade, pelo sedultor ser
Do qual se servem
E se sentem insaciavelmente saciados.

Amante, talvez
De tudo, que procuram traduzir o mundo
E o mundo interior
Da mais pobre e rica maneira.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Entre poderes

Minha voz ressoa em todo lugar
Meu nome... Não conhece?!
O mundo é meu altar
Não nasci para fazer prece

Nada me barra, me impede
Eu sou o obstáculo
Qualquer lugar é minha sede
O ar puro no pináculo

.
.
.

Em casa, sozinho, o tormento devora
Não consegue dormir
O castelo em pó, por hora
E o rei continua a ruir

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Infâncias Adultas

Adultos infantes
Se abraçam
Se beijam

Infâncias adultas
Se vivem,
Pelejam

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Conversas, e não com versos

Ele acordou e, ainda deitado, sorriu: pensava nos amigos, que dali em pouco iria rever, como quase todos os dias. Adorava a presença deles, poder conversar, sobre tudo.
Levantou-se e viu aquele quarto vazio, só ele ali. Não se sentiu tão à vontade, mas logo lhe veio outro sorriso confortante, lembrou-se de como aquele espaço ficava cheio e animado quando os seus amigos iam lhe visitar. Foi, então, cumprir os primeiros afazeres do dia. Mas o que faz um estudante adolescente no começo de um domingo?
Estava na hora de ir encontrar os amigos e bater aquele papo gostoso. Nada melhor que uma boa conversa! O tempo, nessas horas, torna-se um inimigo.
Antes de sair, mexia na estante sempre desarrumada quando viu uns papéis soltos, com versos escritos por ele. Veio-lhe um ímpeto de jogar todos no lixo; para nada serviam, senão desarrumar a estante e tomar-lhe o valoroso tempo. Não diziam muita coisa: versos sem sentimento. Foram parar na lixeira do banheiro. Bastava de tentativas de sentir, para isso havia os amigos, as conversas com eles, um abraço, um beijo e tudo com o que é possível sentir realmente, sem se ter o trabalho de versejar.
Desapontado consigo por ter percebido o quanto havia perdido se dedicando àqueles versos, ficou ali parado, sentado na cadeira. E uma folha foi sendo rascunhada. Versos. Os únicos com algum sentimento, talvez.

De vós, de vós eu não preciso!
Necessito é de voz
Eu não vos sinto
Sinto muito
Não me tornastes poeta algum
Só roubastes meu tempo
Pensando em vós
Esqueço a vida
Até nunca mais, senhores
Perturbai outra vida
Vontade de sentir
É o que sinto

- Droga! - repentinamente, amassou o papel e ergueu-se. A vida o esperava.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Mudanças do Ofício

Ontem, estavam juntos
Hoje, são juntos

Ontem, as bocas beijavam
Hoje... - ah, cala a boca!

Ontem, o carinho das mãos
Hoje, as mãos num carrinho

Ontem, papéis amassados
Hoje, papéis maçantes

Ontem, pensavam no hoje
Hoje... - não, amanhã!

quinta-feira, 17 de julho de 2008

DÁ - DIVA VIDA

A vida é a diva
De todo ser poeta

Vidas somadas
Subtraídas


A diva da vida
Vive e revida
Dentro do peito

Nos corações mortos

Diva vida, eu suplico,
Divida-me
Em mil vidas
Vividas por mil

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Imperfeição

Minha alma pensativa
Não é nada espontânea
Ela exige perfeição
Na hora de escrever


Minha calma se atormenta
Ela fala - vai, preguiçoso, pensa
- Chata! - respondo
Sua rigidez não escuta

Acabo, por fim
Sem obedecê-la
Pesando, porém
Todas as suas palavras

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Olha, mãe!

Ponho as retinas
Sobre a rotina
E meus olhos sorriem

Os meus ouvidos
Têm todos os sentidos

Meu pássaro encantado
Canta-me todos os dias
Não o conheço e o espero

Ah! maninho
Tenho-te tanto carinho

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Criança

Criança abençoada
De mente imaculada
Tu que és inocente
E não sente a frieza
Deste mundo inclemente

Criança linda
Que não sabe ainda
Dos problemas da vida
E que é por todos
Muito querida

Criança curiosa
Sempre corajosa
Que do novo não tem medo
Em algo que não conhece
Vai lá e ponha o dedo

Criança, quando me abraça
Nesse instante tudo passa
Só fica o que é bom
Ao sentir teu coração bater
Sinto da paz o tom

Não é um sentimento nobre
Mas a inveja me cobre
Quando penso em ti, criança
E vejo que não tens problemas
Teu viver é só bonança

A ingenuidade tua
Não vê a maldade nua
Deste mundo tão cruel
Tu desenhas o mundo
Bem bonito no papel

Queria eu voltar a ser
Assim como você
Ficar despreocupado
E só com brincadeiras
Ficar ocupado

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Hipocrisia

O que adianta belos sentimentos,
Se é tudo hipocrisia?
Pra que falar tanto,
Se palavras não têm valia?

São tantos os que falam
No amor de algo supremo
E estes mesmos têm
O coração cheio de veneno

Acreditam no amor
De um ser chamado Deus
Se esse amor um dia foi sentido
Hoje já se perdeu

Bons na teoria
Ruins em praticar
Falam de amor
E se esquecem de amar

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Víngo-a

Eu vingo a língua
Ela me vinga
Eu vivo a língua
E vingo na vida

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Essa língua

Essa língua
Ah, que língua!
Que sai da tua boca
E me xinga
Ela me fascina
E quando tu, menina
Tocas a tua língua
Na língua minha
Vejo: essa linguagem
Não tem língua

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Metáforas

Um pássaro preso
Que deseja esvoaçar
Um gato triste, sem um dono
Que o possa alisar

Um cão com raiva
Que não consegue latir
Um ladrão roubado
Que não sabe aonde ir

Um poeta sem paixão
Um cantor sem uma canção
Eu me sinto assim

Um deus impotente
Uma frase que mente
Não sei se isso terá fim

terça-feira, 22 de abril de 2008

A sala

Para mim, a Literatura
Ainda é uma sala escura
Onde eu acabei de entrar
E não pretendo sair,
Apesar da escuridão
Que só tende a assustar.
Mesmo vendo quase nada,
Lá me sinto bem
É uma sala arejada
E muito confortável.
Nessa sala não há lâmpada
Que eu possa acender
E de repente tudo ver.
Preciso esperar que o tempo,
Na sua soberba passagem,
Torne velho e frágil
O novíssimo telhado
Da sala onde estou.
Somente assim, então,
A luz poderá penetrar
Naturalmente
Através do telhado quebradiço.
Enquanto isso,
Terei de me adaptar à escuridão,
Que sei ser temporária,
Pois lá vou me fixar.
Construirei,
A partir dessa única sala,
Muitos outros cômodos,
Fazendo da Literatura
Minha moradia
Onde tenha um jardim
Que eu possa plantar poesia

Um semipoeta

O que é ser poeta, afinal?
Creio que quem realmente o seja
Quase sempre deseja
Brincar no carnaval
Ao sê-lo por completo
De vida você fica repleto
Pois ser poeta não é só em verso escrever
Mas também ter uma vida pra viver
E por isso digo e não hesito
Isso pode até soar esquisito
Mas sou um semipoeta por enquanto
Até da vida descobrir o encanto

domingo, 20 de abril de 2008

Imerso em Versos


Imerso em versos: esse é meu estado, minha situação. Eu estou imerso em versos. Dizendo melhor, faz algum tempo que eu sou imerso em versos.

Antes dessa imersão, eu apenas flutuava no mar das palavras. Apaixonado por nadar nesse infinito mar, percebi que podia mergulhar nas suas profundezas. E o fiz. Mergulhei por vontade própria mas muito mais involutariamente, pois naquele momento algo me puxava, fazendo com que eu descesse mais rápido e, ao mesmo tempo, orientando-me, dizendo para onde eu devia ir.

Lá chegguei: nos versos. Fiquei maravilhado diante deles, com sua beleza e poesia. Antes eu não os enxergava, mas a partir dali, quando comecei a notá-los, passei a perceber também outro mundo.

Desde então, nunca mais quis sair da presença dos versos, nos quais estão imersos meu corpo, minha mente e meu espírito. E a cada dia afundo-me mais e mais, sem possibilidade de retorno à superfície desse mar.