Que o tal do espírito do Natal está desaparecendo, isso talvez seja verdade, mas fato mesmo é o fortalecimento, nesse período do ano, de algo essencial à graça da vida: a imaginação. A imaginação que reaviva vidas e a que cria vidas.
Sim, vejo agora o poder da imaginação nesses dois sentidos, e os demonstrarei contando a situação a partir da qual comecei a percebê-los.
Estamos no finalzinho de Dezembro e há poucos dias atrás, na faculdade, eu ainda me encontrava sufocado pelos trabalhos e provas finais. Ainda que tenha sido o primeiro semestre, ou justamente por ter sido o primeiro, a tensão foi muito grande. Apesar de não trabalhar, leve-se em conta que eu sempre quis dar o melhor de mim. E muito mais que a preocupação em ser aprovado, o que me desgastava era o trabalho que davam os trabalhos e saber que ainda iria encarar outras avaliações.
Foi nesse estado de cansaço que, voltando da faculdade para casa, subi na topique. Passei a viagem toda em pé e, como se tratava de um coletivo – o meu templo ambulante – passei a viagem inteira também pensando. Entre os pensamentos daquele dia, porém, não havia uma idéia que me permitisse criar, uma sequer que me deixasse cair na ficção; apenas o estresse do dia-a-dia me ocupava a cabeça. Como era forte o meu desejo de que tudo aquilo acabasse! E como era intensa, também, a esperança em tempos melhores, em dias mais calmos. Posso estar aumentando as proporções ou, sem querer, devo estar parecendo meio dramático, mas se eu estava sentindo o que eu realmente estava sentindo, a esperança foi fundamental para que minha cabeça, concordando com o resto do corpo, também ficasse de pé.
Empurrada por essa esperança, minha imaginação foi longe. Vi, no ano que viria, um estudante mais bem sucedido, um escritor mais inspirado e... mais escritor, um leitor mais atento – não só das palavras, um amigo mais presente, uma pessoa mais calor, um ser mais amor, com uma vida mais sonho. Todas essas imagens fizeram surgir no meu rosto um sorriso discreto. Fosse outra época, esse sorriso viria de lembranças de bons momentos, mas eu pensava unicamente no lado oposto: o futuro.
É, o clima natalino inevitavelmente junto ao final de um ano permite mesmo os sentimentos mais ternos e esperançosos. Mas naquela topique eu não era o único contagiado por esse clima. Com a cabeça mais leve e o olhar menos preocupado, pude observar que, apesar de todo o aperto e de toda a pressão involuntária de corpos sobre corpos, sentimentos de ternura voavam livremente; embora muitos estivessem sufocados fisicamente, não o estavam pelo que sentiam; desejos de felicidade, declarações de boas-novas do que ainda iria acontecer, sonhos revelados, abraços de amigos, beijos de namorados, todas essas palavras e gestos se executavam na mais intensa reciprocidade.
E se eu atentei para tudo isso, de repente desviei meu foco e voltei-me para algo quase totalmente alheio ao que se passava. Um garoto, talvez com uns oito anos, sentado no colo da mãe, aproveitou o veículo parado e indicou, pela janela aberta, o Papai Noel lá fora. Chamando a atenção dos pais – e a minha – o menino quase gritava, repetindo freneticamente “Tá ali, ó, o Papai Noel, tá ali!”, com o dedo esticado servindo de seta. O pai não viu nenhum homem gordo e vestido de vermelho, e como estava em pé, até se curvou um pouco para observar melhor, mas continuou não vendo Noel nenhum. Eu também não vi. A mãe, talvez tentando disfarçar a incredulidade, deu um forte beijo no rosto do filho e o chamou de coisa linda: “Ô coisa linda!”. O pai deu uma risadinha, passou a mão nos cabelos do garoto e voltou à posição normal. A topique saiu e o menino girou a cabeça para trás, como ainda querendo ver o Papai Noel, que se distanciava cada vez mais; acompanhei-o no movimento e não vi nada. Digo, vi sim. Vi perfeitamente a imaginação agindo, com toda a sua força e magia.
Foi saindo dentre esses dois belíssimos quadros que, no final da linha, desci da topique. Mais do que nunca, senti-me realmente deixando um lugar sagrado e sereno: senti-me renovado e quando olhei para trás, no lugar do carro barulhento havia o mais exuberante templo sobre a Terra. Sinos enormes badalavam nas duas imponentes torres e a porta por onde eu tinha saído ostentava agora uma pesada aldrava, encostada na espessa superfície de madeira trabalhada. Fiquei parado ali por uns dois minutos, boquiaberto, até que a buzina de um carro que pedia passagem me trouxe à realidade. Virei-me de volta e fui para casa.
Se alguns momentos deste ano que acaba foram ruins, ou se os dias que virão trarão tempos desagradáveis, já não me falta imaginação – nos dois sentidos – para que eu possa transformá-los nas horas mais lindas que existem.
Sim, vejo agora o poder da imaginação nesses dois sentidos, e os demonstrarei contando a situação a partir da qual comecei a percebê-los.
Estamos no finalzinho de Dezembro e há poucos dias atrás, na faculdade, eu ainda me encontrava sufocado pelos trabalhos e provas finais. Ainda que tenha sido o primeiro semestre, ou justamente por ter sido o primeiro, a tensão foi muito grande. Apesar de não trabalhar, leve-se em conta que eu sempre quis dar o melhor de mim. E muito mais que a preocupação em ser aprovado, o que me desgastava era o trabalho que davam os trabalhos e saber que ainda iria encarar outras avaliações.
Foi nesse estado de cansaço que, voltando da faculdade para casa, subi na topique. Passei a viagem toda em pé e, como se tratava de um coletivo – o meu templo ambulante – passei a viagem inteira também pensando. Entre os pensamentos daquele dia, porém, não havia uma idéia que me permitisse criar, uma sequer que me deixasse cair na ficção; apenas o estresse do dia-a-dia me ocupava a cabeça. Como era forte o meu desejo de que tudo aquilo acabasse! E como era intensa, também, a esperança em tempos melhores, em dias mais calmos. Posso estar aumentando as proporções ou, sem querer, devo estar parecendo meio dramático, mas se eu estava sentindo o que eu realmente estava sentindo, a esperança foi fundamental para que minha cabeça, concordando com o resto do corpo, também ficasse de pé.
Empurrada por essa esperança, minha imaginação foi longe. Vi, no ano que viria, um estudante mais bem sucedido, um escritor mais inspirado e... mais escritor, um leitor mais atento – não só das palavras, um amigo mais presente, uma pessoa mais calor, um ser mais amor, com uma vida mais sonho. Todas essas imagens fizeram surgir no meu rosto um sorriso discreto. Fosse outra época, esse sorriso viria de lembranças de bons momentos, mas eu pensava unicamente no lado oposto: o futuro.
É, o clima natalino inevitavelmente junto ao final de um ano permite mesmo os sentimentos mais ternos e esperançosos. Mas naquela topique eu não era o único contagiado por esse clima. Com a cabeça mais leve e o olhar menos preocupado, pude observar que, apesar de todo o aperto e de toda a pressão involuntária de corpos sobre corpos, sentimentos de ternura voavam livremente; embora muitos estivessem sufocados fisicamente, não o estavam pelo que sentiam; desejos de felicidade, declarações de boas-novas do que ainda iria acontecer, sonhos revelados, abraços de amigos, beijos de namorados, todas essas palavras e gestos se executavam na mais intensa reciprocidade.
E se eu atentei para tudo isso, de repente desviei meu foco e voltei-me para algo quase totalmente alheio ao que se passava. Um garoto, talvez com uns oito anos, sentado no colo da mãe, aproveitou o veículo parado e indicou, pela janela aberta, o Papai Noel lá fora. Chamando a atenção dos pais – e a minha – o menino quase gritava, repetindo freneticamente “Tá ali, ó, o Papai Noel, tá ali!”, com o dedo esticado servindo de seta. O pai não viu nenhum homem gordo e vestido de vermelho, e como estava em pé, até se curvou um pouco para observar melhor, mas continuou não vendo Noel nenhum. Eu também não vi. A mãe, talvez tentando disfarçar a incredulidade, deu um forte beijo no rosto do filho e o chamou de coisa linda: “Ô coisa linda!”. O pai deu uma risadinha, passou a mão nos cabelos do garoto e voltou à posição normal. A topique saiu e o menino girou a cabeça para trás, como ainda querendo ver o Papai Noel, que se distanciava cada vez mais; acompanhei-o no movimento e não vi nada. Digo, vi sim. Vi perfeitamente a imaginação agindo, com toda a sua força e magia.
Foi saindo dentre esses dois belíssimos quadros que, no final da linha, desci da topique. Mais do que nunca, senti-me realmente deixando um lugar sagrado e sereno: senti-me renovado e quando olhei para trás, no lugar do carro barulhento havia o mais exuberante templo sobre a Terra. Sinos enormes badalavam nas duas imponentes torres e a porta por onde eu tinha saído ostentava agora uma pesada aldrava, encostada na espessa superfície de madeira trabalhada. Fiquei parado ali por uns dois minutos, boquiaberto, até que a buzina de um carro que pedia passagem me trouxe à realidade. Virei-me de volta e fui para casa.
Se alguns momentos deste ano que acaba foram ruins, ou se os dias que virão trarão tempos desagradáveis, já não me falta imaginação – nos dois sentidos – para que eu possa transformá-los nas horas mais lindas que existem.
Desejo um ótimo Natal e um excelente Réveillon a todos. E que não lhes falte imaginação nunca. "Feche os olhos, mas deixe a mente bem aberta" - Ponte para Terabítia