Hoje, vendo-me entre pessoas tão importantes, que decidem o destino de tantas outras todos os anos, lembro-me de minha saudosa mãe. Imagino que ela ficaria feliz ao ver seu nome impresso, não em um papel qualquer, mas em um papel publicado. Antes de tudo, então, o nome: Maria Aparecida Nunes ou “D. Aparecida”. Mas ela ainda não estaria satisfeita. Um nome não se sustenta por si só, é preciso que o repitam. E para isso é necessário um forte significado, algo que o dê peso e faça com que as pessoas se lembrem dele. Assim como os juristas doutrinários, cujas citações são indispensáveis em qualquer página do direito, ou, em outra área, um Machado de Assis, e ainda um tal de não sei o quê Passos, que surgiu agora e de quem falam tanto.
O fato que vou contar é, no mínimo, pitoresco. Quanto à significação, vejamos.
Naquele ano, eu estava concluindo o curso de Direito. Morava com minha mãe e, até pouco tempo dali, éramos mantidos apenas com a renda vinda de um comércio, cuja administração era responsabilidade exclusiva dela. No entanto, eu arranjara um emprego – auxiliava as atividades em um escritório de advocacia. Hoje, auxiliam-me também. Pude contribuir com as despesas da casa e, excetuando outros gastos, tinha economizado meus primeiros vencimentos a fim de comprar uma casa para mim.
E comprei.
Na mudança, quando fui despedir-me de mamãe, deu-se o fato.
Àquela época, meus vinte e poucos anos não me permitiam um extraordinário senso de organização. Meu quarto não era dos mais ordenados. Cadeira como cabide para as camisas, camisas sobre livros, livros abertos sobre a cama e a cama servindo de resumo para toda aquela balbúrdia.
Poucos meses antes do dia que deixaria a casa materna, comecei a perceber que os livros, e somente os livros, se isentavam da bagunça. Todos os dias, ao chegar do trabalho, eu não os via onde tinha deixado. Mudavam-se para a estante, enfileirados na prateleira, em uma harmonia horrivelmente contrastante com todo o resto do quarto. Estranhei à primeira vista, obviamente, os livros no lugar deles; envergonhei-me, até, por perceber o quanto eu era displicente. Mas, sobretudo, gostei de ter minhas coisas, ou parte delas, arrumadas. De resto, continuei economizando minhas ralas receitas para aplicá-las na compra da casa.
Casa comprada, alguns móveis arranjados, coisas juntadas, fui dar tchau a D. Aparecida, que estava, claro, cuidando do comércio. Assim que entrei, estanquei. Tomei um pequeno susto e fiquei observando. Mamãe não me viu – atendia umas pessoas no balcão, um pouco a frente de onde eu estava – mas eu a vi. E ouvi.
Ela quase gritava, falando alto com os do outro lado do balcão. Eram dois homens e uma mulher, que contestavam o que mamãe dizia, tentando superá-la no tom de voz. Daquele alarido, contudo, pude distinguir bem o que falaram.
- É isso mesmo! um real. E eu não quero saber se é absurdo, meu senhor! – falou mamãe, levantando a voz e dirigindo-se ao mais insistente no retruque que, tentando se acalmar, persistiu:
- Vamo, mulher, me dá logo esse cigarro, que eu já to ficando nervoso – pondo uma moeda sobre o balcão.
- Tá faltando 75 centavos.
- Ora! Mas que droga é essa?!
Pude enfim entender o que estava acontecendo e o que havia acontecido, quando mamãe respondeu:
- Ora digo eu! E eu não quero ouvir palavrão aqui, não! falou irritada. E continuou, séria e, pude perceber pelo queixo elevado, com uma certa altivez – O senhor nunca ouviu falar no Princípio da Seletividade? Pois é. Se não sabe, ele fala que todo produto supérfluo tem que ter uma maior alíquota, que esses produtos devem ser altamente taxados.
O quê?? Foi o que pensei. O fumante irritado não deve ter pensado muito diferente. Porém, enquanto eu, muito surpreso, sabia do que mamãe falava, embora sem saber por quê, o homem do outro lado do balcão, já sozinho, franziu a testa de um jeito!...
- A senhora tá tentando me enrolar, é? falou, levantando a voz e os braços. Sacudindo as mãos, como se espantasse um cachorro sarnento. – Ah! esbravejou, e saiu resmungando. Mas ouviu, ainda, algumas palavras da estranha D. Aparecida. Denunciando a fumaça do cigarro, defendendo o meio ambiente e dizendo ser uma das poucas pessoas a “fazer a diferença nesse mundo indiferente”, ficou falando sozinha, numa espécie de protesto repleto do jargão jurídico, o qual eu bem entendia, mas do qual eu não entendia o contexto.
Aproximei-me e a fiz parar de falar. Muito curioso e assustado, perguntei o que havia sido aquilo. Como resposta, ou sem ligar para a minha pergunta, continuou entusiasmada com o mesmo discurso. Complementou, ainda, dizendo que não poderíamos só esperar pela ação dos governantes. Ela enfim parou ao perceber o meu olhar de estranhamento e medo. E me respondeu, com raiva, que só era velha, mas não estava morta e que, além do mais, estava ajudando tanto os fumantes a se livrarem de vício tão danoso quanto o governo – pelo qual não esperava – a cumprir um princípio tão importante. Sentia-se, portanto, muito feliz com isso, mesmo não vendendo um cigarro, pois era esse o objetivo.
Atônito diante daquela eloqüência, preferi não contestar uma palavra e apenas me despedi, dando-lhe um forte abraço e um grande beijo no rosto. Deixei um livro no quarto dela; talvez encontrasse, nas suas leituras, o capítulo das competências tributárias e visse que as alíquotas do IPI, imposto sobre o qual ela agiu, são fixadas somente pelo Poder Executivo. Mas creio que não encontrou, porque até o final da vida permaneceu com aquele entusiasmo surgido de repente e uma filantropia eufórica de jovem que reza gritando mas não sabe da missa a metade.
12 comentários:
Olá, Paulo.
Como o Hermes deve ter falado (ele me disse que ía), sou o novo membro do Blogs de Quinta. E que prazer foi ler essa história. Já fiz curso de direito (mas larguei cedo, achei mt chato) e sei como o pessoal lá escreve mal. Do melhor professor ao pior aluno, a maioria escreve muito mal (pelo menos onde eu estudei, mas histórias de outrem confirmam minhas observações) e fiquei impressionado com a sua escrita. Elegante, clara, objetiva e com estilo. Gostei muito da história e do ponto final. hehehe
Eu é que não sou muito chegado de escrever histórias próprias (apenas as criadas, nunca as vividas - apesar de podermos discutir se a criação não é de fato vivência, mas aí é outra história). ehhehe
Frequentarei mais os blogs de vocês agora (e ainda fui o primeiro a comentar aqui, olha só).
Um abração!
caralho, tu eh muito bom contista (se eh assim q se fala)!
mais uma vez deixaria de comentar pq seu conto me deixou sem palavras...
mas achei que seria uma sacanagem...
muitos dos seus contos são assim... no final o máximo que consigo fazer é dar um suspiro fundo e dizer "nossa, que legal!"
Bicho arrombado. Essa tu leu no Grupo, mas não tinha entendido o quanto entendi agora, então a Dona Aparecida estava lendo os livros de Direito, ehauheauheauheauea, que guerreira! Ela tem a mentalidade de jovens do ensino médio que querem o Direito, ao menos muitos, que acham que vão salvar o mundo com o Direito, o que é uma grande mentira, claro. Mas foi legal vê-la tão entusiasmada com isso, muito interessante. Só espero que você não seja assassinado por ser o melhor do grupo, alguém pode ficar com inveja e querer aparecer mais! heauehauheau. Muito bem escrito.
Não é à toa que és o melhor de nós! hehehehe
Mais um a pensar que suas histórias são reais! hehehehe
Aliás, essa é ao menos um pouco real? Se não for, mais uma vez, parece.
Agora, tou com a sensação, quase certeza, de que já li esse conto, estou certo ou isso é um deja vu?
O texto está muito bom, cara, sou teu fã! hehehe
Já leu no Grupo, né?
Me lembro bem dela! Mas lê-la novamente foi um prazer inestimável. Um senhor conto! Bem escrito, descrito, e simples (embora não seja simplório!)
Sou teu fã!
Gostei desse conto... massa mesmo... bem simples... tou aqui encantado... massa!
Está muito bem escrito. Os acontecimentos vão fluindo...
sansei eh como se chama neto de japonês nascido no continente americano! hehe...
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ráaaaaaaaaaa, que texto ótimo! adorei, cara. mesmomesmo.
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