quinta-feira, 13 de maio de 2010

13 DE MAIO

Quando a polícia chegou, encontrou Bernardo Matias chorando. Não se sabe quais eram os sentimentos dele naquele momento, quando por ironia tanta gente o observava tão atentamente. Mas Matias não se achava nem um pouco inferior àquelas pessoas que, depois das missas, saíam em bando da Igreja de Fátima. Perambulando lento pelas redondezas da igreja ou sentado em algum ponto da escada vermelha que dá entrada para o templo, muitas vezes pedindo esmola, o quase velho sempre retribuía o olhar esquivo e desconfiado que as pessoas lhe enviavam. Ele até se divertia com isso, ao ver os outros assustados com sua aparência suja e desgrenhada, com seus olhos respondões, mas o que Matias mais gostava era de observá-los de longe, cada rostinho angelical e sereno escondendo os mais vis pensamentos. A grande estátua de Nossa Senhora de Fátima, no meio da Praça Pio IX, seria um lugar perfeito; se pudesse, trepava na cacunda dela e de lá, sem ser visto, veria a todos e a tudo. Nem aos pés da santa, no entanto, ele conseguia chegar; o máximo que podia era encostar-se na base sobre a qual se erguia a imagem. E assim estava quando os policiais chegaram e o algemaram, encostado de frente ao concreto, apoiando a cabeça com a testa sobre o braço levantado e escondendo o rosto.

O antigo e temporário companheiro de Matias realmente não o conhecia quando o chamou para participar da maldita ação. Serginho chegou manso e, mexendo em algo preso na cintura do calção, mostrou um revólver a Matias, que pôde ver apenas o cabo pelo buraco rasgado – propositalmente? – na camisa do outro. Este só falou que a “parada” iria ser rápida e que o “negócio” seria dividido, meio a meio. Eu sei que tu fica aí de ôi atento no pessoal, falou Serginho, num tom debochado e imperioso, então é só mostrar o peixe mais gordo que a gente fisga ele e deixa só as espinha. A cara de Matias, assustado, provocou no outro uma gargalhada, que ficou ecoando na cabeça do quase velho até ser tomada por um som bem mais forte.

Se o peixe tinha que ser grande, o escolhido não o era exatamente. Uma mulher bonita e bem arrumada foi parada por Matias que, empunhando discretamente a arma, pediu avexado pelo dinheiro. Não queria fazer nada, só queria o dinheiro. Serginho dava a cobertura; ele também só queria o dinheiro. A mulher suplicava, com um olhar medroso, que a deixassem viva. Matias retribuiu o olhar, pedindo, porém, que ela tirasse do rosto aqueles olhos tão ameaçadores. Ele não gostava que fosse assim desse jeito tão perto, tinha que ser mesmo de longe. Aquele susto, lembrança da atitude de Serginho, transformou-se em medo, mas ele não queria sentir medo, então pedia com insistência à mulher, implorava, sem falar nada, a suspensão daquele olhar, ou que ao menos fechasse os olhos. Ela fechou, mas só depois que o tiro soou pela avenida.