Mas como um personagem pode não saber da história da qual participa? É curioso mesmo. E engraçado; ri muito do que se passou. Corrigindo-me, não foi exatamente hilário; ri mesmo foi do ridículo de tudo aquilo. Mas foi o que aconteceu.
Durante cerca de um mês, assisti a um espetáculo que se apresentava a mim diariamente. Tendo por cenário um aconchegante e distraído escritório de Recursos Humanos, os três protagonistas se envolvem - ou não - numa irrisória e lamentável peça que a vida, docemente, prega pra eles.
Com o desfecho em minhas mãos, e aproveitando a folga do domingo, falei a Sílvio tudo o que ele não havia conseguido ver. Pela manhã, o chamei ao meu apartamento. Almoçamos e depois contei.
- Faça o favor de pular a minha parte, falou ele, chateado, antes de eu começar. Não preciso e nem quero saber de mim mesmo. Aliás, não sei o que eu estou fazendo aqui. Isso tudo já me aborreceu demais.
-Calma, calma. O que vou te falar não é nada além do que realmente aconteceu. E, ora, por que eu não falaria de ti, meu grande amigo Sílvio? Eu gargalhava por dentro, assim como hoje eu faço, só que abertamente, ao lembrar desse episódio que descrevo agora; por dentro, porém, apenas um risinho, que não dava para conter.
- Por que eu te deixaria de lado? Não, nunca faria isso. Além do mais, foi a melhor parte da trama; ou do drama. Ou seria comédia?
- Não venha me irritar mais, seu...
- Do que mais me lembro é da sua cara, quando tudo começou. E, pelo que me vem à mente, não era tão carrancuda quanto essa que você tem aí agora. Era a de um bobo, um lunático, cujos pensamentos só eu, como maior amigo, poderia tentar adivinhar e deduzir do que tratavam. Foi o que fiz. Não precisou muita observação pra concluir, com uma certa raiva, que você estava caidinho por Helena. Um bobo mesmo!
E assim eu contava, como que sem pausa na fala. O máximo que Sílvio fazia era erguer o dedo, querendo se pronunciar. Mas eu o atropelava e prosseguia com a minha elaborada palestra. Para dar efeito à enunciação, rodeava-o lentamente e parava, ele sentado à mesa me escutando. Fui nisso até o final, quando me sentei.
Tomado por uma raiva, ainda que contida, e por um divertimento que tudo aquilo me causava, continuei:
- Isso mesmo, um bobo! Um abestalhado! E não te chamo assim à toa. Saiba que naquele tempo, fiquei sabendo que Helena estava de olho em outro, o Mário. Dessa vez, Sílvio levantou o dedo e abriu a boca, mas não deixei sair nada. Se acha estranho ou se se aborrece por não ter te contado na época, deve imaginar agora também quanto rancor guardei por não saber que o meu amigão não me disse sequer uma palavra sobre o que lhe ocupava tanto os pensamentos. Preferi, então, só te observar, pra ver onde tudo terminaria. E depois que ouvi, entre a recepção de um e outro candidato a emprego, depois que escutei Helena cochichar com a marta e dizer que estava "a fim daquele gatinho, o Mário" ah que nojo! decidi prestar mais atenção à Helena. Quando percebi, já tinha sob minha vista três seres que, sem saberem, ora me irritavam, ora me faziam rir. Por tabela, me voltei também a Mário.
- Mas eu...
- Não se preocupe, falei, apertando os ombros dele, pois eu estava naquele momento atrás da cadeira. Você foi que mais me divertiu. A sua cegueira, a sua maneira de se enganar foi singular. Estava ridiculamente apaixonado e não conseguia ver nada a um palmo à frente do nariz. Coitadinho! Odeio qualquer tipo de torpor. Mas o seu caso era diferente, não era? Era. Você achava inconcebível a idéia de que Helena pudesse gostar de outra pessoa. Lembra? Você mesmo me disse isso quando tudo acabou. Ou melhor, nem começou. Além de tudo, ainda é medroso; não teve coragem de se aproximar dela. O que te torna um homem muito contraditório: apaixonado e medroso. Pelo que vejo na TV e nos livros, geralmente não é assim.
Nessa hora, vi que Sílvio mudava de raivoso e nervoso pra tristonho. Se ele não disse nada, foi antes pelo que mestava sentindo, porque parei de falar assim que o percebi daquele jeito. Eu, porém, tinha de terminar o que havia começado. Não podia abandonar a direção com o carro andando; tentei ir por um caminho menos desconfortável pra Sílvio. Eu sabia que ele não sentia mais tanto amor assim por Helena, então enveredei por ela.
- Helena não agiu muito diferente. Afinal, também estava apaixonada.
Sílvio realmente me assustou quando, com ódio na voz, gritou – Uma vagabunda!
- É, continuei. Uma vagabunda que não enxergou os teus sentimentos, que só tinha olhos para outro. Toda vez que a via pelos corredores do escritório, eu sentia raiva dupla daquela cachorra. Falava palavras assim a fim de despertar em Sílvio algo que substituísse a tristeza, mas não surtiu o efeito esperado. Talvez estivesse arrependido, porque de vez em quando ficava cabisbaixo. Insisti. Isso não pode: além de desperdiçar tempo pensando num homem que não estava nem aí pra ela. Isso mesmo, Mário era o único que poderia sair a salvo dessa história toda. Já, já eu chego nele. Além disso, a vagabunda ainda fez, e está fazendo , o meu amigão aqui sofrer. Ela, pelo menos, se aproximou do Mário e, como você já sabe... Assim que Marta ficou sabendo do sentimento da amiga, arregaçou as mangas e tratou logo de aproximar os dois. Pois é, existem na Terra esses seres chamados “cupidos”, que gastam o tempo a concretizar a irracionalidade e a pieguice das paixonites agudas. Como eu soube você pergunta? Às vezes, apenas a observação não basta. Tive de ir a campo e, discretamente, tirar essa informação de Marta. O que não foi lá tão difícil... Não é à toa que ela está na recepção.
- Enfim, e sentei-me de frente pra ele, que já estava perceptivelmente esmorecido; o olhar distante, o corpo relaxado. Ver isso, em parte, foi bom; era quase certo ter conseguido meu objetivo. Mas pra arrematar com sucesso, as últimas frases foram essenciais.
- Enfim, o Mário, que era neutro nisso tudo e podia sair sem seqüelas, foi atacado em cheio pela embriaguez quando cedeu aos galanteios da famosa bêbada.
E um enorme sorriso abriu-se dentro de mim quando, ainda sem me olhar diretamente, Sílvio disse:
- O melhor mesmo é não se apaixonar.
5 comentários:
otimo texto!
foi verdade mesmo?
se nao for, tu eh muito criativo hein!
hahai!
História fantástica, bem narrada! Concordo com o Beçote que parece verdadeira! Mas essa parada de misturar a fala de fato com a fala do narrador ficou bem esquisita a uma primeira vista, mas acho que é questão de costume!
texto ousado e muito bom!
Na verdade, concordo com o Pedro, quando você for inverter de diálogo ao narrador, você colocar um travessão separando. Do jeito que tu fez, fica muito confuso.
Tou azedo hoje, então, vai mais críticas! hehehehe
Dê uma olhadinha nas regências, tem umas preposições erradas por aí. E também erros de digitação, só dá uma revisãozinha que tu acha-as.
Fora isso, o texto está ótimo, muito criativo e incrível!
Mas discordo, que graça teria a vida sem uma paixãozinha de vez em quando... hehehehehe
muitoooo bem escrito!!!
realmente a história parece verídica!
mas... senti uma falta no final...
num sei o que foi '-'
concordo com o Carlim. Mesmo que a paixão traga sofrimento às vezes, ela é o que aquece a vida, que nos dar a sensação de estarmos respirando.
Beijos
Bom é mesmo não se apaixonar?E o protagonista ainda se delicia ao conseguir essa frase, que louco! heauheauhea, ele deve ter se lascado no amor e acha que todo mundo tem que cair no mesmo abismo. Bom mesmo é se apaixonar. Aquele sofrimentozinho que te rende uns versos...bom de mais. Gostei do texto, mas a narração tá confusa mesmo! Fora isso, negócio de erro de português, nem percebo, nao sei muito da "nossa" lingua mesmo. Acho que tu misturou um pouco de verdade e ficção, você tem esse talento, de tirar criatividade de coisas bem simples, ao menos acho que sim. Abração
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