quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

VERMELHO

Essa é mais uma das meio velhas que eu disse que ia ficar postando.

Eles vinheram e tiraram
Desta terra o vermelho
Da veia,
Do lenho.

Queriam o vermelho.
Seu sangue era azul.
E desta terra, à força de ficar roxo,
Conseguiram a bela cor.

Vampiros impiedosos:
Não tinham sangue nem coração.
Só pensavam em sugar
O vermelho de toda vida.

Levaram o vermelho
Do lenho e da veia
E dessa cor trouxeram outro tom:
O vermelhos dos olhos que choram de dor.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

INTERIOR PERIFÉRICO

Algo que eu acho um pouco melhor.


Depois de alugar, sem cobrar nada, os meus ouvidos a uma prima minha, emprestei-lhe minhas mãos. Bem-aventurados fomos nós naquele momento, que executamos com perfeição as quatro faculdades da linguagem humana. Enquanto ela falava o seu breve relato, numa serenidade empolgada, eu a escutava hipnotizado, ao mesmo tempo em que lia todos os seus gestos. E já pensava, então, como se organizariam as frases, daquela crônica que eu ouvia, numa folha de papel, escrevendo dezenas de linhas imaginárias, uma por uma; antes, é claro, que eu realmente lhe propusesse a escrita de suas palavras e ela aceitasse. Por isso, agora estou efetivamente escrevendo.

Mas, que pena, não realizamos a quinta habilidade lingüística, melhor que todas as outras – que pena! – porque elas, essa habilidade e minha prima, são lindas. Além disso, poderíamos ir mais longe, e eu não costumo ser incestuoso.

Bom, ela não vai parar de me aperrear até eu terminar isso aqui, e como não vou deixá-la ler antes que eu realmente termine, o melhor mesmo é começar logo o referido relato. Aqui vão, porém, palavras minhas, observando-se uma transcrição perfeita apenas nas idéias; ela exigiu que suas palavras não passassem além dos meus ouvidos. Mas como destes minhas mãos são uma extensão...

Moramos na periferia da capital e há mais de dois anos que ela vive aqui em casa com a gente - comigo e com meus pais. Vinda de uma pequena cidade do interior do Estado, chegou entre os prédios acanhada, e não foi com muita facilidade que seus pulmões se acostumaram ao novo e bem mais poluído ar. Seus olhos, se não tiveram chance de se assustar com a nova paisagem, devido à rápida passagem da rodoviária para a casa, foram empáticos com os ouvidos, que não puderam fugir do enorme barulho. O sofrimento destes se mostrou na expressão daqueles. Foi até engraçado vê-la confusa, pondo, às vezes, as mãos sobre as orelhas e espremendo os olhos, como se esperasse, a cada vez, um barulho ainda maior que o anterior.

Como é natural acontecer, porém, todo o corpo dela acabou por se adaptar ao ambiente. E qual o corpo, os hábitos também adquiriram outros contornos, de acordo com a nova superfície de vivência. Foi se referindo aos próprios costumes – a apenas um, na verdade – que numa manhã dessas ela me falou, surpresa, do que havia acontecido no começo daquela mesma manhã.

Acostumada a “acordar junta com os pintos” lá na cidade onde nasceu, com o tempo ela começou a se espreguiçar cada vez mais tarde, o que é, no mínimo, de estranhar. Ela me contou, enfim, que naquela manhã de domingo tinha acordado mais cedo que de costume, desfazendo um hábito atual e recuperando um mais antigo. Estando de pé quando ainda roncávamos, ela me disse que naquele momento também ouviu um silêncio que há muito não escutava. Não quis acordar ninguém e, não conseguindo mais deitar-se, saiu para frente da casa. Sentiu um “arrepio na espinha, um frio gostoso” assim que viu a rua vazia, sem uma alma que pudesse contrariá-la no desejo de ficar um minuto sozinha; só um vira-lata passava naquela hora, o que, na verdade, a felicitou ainda mais.

Todo esse ar de calmaria, de vento soprando nas saias, de um bocejar demorado, de cachorro velho perambulando, tudo isso a fez lembrar a outra casa em frente à outra rua. Ela me falou, entusiasmada, o quanto tinha achado parecido, naquele momento, esse bairro onde vivemos e a sua cidade natal.

Foi quando, na mesma hora, cunhei a expressão que, depois, tornou-se título destes parágrafos. Sempre tive gosto por aproximar palavras que teimam em se manter distantes, e que só o fazem porque não sabem que são todas irmãs. A mãe eu não sei quem seja, mas como bom padrinho devo auxiliar na conciliação das que não se dão.

Ela, de início, não entendeu o que eu quis dizer, mas depois que lhe expliquei, não parou de rir, e mesmo de dar gargalhadas. Não sei se foi porque achou a expressão inteligente e sutil ou se por ver o quanto era ridícula. Eu, no final, acabei sem saber; acompanhei-a nos risos e assim continuamos o dia.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

HOJE

Bem, pretendendo retomar um compromisso com o "Blogs de Quinta", vou postar aqui algumas coisas meio vellhas - e que eu não acho tão boas. Mas, enfim, a consciência do compromisso é maior, então, até que eu escreva algo um pouco melhor, vou ficar postando essas ingenuidades.

Hoje estou à toa
Hoje o tempo voa
Hoje é Dezembro
Hoje eu me lembro
De que hoje é um dia
De que hoje em dia
O hoje já é passado.
É um hoje acelerado
Que passa rapidamente
Na velocidade da mente.
Tudo cresce e decresce
E o mundo padece.
Eu sem ocupação
Com a caneta na mão
Pensando enganado que hoje é
Um dia como outro qualquer

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

UMA PROVOCAÇÃO

Pensando um pouco – e somente um pouco – sobre nossa atual condição de blogueiros mais voltados à escrita literária, cheguei a alguns pontos. Esses pontos não são de forma alguma conclusivos porque, para isso, os pensamentos teriam de ser um tanto mais demorados e profundos.

Considerando, também, a nossa posição opinativa – pelo menos daqueles com quem conversei – a respeito do veículo daquela mesma escrita, a artística, pude, então, ver claramente as duas questões, as quais, na verdade, se reduzem a apenas uma.

Destas duas opções, em uma nos encaixaríamos: ou seríamos um grupo de hipócritas/fingidores ou seríamos totalmente verdadeiros, entrando, porém, nuam grande contradição.

Explico-me

Se concordarmos em dizer que o livro é o melhor meio e o mais favorável à leitura de textos literários, e que a percepção destes só se dá de forma completa e profunda nas páginas de papel, estaríamos fingindo descaradamente ao trocar comentários os mais apaixonados possíveis, já que a tela de um computador é fria o suficiente para não permitir uma aproximação calorosa, necessária à literatura.

Por outro lado, seríamos totalmente honestos e sinceros com nós mesmos e com os amigos blogueiros; os profundos comentários seriam um puro reflexo da nem um pouco rasa percepção dos textos. Estaríamos, entretanto, nos contradizendo. Seríamos como que líderes ou precursores de uma revolução contra a qual nos voltamos. Revolução essa que teria como auge a popularização dos e-readers ou leitores de e-books, os livros eletrônicos.

Ou ainda, e por fim, uma terceira opção que me veio agora e que anula as duas anteriores: não escrevemos literatura. Nossos texto, portanto, são perfeitamente adaptáveis ao ambiente virtual.

Mas essa possibilidade eu descarto completamente. Escrevemos, sim, literatura. Nossa preocupação maior é o despertar da sensibilidade, é a leitura prazerosa, ou não, é a leitura angustiante. O que nos faz escrever, enfim, é saber que depois aquilo vai ser lido gostosamente.
Além do mais, somos nós que temos que nos adaptar, ao novo ambiente cultural que já está surgindo, o que é, naturalmente, bem mais difícil do que um ajuste biológico.

A questão única, aliás, de que falei mais atrás e em que tudo isso se converte é o quanto seremos resistentes a essa evolução da qual fazemos parte. Ainda que defendamos com unhas e dente nosso habitat - o livro - não podemos ser bairristas irracionais e nem, é claro, podemos nos entregar de bandeja a essa situação de mudança que tanto nos ofende. Afinal, somos seres humanos, temos o poder de agir sobre a natureza, sobre suas mudanças, acelerando-as, fazendo-as ir mais lentamente e até mesmo impedindo-as.

E é justamente por sermos seres humanos que não devemos nos preocupar tanto assim com o grau de frieza de um veículo de arte porque, além de ser veículo de arte, enquanto esteivermos aqui, tudo - embora fatos provem o contrário - mas acredito que enquanto existirmos, tudo será suscetível de sensibilização.