quinta-feira, 6 de agosto de 2009

NOBREZA

Três filhas criadas e um filho, o qual tinha acabado de sair dos vinte anos. Os pais, experientes em fazer formar nos filhos uma personalidade independente, viam com raiva o caso do filho mais novo. Talvez fosse a idade, que lhes enfraquecia os ossos e os nervos. Não agüentavam mais, como antes, a pressão que, com a criação de um filho, vem de ambos os lados: o físico e o emocional. Talvez fosse a mudança; tinha tido três meninas e depois viera um garoto.

A verdade é que somente os pais e as irmãs e quase todos que conheciam Návilo não o consideravam tão independente quanto ele se dizia. Mas ele gritava-se livre, muito livre. O único, aliás.

Ora, só ele aproveitava realmente os amigos que tinha. Saía com eles e com eles brindava abundantemente as alegrias e chorava as tristezas. Estas eram logo esquecidas e tornavam-se motivo para mais um brinde. Só ele, dentre todos da sua família, era livre para amar plenamente qualquer pessoa, porque aprendera com um guru que tudo está interligado: as estrelas e as pessoas, os animais e as pedras, as árvores e Jesus; tudo é uma coisa só. E ele, sendo parte de tudo isso, sentia-se em harmonia com a natureza, da qual, para manter essa ligação, tinha de ter a maior proximidade possível. Comprava, então, jarros com mudas de plantas e punha no seu quarto. Seu café-da-manhã era com pão integral, iogurte natural, linhaça e outras sementes encontradas em lojas de produtos naturais.

Livre das “pecaminosas ambições humanas” que, dizia ele inflamado, destroem tudo que tocam, também não era nada apegado ao dinheiro. “Esse demônio de bolso não me domina, não preciso dele para viver!” gritava ele aos que lhe aperreavam o juízo, aconselhando-o a arranjar um trabalho depois de lhe negar um pedido de dinheiro. Os acessos de raiva, contudo, não partiam só de Návilo. Seus pais e suas irmãs de vez em quando desentalavam a garganta falando tudo o que o “pivete irresponsável” devia ouvir.

Návilo, às vezes, nem esperava terminarem e se trancava no quarto, triste e raivoso, impossibilitado de enfrentar aqueles parentes incompreensíveis. Tão egoístas, tão mesquinhos, tão rudes, tão... Não o aceitavam como ele era, tinham-no como um intruso folgado e preguiçoso, um fardo. Pois se fosse realmente assim, facilitaria satisfeito o trabalho daqueles incessíveis para conseguir o seu exílio familiar. Estava decidido, alugaria um apartamento e sairia dali o quanto antes. Falou a decisão aos pais.

Não fosse pela raiva, pelo desespero, Návilo talvez tivesse observado melhor e percebido a própria situação. Não estava em condições de se rebelar e sair de casa assim, sozinho e sem um tostão.

Mas, de qualquer forma, ele saiu. Para não dizer que se sentiram aliviados, o melhor é falar o quanto os pais ficaram indiferentes ao receberem a notícia do caçula. Tinham tido a mesma idéia que o filho. Haviam alugado um apartamento para Návilo e só esperavam o melhor momento para contar a ele. Uma discussão em que todos estivessem de cabeça quente seria ótimo. Porém, enfim, nem foi preciso.

Ele não esperava que os pais implorassem para ele ficar, não imaginou uma cena em que todos choravam sua despedida; passou-lhe pela cabeça, contudo, que se pedissem poderia reconsiderar. Mas não, aquilo foi horrível.

Depois de todos os pensamentos de ressentido, vieram os de orgulhoso.

Não podia hesitar, era sua liberdade que estava em jogo, aproveitaria ela plenamente; estaria longe dos que tentavam limitá-lo. Que ficassem sós com seus demônios, que ele se viraria muito bem sozinho.

E orgulhoso, foi.

Orgulho que, na primeira semana, foi substituído pelo desespero de se ver sem o apoio, digamos, familiar. As asas de Návilo, cujos músculos eram fornecidos e fortalecidos pelos seus pais, perderam força e se atrofiaram no momento em que se afastaram da fonte de nutrição. Ele estava como um pássaro filhote ousado que, vendo outros semelhantes voarem, tenta fazer o mesmo, pulando do ninho e abandonando a ave mãe. Tinha sentido a dureza e aspereza do chão e piava.

Não suportando mais a falta que lhe fazia o bico da mãe, ligou para ela.

- Mãe...

quinta-feira, 30 de julho de 2009

CONVERSAS, E NÃO COM VERSOS (repostagem)

No APPLE, o Pedro, com aquela conversa de repostagem no blog, me fez pensar em repostar esse aqui. Há praticamente um ano eu o escrevi, mas não houve muitos comentários (só um, do Thiago). Por isso, ele está aqui de novo. Mas, prometo, não pretendo ficar fazendo isso de repostagem.

Ele acordou e, ainda deitado, sorriu: pensava nos amigos, que dali em pouco iria rever, como quase todos os dias. Adorava a presença deles, poder conversar, sobre tudo.
Levantou-se e viu aquele quarto vazio, só ele ali. Não se sentiu tão à vontade, mas logo lhe veio outro sorriso confortante, lembrou-se de como aquele espaço ficava cheio e animado quando os seus amigos iam lhe visitar. Foi, então, cumprir os primeiros afazeres do dia. Mas o que faz um estudante adolescente no começo de um domingo?
Estava na hora de ir encontrar os amigos e bater aquele papo gostoso. Nada melhor que uma boa conversa! O tempo, nessas horas, torna-se um inimigo.
Antes de sair, mexia na estante sempre desarrumada quando viu uns papéis soltos, com versos escritos por ele. Veio-lhe um ímpeto de jogar todos no lixo; para nada serviam, senão desarrumar a estante e tomar-lhe o valoroso tempo. Não diziam muita coisa: versos sem sentimento. Foram parar na lixeira do banheiro. Bastava de tentativas de sentir, para isso havia os amigos, as conversas com eles, um abraço, um beijo na namorada e tudo com o que é possível sentir realmente, sem se ter o trabalho de versejar.
Desapontado consigo por ter percebido o quanto havia perdido se dedicando àqueles versos, ficou ali parado, sentado na cadeira. E uma folha foi sendo rascunhada. Versos. Os únicos com algum sentimento, talvez.
De vós, de vós eu não preciso!
Necessito é de voz
Eu não vos sinto
Sinto muito
Não me tornastes poeta algum
Só roubastes meu tempo
Pensando em vós
Esqueço a vida
Até nunca mais, senhores
Perturbai outra vida
Vontade de sentir
É o que sinto

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Há vidas que tomam rumo. A minha decidiu arrumar tomos.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

O QUE DIZEM OS LIVROS

Essa é antigona:

E assim fala um bom livro
- Leia-me que eu te livro
Da mais dura corrente
Que é não ter nada na mente

E assim diz um livro aberto
- Venha que eu te liberto
Da pior escuridão
Que cega e aleja a mão


Por fim diz um livro escrito
- Quer conhecer o infinito?
Conheça meus parentes
Passados e descendentes