sexta-feira, 29 de julho de 2011
BOBAGEM
Vês-me ingênuo e avoado.
Das duas uma:
Ou estás errado,
Ou serão os bobos os criadores do mundo.
quarta-feira, 22 de junho de 2011
O DEUS DOS DESGRAÇADOS
sábado, 28 de maio de 2011
VERMELHO E BRANCO
quinta-feira, 28 de abril de 2011
VASTIDÃO
Eu não quero te perder de vista nem sequer por uma fina torre de
Esse teu olhar cheio, intenso, vivo
que é o teu corpo solitário.
Malditos os lençóis, que não me deixam dormir sobre o vasto seio
dela
assim ininterruptamente,
sem pausa pra pejos e filosofias
e tudo mais que seja lençol.
Bendita a noite em que, sob a vasta lua,
eu caí sobre o vasto seio
e os três corpos se alinharam.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Gabriel o Pensador - Pra onde vai?
A letra:
Mais uma vida jogada fora
Um coração que já não bate mais, descanse em paz
Sonhos que vão embora, antes da hora
Sonhos que ficam pra trás
Pra onde vai você? Pra onde vai? Pra onde vai o sol quando a noite cai?
E agora?
A dor é do tamanho de um prédio
A casa sem ele vai ser um tédio.
A dor é do tamanho de um prédio.
Não tem remédio, não tem explicação, não tem volta
Os amigos não aceitam, o irmão se revolta
A família não acredita no que aconteceu
Ninguém consegue entender porque o garoto morreu
Tiraram da gente um jovem tão inocente
E a sua avó que era crente hoje tem raiva de Deus
O seu pai ficou mais velho, mais sério e mais triste
E a mãe simplesmente não resiste
Além do filho, perdeu o seu amor pela vida
E à nora agora tem tendências suicidas
E a namoradinha com quem sonhava se casar
Todo mundo toda hora tem vontade de chorar
Quando se lembra dos planos que o garoto fazia
Ele dizia: "Eu quero ser alguém um dia"
Sonhava com o futuro desde menino
Ninguém podia imaginar o seu destino
Mais uma vítima de um mundo violento
Se Deus é justo, então quem fez o julgamento?
Pra onde vai você? Pra onde vai? Pra onde vai o sol quando a noite cai?
Por quê um jovem que vivia sorridente perde a sua vida assim tão de repente?
Logo um cara que adorava viver
Realmente é impossível entender
E nenhuma resposta vai ser capaz de trazer de novo a paz à família do rapaz
Nunca mais suas vidas serão como antes
E eles olham o seu retrato na estante
Aquele brilho no olhar e o jeitão de criança
Agora não passam de uma lembrança
E a esperança de que ele esteja bem, seja onde for, não diminui o vazio que ele deixou
É insuportável quando chega o seu aniversário
E as suas roupas no armário parecem esperar que ele volte de surpresa
Pra ocupar o seu lugar vazio à mesa
A tristeza às vezes é tão forte...*
A tristeza às vezes é tão forte que é mais fácil fingir que não houve morte
Porque sempre que ele chega pra matar as saudades
Ele vem com aquela cara de felicidade
Alegrando os sonhos e querendo dizer que a sua alma nunca vai envelhecer
E que sofrer não é a solução
É melhor manter acesa a chama no coração
E a certeza na mente de que um dia se encontrarão novamente.
Pra onde vai você? Pra onde vai? Pra onde vai o sol quando a noite cai?
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
NEM TODO SANTO DIA É SANTO
Todo santo dia tratamos de dormir e de acordar, comer, fazer o que se faz. Mas nem todo dia é santo, então dormimos, acordamos, comemos e ficamos matutando; uma ideia besta nos toma a cabeça, no sono, ao nos espreguiçarmos ou na mordida do pão à mesa. Tendo a ideia se apossado devidamente, ainda fazemos o que se faz, mas não como se costuma fazer; o alheamento agora pretende ser de um nível maior que aquela indiferença rotineira. Ora, temos, a partir daí, se nos perguntarem porque andamos tão avoados, um motivo mais do que forte para dizer que por ora não respondemos imediatamente à questões frívolas - frente ao iluminado pensamento - como a tal pergunta, que não é de imediato respondida. Além dos demais estímulos externos, que se anulam.
A ideia que tive não me causou tudo isso, e não sei se por isso dou graças aos céus ou os amaldiçôu. Ela também não durou muito; antes do fim do dia já tinha me deixado, ou eu por mim a abandonei, o que mais uma vez me deixa confuso, visto que já me soltaram um "Deus te livre de uma ideia fixa" ao passo que a ideia fixa é que constrói homens fortes. Não sou forte. Sou besta, com uma ideia besta, não passa disso. O que pensei é no máximo curioso, e parte dessa curiosidade já se evapora se a mesma ideia passou por outra cabeça que não a guardou, como não guardo agora.
Trata-se apenas de uma observação do cotidiano, digamos linguístico, já que o objeto está na área da palavra falada. Para ser mais preciso, são duas falas, comumente pronunciadas por todo mundo, seja a pessoa religiosa ou profana. São as seguintes: "todo santo dia...", seguida de um complemento indicado pelas reticências e "nem todo dia é santo". A contradição é explícita. Talvez porque não façam parte dos chamados ditados populares, embora sejam exaustivamente ditos e bem populares
Os ditados, apesar de serem usados tanto, não se desbotam - às vezes uma nódoa aqui ou acolá - e seguem de boca em boca, de tempos em tempos, sem perder a força significativa. E assim só sobrevivem porque podem ser ditos por todos e por cada um. Nisso são iguais às falas citadas. E uma sentença à moda ditado prova o que aqui se diz: "Jesus não tem dentes no país dos banguelas", nome - para dar o crédito - do disco gravado pelos Titãs em 1987. É simplesmente a adaptação humana, que não deixa de agir no campo das ideias. Se o dia é santo ou deixa de ser, isso não importa, o que vale é a ação da palavra sobre a realidade, a que nos é chamada a atenção pelos ditados e pelas falas em questão, enfatizando-a.
Se foi santo aquele dia em que os raios do Sol nascente iluminaram muito mais que o meu quarto, chegando a invadir os aposentos do meu cérebro - alguém falaria ser um contato com os próprios deuses - ou não, se não foi nada santo o dia em que no meu quintal plantei uma árvore da ciência do bem e do mal, cujo fruto mordido me fez olhar para algo invisível aos ouvidos e perceber a santa contradição que há séculos se estabelecera, sinceramente não sei dizer. O fato é que naquela noite eu não sonhei com os anjos.
acho que estou lendo muito Saramago.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
ALGUNS FILMES QUE MARCARAM
A BRUXA DE BLAIR: do diretor Daniel Myrick, o filme é de 1999. É um dos poucos filmes de terror que realmente me dão medo, se não for o único. Na primeira vez que eu fui assistir a esse filme - eu devia ter uns 13 anos - não consegui vê-lo todo. Passou no SBT à noite e eu estava sozinho de frente pra TV. Dali em diante algumas cenas ficaram na minha cabeça, mas quando, depois, assisti todo, a situação piorou: é sério, até hoje me arrepio se me lembrar de algumas cenas, como as "crianças" batendo na barraca à noite ou a última cena da casa abandonada.
O MÁSCARA: do diretor Chuck Russell, o filme é de 1994. Acho que esse a maioria já assitiu. Com Jim Carrey no papel principal. Foi o primeiro filme que assisti no cinema. Passei muito tempo vendo ele toda vez que passava na TV. O cachorro Milo é inesquecível!
ADVOGADO DO DIABO: de 1997, do diretor Taylor Hackford. Com Al Pacino, Charlize Theron e Keanu Reeves no elenco. Gosto bastante do desenrolar da história, da temática e do tom um tanto quanto desafiador e ácido do filme. Posso assistir quantas vezes for e acho que vou sempre repetir. Adoro a fala de Milton (Al Pacino), a encarnação do próprio diabo: "Vaidade é definitivamente meu pecado favorito". O filme mostra um escritorio de advocacia onde todos os juristas são pequenos diabos, disfarçados comandados por Milton. Lomax (Keanu Reeves) é contratado para entrar no time e, adivinha, se corrompe.
PONTE PARA TERABÍTIA: do diretor Gabor Csupo, é de 2007. Um filme de aventura encantador sobre o poder da imaginação. O garoto Jesse conhece a menina Leslie e os dois, digamos incompatíveis com o as outras crianças, resolvem brincar na floresta perto de casa. Lá. começam a inventar seres e lugares que não existiam na floresta. Então criam um mundo só deles: Terabítia, que fica do outro lado do riacho. Juntos, vivem grandes aventuras.
O CUROIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON: de David Fincher, lançado em 2008. Benjamim é um homem que nasce velho e vai rejuvenescendo, até que morre bebê. O filme todo é recheado de sutis ensinamentos, e os personagens que Benjamim encontra são bem curiosos, como Mike, capitão de um barco rebocador, que se considera um artista pelas tatuagens que fez no próprio corpo.
DEIXA ELA ENTRAR: do diretor Tomas Alfredson, lançado em 2008. O filme é sueco. Há uma versão ianque, mas ainda não vi. O filme, de terror, é de temática vampírica, mas bem diferente de todos os filmes de vampiro que já assisti. É bem um antidoto pra essa praga de Crepúsculo - me desculpem se fui rude na expressão. O filme é bem parado - mas não sonolento, de forma alguma - mas tem uma atmosfera incrivelmente assombrosa e envolvente. A trilha sonora ajuda bastante. Trata-se de uma relação entre um garoto mortal (Oskar) e um menina vampira (Eli). O filme é lindo.
EDUCAÇÃO: de Lone Scherfig, o filme é de 2009. Tentei assistir a esse filme num daqueles sites em que dá pra assistir on-line, mas fui surpreendido com a interrupção repentina e um pedido de cadastro. Só de mal, não me cadastrei e fui ver no cinema. Tinha gostado muito do que foi me permitido ver. Então, em plena Copa do Mundo, num dia do jogo da seleção brasileira, fui ao cinema com um amigo, por insistência minha; eu temia que se eu fosse esperar, ele poderia sair de cartaz, pois é dum daqueles filmes sem muito público. Eis um pouco da história, que se passa em Londres: uma bonita adolescente (Jenny) vive com os pais, que querem vera a filha em Oxford. Jenny conhece David, um homem na casa dos trinta, charmoso e, digamos, desenrolado. Ele a apresenta a vida noturna da cidade, os pontos culturais, o bom da vida. Ela fica entre a educação formal e os ensinamentos da vida. Outro filme muito bonito. Ah, mas deu pra assistir ao jogo do Brasil também.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
BEIJO DOIDO
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
CONVERSA (OU A ESCRITA DE MUNDO)
- E qual é o autor que mais te influencia na tua escrita?
- Quem foi que escreveu o mundo?
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
LEMBRANÇAS
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
FRAQUEZAS
quinta-feira, 13 de maio de 2010
13 DE MAIO
sábado, 17 de abril de 2010
NA IX BIENAL DO LIVRO DO CEARÁ
- Ziraldo, você falou que é mais importante ler do que estudar. Mas quando a gente tá estudando a gente num tá lendo?
Juntas a essa pergunta, as primeiras palavras de Ziraldo como resposta fizeram todos rirem. Num tom repreensivo brincalhão e bem humorado, Ziraldo falou:
- Menino, deixe de se meter a sabido!
Pouco depois, um outro garoto, já tendo feito sua pergunta, foi chamado por Ziraldo para se aproximar da mesa. Este, então, falou:
- Você gosta de ler?
- Gosto.
- Você lê muito?
- Leio.
- Seus pais leem pra você?
- Leem.
- Menino, você tá salvo!
E, na platéia, alguns aplaudiram e todos riram
quinta-feira, 1 de abril de 2010
O AMORZINHO QUE EU NUNCA TIVE
quinta-feira, 11 de março de 2010
PALAVRAS
É certo que no processo da escrita há sempre uma luta com as palavras ou, no mínimo, uma negociação para saber, dentre muitas, qual a mais rica, que pode pagar o pedágio entre o cérebro e a folha de papel, ou a mais labiosa que, não sendo tão rica, me convence a reduzir a referida taxa. Mas o que aconteceu não foi uma luta. Muito menos houve qualquer tipo de negociação.
As palavras que naquele momento atravessaram meu crivo, na verdade o rasgaram e, voluntariosamente, saltaram para a superfície do papel. No mesmo instante, manifestaram sua presença e só assim as percebi.
Eu traçava um parêntese e antes de fechá-lo com o outro tracinho curvo, as palavras tomaram vida e dotaram-se de movimento. Como se as cadeias carbônicas do grafite se reorganizassem e adquirissem as formas encontradas nos tecidos animais. Animais. Eram bem isso mesmo aquelas palavras; eram selvagens. E eu já estava bem impressionado e assustado com a rápida movimentação que elas faziam, quando de repente destacaram-se da folha. Se antes, em sua posição normal, estavam deitadas, agora tinham se erguido e percebi que me encaravam destemidamente. Se queriam me intimidar ou chamar minha atenção, tinham conseguido.
Assombrado, vi a protuberância das corcundas do m e do n se moverem energicamente na minha direção, como a dizerem “vai encarar?!”. Não encarei exatamente, mas também não virei o rosto; fiquei paralisado, observando. Assim, via a letra i, com sua cabeça flutuante, incitando as outras letras a participarem do motim. Daí vieram várias letras a gritando para abrir passagem ao l, ao u e ao o; estas três últimas letras, trabalhando em conjunto, formaram uma espécie de tílburi sem cavalo, em que o l era o cocheiro, o u era o próprio veículo e o o, fazendo o papel da roda, impulsionava o transporte pela pauta da folha. E não demorou muito para que esse comboio de letras levasse ao chão o único parêntese em pé. Tudo isso, apesar de ser no papel, acontecia em três dimensões. Se eu pudesse tocá-las...
Mas isso não foi possível. O que havia acontecido tinha sido apenas uma preparação para a ação principal. Pararam de repente, deitaram-se de novo e, embaralhando-se rapidamente, organizaram-se em uma frase: abaixo os parênteses, não queremos ser presas entre eles. Ainda meio perturbado, não consegui entender o significado dessas palavras; pensei, então, em voz alta: o quê?! Como se tivessem me ouvido, no mesmo instante tomaram novas posições e formaram outra sentença: extinção aos parênteses, queremos ser livres. Fiz-me de novo a mesma pergunta de espanto, mas dessa vez só pra mim: o que?! E, apesar de tudo, pensando que elas realmente podiam me ouvir, tentei uma comunicação; tentei acalmá-las. Falei: mas vocês são livres. Vocês, aliás, são fruto de uma plena liberdade artística. Eu nunca as prendi e jamais as prenderei. Se há algo a que vocês são presas, é ao meu pensamento, que é livre.
Minhas breves frases de efeito não surtiram efeito. Aquelas palavras queriam mesmo era acabar comigo. Fizeram ouvido de mercador e ergueram-se novamente. Dessa vez, não contentes com o que já tinham me causado, começaram a pular para as linhas acima a fim de espalhar a desordem onde tudo ainda era tranqüilo. Daí que tudo se transformou num formigueiro ensandecido. Quando me dei conta, já o texto todo era só garrancho: letras sobre letras; palavras pelo avesso; letras órfãs, que tinham se perdido daquelas com que nasceram e agora não tinham mais sentido algum. Tudo ficou completamente ilegível. E eu fiquei completamente desesperado. Meu conto, que eu já terminava, foi por água abaixo; todo o meu trabalho foi totalmente destruído.
Tudo isso se passou em alguns poucos minutos. No fim desse tempo, como eu o tinha passado sem a lapiseira na mão e sem ter me apoiado no caderno para escrever, um vento forte entrou pela janela do quarto e levantou e sacudiu violentamente as folhas do meu caderno. Disso, não sei o que foi mias refrescante, se sentir o vento no rosto acalmando as ideias, ou se perceber, ao rever o meu conto, que ele estava intacto. Na mesma hora, terminei o que estava escrevendo.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
POESIA
Uma faísca de sol entrou pela fresta do telhado velho e o beliscou bem na bochecha negra. O efeito não foi imediato, mas o dedo quente insistiu em cutucar, de modo que mudou o ângulo e foi para no olho do adormecido. Este até quis escapar, virando-se de lado; mas se antes era um dedo, agora uma mão inteira lhe dava tapas por todo o corpo: ele sabia que as telhas precisavam ser trocadas. E o sabia tanto que as encarou com raiva quando finalmente abriu os olhos. Sentou-se na cama, espreguiçou-se gostosamente e buscou a chinela. A água fria no rosto o fez terminar de acordar.
Pegou uma BLUESa azul qualquer em cima duma cadeira e foi comprar pão; em casa, tinha deixado a água esquentando. No caminho, assobiava algo que lhe vinha na memória; o som agudo e ritmado que saía da própria boca lhe distraía, ele com a cabeça levantada pro céu, não encontrou um que pudesse lhe acompanhar. Mas "no meio do caminho tinha uma pedra", e ele a encontrou. A topada levou o nosso assobiador ao chão. Isso mesmo, ele topou numa ROKC e ROLLou e rolou e quando parou, bufou. Viu a chinela quebrada e não aguentou; soltou: "FOLK you!" O grito, direcionado ao nada, saiu e levou consigo a raiva.
Em casa, ele já soprava o café na xícara quando conseguiu sintonizar no pequeno aparelho de rádio uma estação qualquer. A música que passava naquele momento o fez se esquecer do dedão que latejava, da cama desconfortável, da dura semana, da difícil vida. A música que lhe chegava aos ouvidos era o som do próprio assobio.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
UMA CARTA DE MACHADO DE ASSIS A CAROLINA NOVAIS
Minha querida C., recebi ontem duas cartas tuas. Depois de dous dias de espera, calcula o prazer que tive, como as li, reli e beijei! A minha tristeza converteu-se em súbita alegria. Eu estava tão aflito por ter notícias tuas que saí do Diário1 a uma hora para ir à casa e com efeito encontrei as duas cartas, uma da quais devera ter vindo antes, mas que, sem dúvida, por causa do correio, foi demorada. Também ontem deves ter recebido duas cartas minhas; uma delas, a que foi escrita no sábado, levei-a no domingo às 8 horas ao correio, sem lembrar-me (perdoa-me!) que ao domingo a barca sai às 6 horas da manhã2. Às quatro horas levei a outra carta e ambas devem ter seguido ontem na barca das duas horas da tarde. Deste modo, não fui eu só quem sofreu com demora de cartas. Calculo a tua aflição pela minha, e estou que será a última. Eu já tinha ouvido cá que o M. alugara a casa das Laranjeiras, mas o que não sabia era que se projetava essa viagem a Juiz de Fora. Creio, como tu, que os ares não fazem nada ao F.; mas compreendo também que não é possível dar simplesmente essa razão. No entanto, lembras perfeitamente que a mudança para outra casa cá no Rio seria excelente para todos nós. O F. falou-me nisso uma vez e é quanto basta para que se trate disto. A casa há de encontrar-se, porque empenha-se nisto o meu coração. Creio, porém, que é melhor conversar outra vez com o F. no sábado e ser autorizado positivamente por ele. Ainda assim, temos tempo de sobra: 23 dias; é quanto basta para que o amor faça um milagre, quanto mais isto que não é milagre nenhum. Vais dizer naturalmente que eu condescendo sempre contigo. Por que não? Sofreste tanto que até perdeste a consciência do teu império; estás pronta a obedecer; admiras-te de seres obedecida. Não te admires, é cousa muito natural; és tão dócil como eu; a razão fala em nós ambos. Pedes-me cousas tão justas, que eu nem teria pretexto de te recusar se quisesse recusar-te alguma cousa, e não quero. A mudança de Petrópolis para cá é uma necessidade; os ares não fazem bem ao F., e a casa aí é um verdadeiro perigo para quem lá mora. Se estivesses cá não terias tanto medo dos trovões, tu que ainda não estás bem brasileira3, mas que o hás de ser espero em Deus. Acusas-me de pouco confiante em ti? Tens e não tens razão; confiante sou; mas, se te não contei nada é porque não valia a pena contar. A minha história passada do coração, resume-se em dous capítulos: um amor, não correspondido; outro, correspondido. Do primeiro nada tenho que dizer; do outro não me queixo; fui eu o primeiro a rompê-lo. Não me acuses por isso; há situações que se não prolongam sem sofrimento. Uma senhora de minha amizade obrigou-me, com os seus conselhos, a rasgar a página desse romance sombrio; fi-lo com dor, mas sem remorso. Eis tudo. A tua pergunta natural é esta: Qual destes dous Capítulos era o da Corina? Curiosa! Era o primeiro. O que te afirmo é que dos dois o mais amado foi o segundo. Mas nem o primeiro nem o segundo se parecem nada com o terceiro e último capítulo do meu coração. Diz Stael4 que os primeiros amores não são os mais fortes porque nascem simplesmente da necessidade de amar. Assim é comigo; mas, além dessas, há uma razão capital, e é que tu não te pareces nada com as mulheres vulgares que tenho conhecido. Espírito e coração como os teus são prendas raras; alma tão boa e tão elevada, sensibilidade tão melindrosa, razão tão reta não são bens que a natureza espalhasse às mãos cheias pelo teu sexo. Tu pertences ao pequeno número de mulheres que ainda sabem amar, sentir e pensar. Como te não amaria eu? Além disso, tens para mim um dote que realça os mais: sofreste. É a ambição dizer à tua grande alma desanimada: "levanta-te, crê e ama; aqui está uma alma que te compreende e te ama também". A responsabilidade de fazer-te feliz é decerto melindrosa; mas eu aceito-a com alegria, estou que saberei desempenhar este agradável encargo. Olha, querida; também eu tenho pressentimento acerca da minha felicidade; mas que é isto senão o justo receio de quem não foi ainda completamente feliz? Obrigado pela que me mandaste; dei-lhe dous beijos como se fosse em ti mesma, pois que apesar de seca e sem perfume, trouxe-me ela um pouco de tua alma. Sábado é o dia de minha ida; faltam poucos dias e está tão longe! Mas que fazer? A resignação é necessária para quem está à porta do paraíso; não afrontemos o destino que é tão bom conosco. Volto à questão da casa; manda-me dizer se aprovas o que te disse acima, isto é, se achas melhor conversar outra vez com o F. e ficar autorizado por ele, a fim de não parecer ao M. que eu tomo uma intervenção incompetente nos negócios de sua família. Por ora, precisamos de todas estas precauções. Depois... depois, querida, queimaremos o mundo, por que só é verdadeiramente senhor do mundo quem está acima das suas glórias fofas e das suas ambições estéreis. Estamos ambos neste caso; amamo-nos; e eu vivo e morro por ti. Escreve-me e crê no coração do teu Machadinho.
Notas ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
1. Machado de Assis, em 1867, é nomeado ajudante do diretro do Diário Oficial.
2. Se tratava do correio marítimo, implantado desde a chegada da Família Real Ao Brasil, em 1808.
3. Carolina Novais era portuguesa, irmã do poeta Faustino Xavier de Novais, que foi diretor do quinzenal "O Futuro", no qual Machado colaborava. Chega ao Rio de Janeiro em 1866.
4. Madame de Stael, escritora, poeta, ativista política, feminista e filósofa política, que viveu na França do século XVIII, vivenciando períodos como a Revolução Francesa e o a era napoleônica.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
O 2º DIÁLOGO DO BRASIL
- Cadê a bênção, Cauã?
- Saiu.
