sexta-feira, 29 de julho de 2011

BOBAGEM

Tu me achas um bobo,
Vês-me ingênuo e avoado.
Das duas uma:
Ou estás errado,
Ou serão os bobos os criadores do mundo.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O DEUS DOS DESGRAÇADOS

O deus dos desgraçados é o único que, atendendo à maior prece de seus devotos, perde-os todos.

sábado, 28 de maio de 2011

VERMELHO E BRANCO

Puta merda! ele pensou, irritado. Ele já estava com o caralho duro quando a puta lhe disse que não queria dar. Mas ele queria comer; precisava fuder um pouquinho para aliviar a tensão do dia-a-dia. Não bastasse a falta de um emprego e a inexistência de uma boa mulher para cuidar dos filhos que ele nunca teve, agora lhe vinha essa merda chorar pro seu lado. Cala a boca, porra! Só não gritou isso porque... Não se sabe por que. A vontade dele mesmo foi de soltar um tapão na cara dela; a coitada fugiu pro canto do quarto toda recolhida e chorou mais forte alisando a bochecha avermelhada e ardida.

Ele não se surpreendeu quando viu que a tinha convencido. Deitou, relaxou e agora era só esperar pra gozar.

Como uma gata cautelosa e calculista, que espreita seu alvo pacientemente, ela chegou e assim ficou entre as duas pernas nuas e cabeludas. Então ela atacou, e o que era mole endureceu e quem estava relax endoideceu: a língua felina apoderou-se do pênis rijo e, junto com a mão, acompanhou o sobe-desce do prepúcio. Aquela língua serpenteava habilidosa. Contrariando o que comumente se diz sobre a figura fálica, ela mostrava ser a verdadeira cobra, que não se intimidava frente àquele ser roliço e mitológico.

O homem gemia de prazer, e só um beijo podia calá-lo, mas a outra boca já estava ocupada demais para ter de se preocupar com o barulho que ela mesma causava. Concentrada na ereção latejante, a boca mantinha um movimento constante: suga e cospe prende e solta inspira e expira abraça e repele soca e puxa, até que... Aaaahhhnn! O último gemido de prazer confundiu-se com o primeiro grito de dor: o fluxo de esperma tinha sido bruscamente interrompido.

Na hora exata da ejaculação, a mulher segurou mais firme a base peniana e com a outra mão fincou, com energia, bem no orifício da glande, a bandeira do orgulho feminino, que se pintou de um vermelho provocador com os espirros de sangue.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

VASTIDÃO

Malditos os prédios, grande lua, que não me deixam te encarar.
Eu não quero te perder de vista nem sequer por uma fina torre de
segundos.]
Isso! Me persegue, vai!:
Esse teu olhar cheio, intenso, vivo
que é o teu corpo solitário.

Malditos os lençóis, que não me deixam dormir sobre o vasto seio
dela
assim ininterruptamente,
sem pausa pra pejos e filosofias
e tudo mais que seja lençol.

Bendita a noite em que, sob a vasta lua,
eu caí sobre o vasto seio
e os três corpos se alinharam.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Gabriel o Pensador - Pra onde vai?

Lembrei dessa música nesses dias, por causa dos assassinatos das crianças no Rio, nesse dia 7. É uma coisa que realmente choca, e particularmente mais ainda por serem crianças as vítimas. Aí está o Gabriel, com sua letra - pra variar - mais que pertinente, tocante.

A letra:

Mais uma vida jogada fora
Um coração que já não bate mais, descanse em paz
Sonhos que vão embora, antes da hora
Sonhos que ficam pra trás

Pra onde vai você? Pra onde vai? Pra onde vai o sol quando a noite cai?

E agora?

A dor é do tamanho de um prédio
A casa sem ele vai ser um tédio.
A dor é do tamanho de um prédio.

Não tem remédio, não tem explicação, não tem volta
Os amigos não aceitam, o irmão se revolta
A família não acredita no que aconteceu
Ninguém consegue entender porque o garoto morreu
Tiraram da gente um jovem tão inocente
E a sua avó que era crente hoje tem raiva de Deus
O seu pai ficou mais velho, mais sério e mais triste
E a mãe simplesmente não resiste
Além do filho, perdeu o seu amor pela vida
E à nora agora tem tendências suicidas
E a namoradinha com quem sonhava se casar
Todo mundo toda hora tem vontade de chorar
Quando se lembra dos planos que o garoto fazia
Ele dizia: "Eu quero ser alguém um dia"
Sonhava com o futuro desde menino
Ninguém podia imaginar o seu destino
Mais uma vítima de um mundo violento
Se Deus é justo, então quem fez o julgamento?

Pra onde vai você? Pra onde vai? Pra onde vai o sol quando a noite cai?

Por quê um jovem que vivia sorridente perde a sua vida assim tão de repente?
Logo um cara que adorava viver
Realmente é impossível entender
E nenhuma resposta vai ser capaz de trazer de novo a paz à família do rapaz
Nunca mais suas vidas serão como antes
E eles olham o seu retrato na estante
Aquele brilho no olhar e o jeitão de criança
Agora não passam de uma lembrança
E a esperança de que ele esteja bem, seja onde for, não diminui o vazio que ele deixou
É insuportável quando chega o seu aniversário
E as suas roupas no armário parecem esperar que ele volte de surpresa
Pra ocupar o seu lugar vazio à mesa
A tristeza às vezes é tão forte...*
A tristeza às vezes é tão forte que é mais fácil fingir que não houve morte
Porque sempre que ele chega pra matar as saudades
Ele vem com aquela cara de felicidade
Alegrando os sonhos e querendo dizer que a sua alma nunca vai envelhecer
E que sofrer não é a solução
É melhor manter acesa a chama no coração
E a certeza na mente de que um dia se encontrarão novamente.

Pra onde vai você? Pra onde vai? Pra onde vai o sol quando a noite cai?

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

NEM TODO SANTO DIA É SANTO

Desculpem a prolixidade do texto.

Todo santo dia tratamos de dormir e de acordar, comer, fazer o que se faz. Mas nem todo dia é santo, então dormimos, acordamos, comemos e ficamos matutando; uma ideia besta nos toma a cabeça, no sono, ao nos espreguiçarmos ou na mordida do pão à mesa. Tendo a ideia se apossado devidamente, ainda fazemos o que se faz, mas não como se costuma fazer; o alheamento agora pretende ser de um nível maior que aquela indiferença rotineira. Ora, temos, a partir daí, se nos perguntarem porque andamos tão avoados, um motivo mais do que forte para dizer que por ora não respondemos imediatamente à questões frívolas - frente ao iluminado pensamento - como a tal pergunta, que não é de imediato respondida. Além dos demais estímulos externos, que se anulam.

A ideia que tive não me causou tudo isso, e não sei se por isso dou graças aos céus ou os amaldiçôu. Ela também não durou muito; antes do fim do dia já tinha me deixado, ou eu por mim a abandonei, o que mais uma vez me deixa confuso, visto que já me soltaram um "Deus te livre de uma ideia fixa" ao passo que a ideia fixa é que constrói homens fortes. Não sou forte. Sou besta, com uma ideia besta, não passa disso. O que pensei é no máximo curioso, e parte dessa curiosidade já se evapora se a mesma ideia passou por outra cabeça que não a guardou, como não guardo agora.

Trata-se apenas de uma observação do cotidiano, digamos linguístico, já que o objeto está na área da palavra falada. Para ser mais preciso, são duas falas, comumente pronunciadas por todo mundo, seja a pessoa religiosa ou profana. São as seguintes: "todo santo dia...", seguida de um complemento indicado pelas reticências e "nem todo dia é santo". A contradição é explícita. Talvez porque não façam parte dos chamados ditados populares, embora sejam exaustivamente ditos e bem populares


Os ditados, apesar de serem usados tanto, não se desbotam - às vezes uma nódoa aqui ou acolá - e seguem de boca em boca, de tempos em tempos, sem perder a força significativa. E assim só sobrevivem porque podem ser ditos por todos e por cada um. Nisso são iguais às falas citadas. E uma sentença à moda ditado prova o que aqui se diz: "Jesus não tem dentes no país dos banguelas", nome - para dar o crédito - do disco gravado pelos Titãs em 1987. É simplesmente a adaptação humana, que não deixa de agir no campo das ideias. Se o dia é santo ou deixa de ser, isso não importa, o que vale é a ação da palavra sobre a realidade, a que nos é chamada a atenção pelos ditados e pelas falas em questão, enfatizando-a.

Se foi santo aquele dia em que os raios do Sol nascente iluminaram muito mais que o meu quarto, chegando a invadir os aposentos do meu cérebro - alguém falaria ser um contato com os próprios deuses - ou não, se não foi nada santo o dia em que no meu quintal plantei uma árvore da ciência do bem e do mal, cujo fruto mordido me fez olhar para algo invisível aos ouvidos e perceber a santa contradição que há séculos se estabelecera, sinceramente não sei dizer. O fato é que naquela noite eu não sonhei com os anjos.

acho que estou lendo muito Saramago.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

ALGUNS FILMES QUE MARCARAM

Os filmes que colocarei aqui não são necessariamente bons filmes, mas de alguma forma me marcaram, seja pela temática, pelo impacto ou por um valor sentimental. Ou qualquer outra coisa. Mas não nego que gosto de todos, casso contrário não os poria aqui. Vou escrever mais as minhas impressões do que falar sobre o enredo, que pode ser achado bem rapidim no Google. OK? Aí vão.

A BRUXA DE BLAIR: do diretor Daniel Myrick, o filme é de 1999. É um dos poucos filmes de terror que realmente me dão medo, se não for o único. Na primeira vez que eu fui assistir a esse filme - eu devia ter uns 13 anos - não consegui vê-lo todo. Passou no SBT à noite e eu estava sozinho de frente pra TV. Dali em diante algumas cenas ficaram na minha cabeça, mas quando, depois, assisti todo, a situação piorou: é sério, até hoje me arrepio se me lembrar de algumas cenas, como as "crianças" batendo na barraca à noite ou a última cena da casa abandonada.

O MÁSCARA: do diretor Chuck Russell, o filme é de 1994. Acho que esse a maioria já assitiu. Com Jim Carrey no papel principal. Foi o primeiro filme que assisti no cinema. Passei muito tempo vendo ele toda vez que passava na TV. O cachorro Milo é inesquecível!

ADVOGADO DO DIABO: de 1997, do diretor Taylor Hackford. Com Al Pacino, Charlize Theron e Keanu Reeves no elenco. Gosto bastante do desenrolar da história, da temática e do tom um tanto quanto desafiador e ácido do filme. Posso assistir quantas vezes for e acho que vou sempre repetir. Adoro a fala de Milton (Al Pacino), a encarnação do próprio diabo: "Vaidade é definitivamente meu pecado favorito". O filme mostra um escritorio de advocacia onde todos os juristas são pequenos diabos, disfarçados comandados por Milton. Lomax (Keanu Reeves) é contratado para entrar no time e, adivinha, se corrompe.

PONTE PARA TERABÍTIA: do diretor Gabor Csupo, é de 2007. Um filme de aventura encantador sobre o poder da imaginação. O garoto Jesse conhece a menina Leslie e os dois, digamos incompatíveis com o as outras crianças, resolvem brincar na floresta perto de casa. Lá. começam a inventar seres e lugares que não existiam na floresta. Então criam um mundo só deles: Terabítia, que fica do outro lado do riacho. Juntos, vivem grandes aventuras.

O CUROIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON: de David Fincher, lançado em 2008. Benjamim é um homem que nasce velho e vai rejuvenescendo, até que morre bebê. O filme todo é recheado de sutis ensinamentos, e os personagens que Benjamim encontra são bem curiosos, como Mike, capitão de um barco rebocador, que se considera um artista pelas tatuagens que fez no próprio corpo.

DEIXA ELA ENTRAR: do diretor Tomas Alfredson, lançado em 2008. O filme é sueco. Há uma versão ianque, mas ainda não vi. O filme, de terror, é de temática vampírica, mas bem diferente de todos os filmes de vampiro que já assisti. É bem um antidoto pra essa praga de Crepúsculo - me desculpem se fui rude na expressão. O filme é bem parado - mas não sonolento, de forma alguma - mas tem uma atmosfera incrivelmente assombrosa e envolvente. A trilha sonora ajuda bastante. Trata-se de uma relação entre um garoto mortal (Oskar) e um menina vampira (Eli). O filme é lindo.

EDUCAÇÃO: de Lone Scherfig, o filme é de 2009. Tentei assistir a esse filme num daqueles sites em que dá pra assistir on-line, mas fui surpreendido com a interrupção repentina e um pedido de cadastro. Só de mal, não me cadastrei e fui ver no cinema. Tinha gostado muito do que foi me permitido ver. Então, em plena Copa do Mundo, num dia do jogo da seleção brasileira, fui ao cinema com um amigo, por insistência minha; eu temia que se eu fosse esperar, ele poderia sair de cartaz, pois é dum daqueles filmes sem muito público. Eis um pouco da história, que se passa em Londres: uma bonita adolescente (Jenny) vive com os pais, que querem vera a filha em Oxford. Jenny conhece David, um homem na casa dos trinta, charmoso e, digamos, desenrolado. Ele a apresenta a vida noturna da cidade, os pontos culturais, o bom da vida. Ela fica entre a educação formal e os ensinamentos da vida. Outro filme muito bonito. Ah, mas deu pra assistir ao jogo do Brasil também.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

BEIJO DOIDO

Então, com os lábios satisfeitos, eu lhe disse mais ou menos assim: desde aquele beijo acidental eu quis poder controlar meus dados doidos.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

SOBRE MORTE

O Homem está morrendo graças ao seu animal instinto de sobrevivência.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

CONVERSA (OU A ESCRITA DE MUNDO)

Dois amigos conversam num bar:

- E qual é o autor que mais te influencia na tua escrita?

- Quem foi que escreveu o mundo?

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

LEMBRANÇAS

E pensar que eu já fui o motivo de união daquele casal – o maior e melhor motivo, como eles mesmos me diziam.

Realmente não me lembro da casa da tia Vera, nem do primo Líbio, que por alguns segundos, com muito esforço e a coluna entortada para trás, conseguia me erguer nos braços, nem do cachorro Lupe, que tia Vera cuidava e que, apesar dos gritos de toda gente expulsando-o, insistia em se aproximar e lamber meu pé; gostei de saber que nessas horas eu me desmanchava em risos, gargalhava mesmo. A propósito, só sei disso tudo porque me contaram. E se é a baixíssima idade que eu tinha a razão pela qual não me lembro de nada, foi também ainda pequeno que me apareceu algo que hoje eu talvez já entenda, mas não me lembro de como surgiu.

Quando me contavam esses fatos e mais outros, engraçados e tristes, os meus pais sempre interrompiam a narração com comentários sobre a minha importância em suas vidas. Diziam que eu lhes tinha dado e ainda dava forças perante a as dificuldades da vida e do relacionamento, não me deixando esquecer que eu é que, apesar de tudo, os mantinha juntos.

E de uma coisa eu me lembro muito bem; lembro que já naquela idade – uns seis, sete anos – não me agradava nem um pouco tamanha responsabilidade. Preferia que contassem as minhas lembranças que eu não tinha, e preferia ouvi-las do meu pai, embora minha mãe ou soubesse de mais detalhes ou somente ela pudesse resgatar o passado, visto que meu pai se ausentava durante parte do dia por causa do trabalho. Mas o que ele tinha a dizer eu ouvia atentamente e aproveitava o pouco tempo que ele ficava em casa pra lhe extrair o máximo da memória. Do jantar até a ida pra a cama, era ele me falando tudo; minha mãe corrigia aqui e ali, e chegou a falar pro marido que deixasse de contar mentiras, mas viu o meu entusiasmo e largou de mão a conversa de nós dois. De fato, percebi que depois de alguns dias meu pai passou a inventar, mas nem liguei; adorava quando, na cama, entre ele e minha mãe, eu dormia ouvindo aquela voz grave.

Eu gostava, também, quando ele, chegando do trabalho, me chamava de filhão e, se agachando, me abraçava. Adoraria se na sequência do abraço ele me pusesse nos braços, mas sempre dizia estar muito cansado. Eu compensava a falta com um aperto mais forte e demorado, e no fim de alguns segundos, depois de achar que já tinha vivido o suficiente, dava-lhe, de remate, um beijo na bochecha. Só depois do abraço é que eu pensava que mais um dia de vida bastava, pra poder abraçá-lo de novo. E resoluto e feliz, no dia seguinte, eu o tomava nos braços como se fosse meu... meu último minuto de vida.

Vi que minha mãe gostava de abraçá-lo também, e de beijá-lo na boca e de lhe apalpar a bunda e de derrubá-lo deitado na cama e lhe tirar a roupa e transar com ele.

Uma vez só vi os dois transando, assim como uma só vez vi a mão da minha mãe batendo de leve e rapidamente no bumbum do meu pai, que resmungou alguma coisa e reclamou que parasse. Os abraços dela certamente não eram mais afetuosos que os meus e os beijos... Bem, pelo que me lembro eram só selinhos. Mas com meus olhos de criança e sentimentos de adulto vi tudo em proporções aumentadas, e até imaginei algumas consequencias daquelas situações, como a chegada de um irmão ou irmã que me tomasse toda a atenção que eu recebia ou qualquer forma de aproximação dos dois em meu prejuízo. O pior é que nada disso aconteceu.

Eu ainda tinha pouco mais de onze anos quando simplesmente começaram a me deixar de lado. Minha mãe, que sabia do meu maior carinho pelo meu pai, tentou se aproximar de mim, mas continuamos, um do outro, à mesma distância apática, não sei se pela fraqueza de sua tentativa ou se pela minha predisposição a não querer a aproximação. Acho que pelos dois motivos. Na verdade, se ela sempre me deixou de lado ou se nunca me deu atenção, isso não importa, e naquele momento também não foi importante. Meu pai é que, naquele tempo, em vez do abraço me passava a mão na cabeça, assanhando meu cabelo e, falando que eu estava grande, passava direto. Grande uma ova! Grandes eram os meus sentimentos, e eu ainda era pequeno demais pra sofrer e agüentar tão grande impacto e enraivecimento.

Um dia, emburrado, resolvi falar com ele. Com meus treze anos bem decididos, pus-me ombro a ombro com os seus trinta e quatro e perguntei o porquê da indiferença que há tanto tempo só crescia. Ele disse que não entendeu a pergunta – ou se fez de desentendido – e me fez falar novamente. Com a raiva crescendo, e quase gritando, afirmei que ele não me amava mais. Ele se espantou e pediu que me acalmasse, que era claro que me amava, afinal eu era seu único filho; aliás, da nossa família, eu era o único que ele ainda amava. Me falou que eu sabia da situação entre ele e minha mãe, que não estava nada fácil. O fato é que não estavam para se separar. E ele não sabia que, tentando me acalmar, só me deixava com mais raiva e decepcionado. Ora, se não havia motivos para estar tão mudado, se eu não tinha irmão com quem dividir atenção, se ele não amava mais minha mãe, se porra nenhuma impedia que a gente fosse feliz – só de lembrar, me tremo de raiva – então por que me pôs de lado? Tudo isso eu não lhe disse e saí bufando, sem querer ouvir mais nada.

Sem querer ouvir mais nada a não ser a voz dele. Não demorou uma semana para que eu o perdoasse e voltássemos a nos falar normalmente. Não queria perdê-lo. Conformado, por um tempo aceitei a voz como o único contato entre nós; a voz e também a visão. Eu o via e ouvia em tudo que era hora. Eu crescia e ele me tratava cada vez mais como um irmão ou primo distante, de quem somente se aperta a mão ou, quando nem isso, fala apenas um oi. Quando não podia vê-lo nem ouvi-lo, imaginava-o, e na sala de aula, a bagunça dos outros meninos é que me acordava do transe. Na hora do sono, ele estava do meu lado me abraçando para que eu pudesse dormir tranquilo.

Hoje, ainda mais fortemente, eu o imagino e sempre me lembro, amedrontado, do último dia em que o vi.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

FRAQUEZAS

Na sequência da horrenda foto, surgiu o horrível vídeo e o repórter calou-se para que se pudesse assistir à breve reprodução.

O pequeno filme, em preto e branco e com uma imagem chiada e distante, mostrava uma mulher e uma criança numa sala de estar. Não se podia ouvir as vozes porque o áudio faltava, mas o eco que aquelas imagens causaram não podia ter sido maior.

Logo que a reportagem acabou, ou mesmo antes, assim que o vídeo findou e o jornalista voltou a falar, dezenas de milhares de telespectadores, segundos antes completamente calados e boquiabertos, explodiram em suas casas, em vozes isoladas, expressando sua revolta e estupefação. Em menos de dois dias, havia um só vozerio, disforme e assustador, engolindo toda a cidade, todo o país, ao mesmo tempo em que gritava, aproveitando a boca aberta.

O vozerio falava, ou melhor, atropelava-se tentando falar sobre o vídeo, sobre os gestos bruscos e decididos da mulher, sobre a criança indefesa, a violência, a instituição familiar, a injustiça, a impunidade no país, o despreparo dos profissionais, os benefícios da tecnologia, o amor, o stress nos dias atuais, o ódio, a (in)existência de Deus. Mas apesar da confusão de tantas vozes que falavam de tantos assuntos, uma coisa era dita por todos e entendida claramente, algo com o que todos concordavam, que acabava com qualquer divergência que pudesse existir ao se tratar daqueles assuntos mais escabrosos. De todo o falatório, podia-se distinguir algumas palavras, ditas pelo apresentador do telejornal e repetidas pelo transeunte entrevistado, pelo advogado, pelo policial, pelo delegado, pela psicóloga, bem como pelo presidente da República ao se pronunciar sobre o caso. As dezenas de milhões de telespectadores, enfim, comparavam as forças dos envolvidos no vídeo e diziam que, sendo a mulher o mais forte, não podia ir contra alguém mais fraco, ainda mais uma criança. Era pura covardia. Que fosse enfrentar alguém do seu tamanho. Era pura covardia, era pura covardia, que fosse enfrentar alguém do seu tamanho.

Passaram-se dias nessa ladainha incansável. O vídeo de poucos segundos tinha durado o suficiente para ser o maior longa de algumas semanas, e os críticos da sétima arte não pouparam análises e comentários – covardia pura, disseram. Não perceberam, no entanto, os não-ditos deixados pelo filme.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

13 DE MAIO

Quando a polícia chegou, encontrou Bernardo Matias chorando. Não se sabe quais eram os sentimentos dele naquele momento, quando por ironia tanta gente o observava tão atentamente. Mas Matias não se achava nem um pouco inferior àquelas pessoas que, depois das missas, saíam em bando da Igreja de Fátima. Perambulando lento pelas redondezas da igreja ou sentado em algum ponto da escada vermelha que dá entrada para o templo, muitas vezes pedindo esmola, o quase velho sempre retribuía o olhar esquivo e desconfiado que as pessoas lhe enviavam. Ele até se divertia com isso, ao ver os outros assustados com sua aparência suja e desgrenhada, com seus olhos respondões, mas o que Matias mais gostava era de observá-los de longe, cada rostinho angelical e sereno escondendo os mais vis pensamentos. A grande estátua de Nossa Senhora de Fátima, no meio da Praça Pio IX, seria um lugar perfeito; se pudesse, trepava na cacunda dela e de lá, sem ser visto, veria a todos e a tudo. Nem aos pés da santa, no entanto, ele conseguia chegar; o máximo que podia era encostar-se na base sobre a qual se erguia a imagem. E assim estava quando os policiais chegaram e o algemaram, encostado de frente ao concreto, apoiando a cabeça com a testa sobre o braço levantado e escondendo o rosto.

O antigo e temporário companheiro de Matias realmente não o conhecia quando o chamou para participar da maldita ação. Serginho chegou manso e, mexendo em algo preso na cintura do calção, mostrou um revólver a Matias, que pôde ver apenas o cabo pelo buraco rasgado – propositalmente? – na camisa do outro. Este só falou que a “parada” iria ser rápida e que o “negócio” seria dividido, meio a meio. Eu sei que tu fica aí de ôi atento no pessoal, falou Serginho, num tom debochado e imperioso, então é só mostrar o peixe mais gordo que a gente fisga ele e deixa só as espinha. A cara de Matias, assustado, provocou no outro uma gargalhada, que ficou ecoando na cabeça do quase velho até ser tomada por um som bem mais forte.

Se o peixe tinha que ser grande, o escolhido não o era exatamente. Uma mulher bonita e bem arrumada foi parada por Matias que, empunhando discretamente a arma, pediu avexado pelo dinheiro. Não queria fazer nada, só queria o dinheiro. Serginho dava a cobertura; ele também só queria o dinheiro. A mulher suplicava, com um olhar medroso, que a deixassem viva. Matias retribuiu o olhar, pedindo, porém, que ela tirasse do rosto aqueles olhos tão ameaçadores. Ele não gostava que fosse assim desse jeito tão perto, tinha que ser mesmo de longe. Aquele susto, lembrança da atitude de Serginho, transformou-se em medo, mas ele não queria sentir medo, então pedia com insistência à mulher, implorava, sem falar nada, a suspensão daquele olhar, ou que ao menos fechasse os olhos. Ela fechou, mas só depois que o tiro soou pela avenida.

sábado, 17 de abril de 2010

NA IX BIENAL DO LIVRO DO CEARÁ

Era dia 14/04, uma quarta-feira, à noite. A "Arena Multicultural 'Memorial de Maria Moura'", no Centro de Convenções, estava lotada de espectadores que esperavam ansiosamente a chegada de Ziraldo, o mineiro criador do Menino Maluquinho. O tema da conversa era: ler é mais importante do que estudar? A resposta afirmativa do ilustre convidado gerou reações, principalmente das crianças que, para graça da noite, manifestaram-se com o microfone nas mãos. Um menino, então, falou e mostrou sua esperteza e não se importou com a tal "conveniência", dos adultos:

- Ziraldo, você falou que é mais importante ler do que estudar. Mas quando a gente tá estudando a gente num tá lendo?

Juntas a essa pergunta, as primeiras palavras de Ziraldo como resposta fizeram todos rirem. Num tom repreensivo brincalhão e bem humorado, Ziraldo falou:

- Menino, deixe de se meter a sabido!

Pouco depois, um outro garoto, já tendo feito sua pergunta, foi chamado por Ziraldo para se aproximar da mesa. Este, então, falou:

- Você gosta de ler?

- Gosto.

- Você lê muito?

- Leio.

- Seus pais leem pra você?

- Leem.

- Menino, você tá salvo!

E, na platéia, alguns aplaudiram e todos riram

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O AMORZINHO QUE EU NUNCA TIVE

E quem sabe nunca terei, é uma garotinha linda. Linda e leve e pequena e com um vestidinho rosa que se agita quando ela corre atrás de mim depois de eu lhe atormentar com muitos carinhos, porque eu a amo tanto!... Mas ela corre, calçando aquelas sapatilhas de boneca, ela corre feliz, balançando o cabelo arrumado, e me bate com pancadinhas que mais me afeiçoam do que me magoam. Na verdade, só me afeiçoam, porque ela é uma garotinha linda. Linda e meiga e frágil e forte com seus bracinhos que enlaçam o meu pescoço num abraço bem aconchegante, seguido de um beijo demorado na minha bochecha.

O amorzinho que nunca tive é uma garotinha que, com esses gestos puros, dispensa qualquer palavra, corruptora do encanto existente nos seus pequenos olhos que brilham. Olhinhos que brilham, com maior ou menor intensidade, mesmo quando não há sorrisos, mesmo quando há lágrimas; e é assim que percebo nela as sutilezas de criança, pois logo noto a diferença de luz no meu caminho. Brilham até quando, sentada sobre minhas pernas e encostada ao meu peito, ela dorme; ou quando ela o faz com a cabeça sobre um dos meus ombros, eu a segurando. A luz dos olhos, nesses momentos, resguarda-se no corpo e se espalha por todo ele, acalmando-o, fazendo com que ela, minha pequena, tenha um sono tranquilo. Tranquilo e sereno e livre de todos os problemas é como me sinto quando a vejo assim, nesses instantes de grande proximidade entre nós dois, e sinto seu cheiro suave e percebo a luz por trás de suas pálpebras.

É muito bom, meu amorzinho que nunca tive, segurar na tua mão e te ajudar a chegar a um lugar que seja bom e bonito para ti, e para mim, e para todos; sinto-me bem por poder te ensinar o que sei e te amo ainda mais por me ensinares o que nunca saberei; sou o cara mais feliz do mundo por te ter ao meu lado a cada dia, mas me aperta o coração ter que te ver em outros rostinhos e segurada por outras mãos que não as minhas; e quando, pelas ruas da cidade, dás um sorriso para mim, não sabes, pequenina, o quanto és impiedosa e generosa comigo.

Mãe, por que nunca me deste uma irmãzinha?

quinta-feira, 11 de março de 2010

PALAVRAS

Nesse conto, como vocês vão perceber, eu viajei um pouquinho. E essa viagem, pra mim, na hora da escrita, foi sensacional! Espero que vocês, se não viajarem, pelo menos tentem imaginar. hehehe

Certo dia, eu já escrevia para lá da metade de um conto quando aconteceu algo surpreendente: as palavras se rebelaram.

É certo que no processo da escrita há sempre uma luta com as palavras ou, no mínimo, uma negociação para saber, dentre muitas, qual a mais rica, que pode pagar o pedágio entre o cérebro e a folha de papel, ou a mais labiosa que, não sendo tão rica, me convence a reduzir a referida taxa. Mas o que aconteceu não foi uma luta. Muito menos houve qualquer tipo de negociação.

As palavras que naquele momento atravessaram meu crivo, na verdade o rasgaram e, voluntariosamente, saltaram para a superfície do papel. No mesmo instante, manifestaram sua presença e só assim as percebi.

Eu traçava um parêntese e antes de fechá-lo com o outro tracinho curvo, as palavras tomaram vida e dotaram-se de movimento. Como se as cadeias carbônicas do grafite se reorganizassem e adquirissem as formas encontradas nos tecidos animais. Animais. Eram bem isso mesmo aquelas palavras; eram selvagens. E eu já estava bem impressionado e assustado com a rápida movimentação que elas faziam, quando de repente destacaram-se da folha. Se antes, em sua posição normal, estavam deitadas, agora tinham se erguido e percebi que me encaravam destemidamente. Se queriam me intimidar ou chamar minha atenção, tinham conseguido.

Assombrado, vi a protuberância das corcundas do m e do n se moverem energicamente na minha direção, como a dizerem “vai encarar?!”. Não encarei exatamente, mas também não virei o rosto; fiquei paralisado, observando. Assim, via a letra i, com sua cabeça flutuante, incitando as outras letras a participarem do motim. Daí vieram várias letras a gritando para abrir passagem ao l, ao u e ao o; estas três últimas letras, trabalhando em conjunto, formaram uma espécie de tílburi sem cavalo, em que o l era o cocheiro, o u era o próprio veículo e o o, fazendo o papel da roda, impulsionava o transporte pela pauta da folha. E não demorou muito para que esse comboio de letras levasse ao chão o único parêntese em pé. Tudo isso, apesar de ser no papel, acontecia em três dimensões. Se eu pudesse tocá-las...

Mas isso não foi possível. O que havia acontecido tinha sido apenas uma preparação para a ação principal. Pararam de repente, deitaram-se de novo e, embaralhando-se rapidamente, organizaram-se em uma frase: abaixo os parênteses, não queremos ser presas entre eles. Ainda meio perturbado, não consegui entender o significado dessas palavras; pensei, então, em voz alta: o quê?! Como se tivessem me ouvido, no mesmo instante tomaram novas posições e formaram outra sentença: extinção aos parênteses, queremos ser livres. Fiz-me de novo a mesma pergunta de espanto, mas dessa vez só pra mim: o que?! E, apesar de tudo, pensando que elas realmente podiam me ouvir, tentei uma comunicação; tentei acalmá-las. Falei: mas vocês são livres. Vocês, aliás, são fruto de uma plena liberdade artística. Eu nunca as prendi e jamais as prenderei. Se há algo a que vocês são presas, é ao meu pensamento, que é livre.

Minhas breves frases de efeito não surtiram efeito. Aquelas palavras queriam mesmo era acabar comigo. Fizeram ouvido de mercador e ergueram-se novamente. Dessa vez, não contentes com o que já tinham me causado, começaram a pular para as linhas acima a fim de espalhar a desordem onde tudo ainda era tranqüilo. Daí que tudo se transformou num formigueiro ensandecido. Quando me dei conta, já o texto todo era só garrancho: letras sobre letras; palavras pelo avesso; letras órfãs, que tinham se perdido daquelas com que nasceram e agora não tinham mais sentido algum. Tudo ficou completamente ilegível. E eu fiquei completamente desesperado. Meu conto, que eu já terminava, foi por água abaixo; todo o meu trabalho foi totalmente destruído.

Tudo isso se passou em alguns poucos minutos. No fim desse tempo, como eu o tinha passado sem a lapiseira na mão e sem ter me apoiado no caderno para escrever, um vento forte entrou pela janela do quarto e levantou e sacudiu violentamente as folhas do meu caderno. Disso, não sei o que foi mias refrescante, se sentir o vento no rosto acalmando as ideias, ou se perceber, ao rever o meu conto, que ele estava intacto. Na mesma hora, terminei o que estava escrevendo.

quinta-feira, 4 de março de 2010


Ideia: Paulo Henrique Passos
Desenho: Franco André

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

POESIA

Talvez porque a cama parecesse mesmo um ataúde, estreita e desconfortável que era, nela ele JAZZia qual um moribundo, apesar de se remexer lentamente de vez em quando, como que embalado por uma lenta melodia. Era manhã de domingo e a semana no trabalho tinha sido dura, como sempre. Estava muito cansado.

Uma faísca de sol entrou pela fresta do telhado velho e o beliscou bem na bochecha negra. O efeito não foi imediato, mas o dedo quente insistiu em cutucar, de modo que mudou o ângulo e foi para no olho do adormecido. Este até quis escapar, virando-se de lado; mas se antes era um dedo, agora uma mão inteira lhe dava tapas por todo o corpo: ele sabia que as telhas precisavam ser trocadas. E o sabia tanto que as encarou com raiva quando finalmente abriu os olhos. Sentou-se na cama, espreguiçou-se gostosamente e buscou a chinela. A água fria no rosto o fez terminar de acordar.

Pegou uma BLUESa azul qualquer em cima duma cadeira e foi comprar pão; em casa, tinha deixado a água esquentando. No caminho, assobiava algo que lhe vinha na memória; o som agudo e ritmado que saía da própria boca lhe distraía, ele com a cabeça levantada pro céu, não encontrou um que pudesse lhe acompanhar. Mas "no meio do caminho tinha uma pedra", e ele a encontrou. A topada levou o nosso assobiador ao chão. Isso mesmo, ele topou numa ROKC e ROLLou e rolou e quando parou, bufou. Viu a chinela quebrada e não aguentou; soltou: "FOLK you!" O grito, direcionado ao nada, saiu e levou consigo a raiva.

Em casa, ele já soprava o café na xícara quando conseguiu sintonizar no pequeno aparelho de rádio uma estação qualquer. A música que passava naquele momento o fez se esquecer do dedão que latejava, da cama desconfortável, da dura semana, da difícil vida. A música que lhe chegava aos ouvidos era o som do próprio assobio.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

UMA CARTA DE MACHADO DE ASSIS A CAROLINA NOVAIS

Essa é uma carta de 1868 que Machado de Assis, aos 29 anos, apaixonado, escreve a Carolina Novais, com quem se casaria no ano seguinte.

Minha querida C., recebi ontem duas cartas tuas. Depois de dous dias de espera, calcula o prazer que tive, como as li, reli e beijei! A minha tristeza converteu-se em súbita alegria. Eu estava tão aflito por ter notícias tuas que saí do Diário1 a uma hora para ir à casa e com efeito encontrei as duas cartas, uma da quais devera ter vindo antes, mas que, sem dúvida, por causa do correio, foi demorada. Também ontem deves ter recebido duas cartas minhas; uma delas, a que foi escrita no sábado, levei-a no domingo às 8 horas ao correio, sem lembrar-me (perdoa-me!) que ao domingo a barca sai às 6 horas da manhã2. Às quatro horas levei a outra carta e ambas devem ter seguido ontem na barca das duas horas da tarde. Deste modo, não fui eu só quem sofreu com demora de cartas. Calculo a tua aflição pela minha, e estou que será a última. Eu já tinha ouvido cá que o M. alugara a casa das Laranjeiras, mas o que não sabia era que se projetava essa viagem a Juiz de Fora. Creio, como tu, que os ares não fazem nada ao F.; mas compreendo também que não é possível dar simplesmente essa razão. No entanto, lembras perfeitamente que a mudança para outra casa cá no Rio seria excelente para todos nós. O F. falou-me nisso uma vez e é quanto basta para que se trate disto. A casa há de encontrar-se, porque empenha-se nisto o meu coração. Creio, porém, que é melhor conversar outra vez com o F. no sábado e ser autorizado positivamente por ele. Ainda assim, temos tempo de sobra: 23 dias; é quanto basta para que o amor faça um milagre, quanto mais isto que não é milagre nenhum. Vais dizer naturalmente que eu condescendo sempre contigo. Por que não? Sofreste tanto que até perdeste a consciência do teu império; estás pronta a obedecer; admiras-te de seres obedecida. Não te admires, é cousa muito natural; és tão dócil como eu; a razão fala em nós ambos. Pedes-me cousas tão justas, que eu nem teria pretexto de te recusar se quisesse recusar-te alguma cousa, e não quero. A mudança de Petrópolis para cá é uma necessidade; os ares não fazem bem ao F., e a casa aí é um verdadeiro perigo para quem lá mora. Se estivesses cá não terias tanto medo dos trovões, tu que ainda não estás bem brasileira3, mas que o hás de ser espero em Deus. Acusas-me de pouco confiante em ti? Tens e não tens razão; confiante sou; mas, se te não contei nada é porque não valia a pena contar. A minha história passada do coração, resume-se em dous capítulos: um amor, não correspondido; outro, correspondido. Do primeiro nada tenho que dizer; do outro não me queixo; fui eu o primeiro a rompê-lo. Não me acuses por isso; há situações que se não prolongam sem sofrimento. Uma senhora de minha amizade obrigou-me, com os seus conselhos, a rasgar a página desse romance sombrio; fi-lo com dor, mas sem remorso. Eis tudo. A tua pergunta natural é esta: Qual destes dous Capítulos era o da Corina? Curiosa! Era o primeiro. O que te afirmo é que dos dois o mais amado foi o segundo. Mas nem o primeiro nem o segundo se parecem nada com o terceiro e último capítulo do meu coração. Diz Stael4 que os primeiros amores não são os mais fortes porque nascem simplesmente da necessidade de amar. Assim é comigo; mas, além dessas, há uma razão capital, e é que tu não te pareces nada com as mulheres vulgares que tenho conhecido. Espírito e coração como os teus são prendas raras; alma tão boa e tão elevada, sensibilidade tão melindrosa, razão tão reta não são bens que a natureza espalhasse às mãos cheias pelo teu sexo. Tu pertences ao pequeno número de mulheres que ainda sabem amar, sentir e pensar. Como te não amaria eu? Além disso, tens para mim um dote que realça os mais: sofreste. É a ambição dizer à tua grande alma desanimada: "levanta-te, crê e ama; aqui está uma alma que te compreende e te ama também". A responsabilidade de fazer-te feliz é decerto melindrosa; mas eu aceito-a com alegria, estou que saberei desempenhar este agradável encargo. Olha, querida; também eu tenho pressentimento acerca da minha felicidade; mas que é isto senão o justo receio de quem não foi ainda completamente feliz? Obrigado pela que me mandaste; dei-lhe dous beijos como se fosse em ti mesma, pois que apesar de seca e sem perfume, trouxe-me ela um pouco de tua alma. Sábado é o dia de minha ida; faltam poucos dias e está tão longe! Mas que fazer? A resignação é necessária para quem está à porta do paraíso; não afrontemos o destino que é tão bom conosco. Volto à questão da casa; manda-me dizer se aprovas o que te disse acima, isto é, se achas melhor conversar outra vez com o F. e ficar autorizado por ele, a fim de não parecer ao M. que eu tomo uma intervenção incompetente nos negócios de sua família. Por ora, precisamos de todas estas precauções. Depois... depois, querida, queimaremos o mundo, por que só é verdadeiramente senhor do mundo quem está acima das suas glórias fofas e das suas ambições estéreis. Estamos ambos neste caso; amamo-nos; e eu vivo e morro por ti. Escreve-me e crê no coração do teu Machadinho.

Notas ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

1. Machado de Assis, em 1867, é nomeado ajudante do diretro do Diário Oficial.
2. Se tratava do correio marítimo, implantado desde a chegada da Família Real Ao Brasil, em 1808.
3. Carolina Novais era portuguesa, irmã do poeta Faustino Xavier de Novais, que foi diretor do quinzenal "O Futuro", no qual Machado colaborava. Chega ao Rio de Janeiro em 1866.
4. Madame de Stael, escritora, poeta, ativista política, feminista e filósofa política, que viveu na França do século XVIII, vivenciando períodos como a Revolução Francesa e o a era napoleônica.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O 2º DIÁLOGO DO BRASIL

A madrinha, com um terço enrolado no pulso, chegou pro afilhado de apenas três anos, agachou-se um pouco, estendeu a mão e naturalmente perguntou:

- Cadê a bênção, Cauã?

- Saiu.