quinta-feira, 11 de março de 2010

PALAVRAS

Nesse conto, como vocês vão perceber, eu viajei um pouquinho. E essa viagem, pra mim, na hora da escrita, foi sensacional! Espero que vocês, se não viajarem, pelo menos tentem imaginar. hehehe

Certo dia, eu já escrevia para lá da metade de um conto quando aconteceu algo surpreendente: as palavras se rebelaram.

É certo que no processo da escrita há sempre uma luta com as palavras ou, no mínimo, uma negociação para saber, dentre muitas, qual a mais rica, que pode pagar o pedágio entre o cérebro e a folha de papel, ou a mais labiosa que, não sendo tão rica, me convence a reduzir a referida taxa. Mas o que aconteceu não foi uma luta. Muito menos houve qualquer tipo de negociação.

As palavras que naquele momento atravessaram meu crivo, na verdade o rasgaram e, voluntariosamente, saltaram para a superfície do papel. No mesmo instante, manifestaram sua presença e só assim as percebi.

Eu traçava um parêntese e antes de fechá-lo com o outro tracinho curvo, as palavras tomaram vida e dotaram-se de movimento. Como se as cadeias carbônicas do grafite se reorganizassem e adquirissem as formas encontradas nos tecidos animais. Animais. Eram bem isso mesmo aquelas palavras; eram selvagens. E eu já estava bem impressionado e assustado com a rápida movimentação que elas faziam, quando de repente destacaram-se da folha. Se antes, em sua posição normal, estavam deitadas, agora tinham se erguido e percebi que me encaravam destemidamente. Se queriam me intimidar ou chamar minha atenção, tinham conseguido.

Assombrado, vi a protuberância das corcundas do m e do n se moverem energicamente na minha direção, como a dizerem “vai encarar?!”. Não encarei exatamente, mas também não virei o rosto; fiquei paralisado, observando. Assim, via a letra i, com sua cabeça flutuante, incitando as outras letras a participarem do motim. Daí vieram várias letras a gritando para abrir passagem ao l, ao u e ao o; estas três últimas letras, trabalhando em conjunto, formaram uma espécie de tílburi sem cavalo, em que o l era o cocheiro, o u era o próprio veículo e o o, fazendo o papel da roda, impulsionava o transporte pela pauta da folha. E não demorou muito para que esse comboio de letras levasse ao chão o único parêntese em pé. Tudo isso, apesar de ser no papel, acontecia em três dimensões. Se eu pudesse tocá-las...

Mas isso não foi possível. O que havia acontecido tinha sido apenas uma preparação para a ação principal. Pararam de repente, deitaram-se de novo e, embaralhando-se rapidamente, organizaram-se em uma frase: abaixo os parênteses, não queremos ser presas entre eles. Ainda meio perturbado, não consegui entender o significado dessas palavras; pensei, então, em voz alta: o quê?! Como se tivessem me ouvido, no mesmo instante tomaram novas posições e formaram outra sentença: extinção aos parênteses, queremos ser livres. Fiz-me de novo a mesma pergunta de espanto, mas dessa vez só pra mim: o que?! E, apesar de tudo, pensando que elas realmente podiam me ouvir, tentei uma comunicação; tentei acalmá-las. Falei: mas vocês são livres. Vocês, aliás, são fruto de uma plena liberdade artística. Eu nunca as prendi e jamais as prenderei. Se há algo a que vocês são presas, é ao meu pensamento, que é livre.

Minhas breves frases de efeito não surtiram efeito. Aquelas palavras queriam mesmo era acabar comigo. Fizeram ouvido de mercador e ergueram-se novamente. Dessa vez, não contentes com o que já tinham me causado, começaram a pular para as linhas acima a fim de espalhar a desordem onde tudo ainda era tranqüilo. Daí que tudo se transformou num formigueiro ensandecido. Quando me dei conta, já o texto todo era só garrancho: letras sobre letras; palavras pelo avesso; letras órfãs, que tinham se perdido daquelas com que nasceram e agora não tinham mais sentido algum. Tudo ficou completamente ilegível. E eu fiquei completamente desesperado. Meu conto, que eu já terminava, foi por água abaixo; todo o meu trabalho foi totalmente destruído.

Tudo isso se passou em alguns poucos minutos. No fim desse tempo, como eu o tinha passado sem a lapiseira na mão e sem ter me apoiado no caderno para escrever, um vento forte entrou pela janela do quarto e levantou e sacudiu violentamente as folhas do meu caderno. Disso, não sei o que foi mias refrescante, se sentir o vento no rosto acalmando as ideias, ou se perceber, ao rever o meu conto, que ele estava intacto. Na mesma hora, terminei o que estava escrevendo.

10 comentários:

Anônimo disse...

que texto legaaal. criativo...
adorei, ó =D

p.s.: sim, é aquilo mesmo que é wasabi.

marilia disse...

Paulo,
da outra vez... faz o texto no word, assim se as "danadas rebeldes" quiserem se rebelar, e saltarem da tela do monitor. Tu, astutamente, olha para elas e diz: iúúuú!, já salvei o meu texto... rsrsrrsrsrsr

Bricadeiras a parte, mas que imaginação heim. Uma viagem boa viu, eu tenho até umas dessas, mas o difícil é organiza-la em papel, ou para precaução maior, em arquivo .doc... Nunca se sabe uma rebelião dessas "bichas réias".
Muito bom, muito bom mesmo.

Beijão!
;)

Mehazael disse...

Muito legal esse conto/crônica. Mas que escritor nunca se sentiu traído ou amotinado pelas letras? Quantas vezes elas não nos parecem selvagens e arredias? E aí não há palavra nem frase nem texto. Muito bom, especialmente para quem escreve. Me identifiquei tanto. Fora que tu escreve muito bem. Uma vez mais, muito legal, muito bom.
Abração!

Thiago César disse...

mermão, a viagem aki foi boa tb!
daria um belo curta-metragem! hehe...

CA Ribeiro Neto disse...

Rapaz, você já tinha lido, mas foi bom ler!

Eu sempre desconfiei do i, ele tem cara de libertino mesmo!


E mantenho a minha opinião de que esse texto é uma referência à patenteação das obras, devendo tudo ser considerado domínio público!!! hehehehehe

Anônimo disse...

valha, o blogspot me odeia e nao salva meus comentários e zaz.
enfim, eu tinha dito que tu é muito criativo e que eu tinha gostado muito desse texto. mas num vou falar mais nada, nao, pra tu num ficar se achando. rrsrsrrsrsrs
brincadeira, vc sabe.
vc é um talento e eu te admiro pencas.

Marcella disse...

Acredito que se você tiver a liberdade de voar na escrita, não haverá real liberdade em escrever. Será somente mais uma ferramenta, destas que se compra na esquina e as palavras serão sempre submissas e pouco se importarão em estar entre parenteses.

E mesmo que o conto tivesse sido perdido, diante deste texto eu diria que "um ganhar que ganha em se perder".

Giovana disse...

adorei o texto...

em animação isso ficaria muitíssimo legal!!

Freddy Costa disse...

Mais um que se perde nas drogas...
Tão jovem, tadinho...

Hermes disse...

DHASUDHSAUDHAUDHUHDSA, to rindo do comentário do Freddy.
Mas enfim, to arrependido de nunca mais ter vindo aqui, é que tava sem usar meu blogue também. Só foi voltar, e vejo uma obra prima, obra prima sim, seu safado, que deve ser considerada como clássico da literatura brasileira, e ache ruim, deve mesmo. E negócio de domínio público é esse? Acho que não tem a ver com isso, mas as letras ficando putas com o () foi genial. Realmente daria um bom curta.