Desculpem a prolixidade do texto.
Todo santo dia tratamos de dormir e de acordar, comer, fazer o que se faz. Mas nem todo dia é santo, então dormimos, acordamos, comemos e ficamos matutando; uma ideia besta nos toma a cabeça, no sono, ao nos espreguiçarmos ou na mordida do pão à mesa. Tendo a ideia se apossado devidamente, ainda fazemos o que se faz, mas não como se costuma fazer; o alheamento agora pretende ser de um nível maior que aquela indiferença rotineira. Ora, temos, a partir daí, se nos perguntarem porque andamos tão avoados, um motivo mais do que forte para dizer que por ora não respondemos imediatamente à questões frívolas - frente ao iluminado pensamento - como a tal pergunta, que não é de imediato respondida. Além dos demais estímulos externos, que se anulam.
A ideia que tive não me causou tudo isso, e não sei se por isso dou graças aos céus ou os amaldiçôu. Ela também não durou muito; antes do fim do dia já tinha me deixado, ou eu por mim a abandonei, o que mais uma vez me deixa confuso, visto que já me soltaram um "Deus te livre de uma ideia fixa" ao passo que a ideia fixa é que constrói homens fortes. Não sou forte. Sou besta, com uma ideia besta, não passa disso. O que pensei é no máximo curioso, e parte dessa curiosidade já se evapora se a mesma ideia passou por outra cabeça que não a guardou, como não guardo agora.
Trata-se apenas de uma observação do cotidiano, digamos linguístico, já que o objeto está na área da palavra falada. Para ser mais preciso, são duas falas, comumente pronunciadas por todo mundo, seja a pessoa religiosa ou profana. São as seguintes: "todo santo dia...", seguida de um complemento indicado pelas reticências e "nem todo dia é santo". A contradição é explícita. Talvez porque não façam parte dos chamados ditados populares, embora sejam exaustivamente ditos e bem populares
Os ditados, apesar de serem usados tanto, não se desbotam - às vezes uma nódoa aqui ou acolá - e seguem de boca em boca, de tempos em tempos, sem perder a força significativa. E assim só sobrevivem porque podem ser ditos por todos e por cada um. Nisso são iguais às falas citadas. E uma sentença à moda ditado prova o que aqui se diz: "Jesus não tem dentes no país dos banguelas", nome - para dar o crédito - do disco gravado pelos Titãs em 1987. É simplesmente a adaptação humana, que não deixa de agir no campo das ideias. Se o dia é santo ou deixa de ser, isso não importa, o que vale é a ação da palavra sobre a realidade, a que nos é chamada a atenção pelos ditados e pelas falas em questão, enfatizando-a.
Se foi santo aquele dia em que os raios do Sol nascente iluminaram muito mais que o meu quarto, chegando a invadir os aposentos do meu cérebro - alguém falaria ser um contato com os próprios deuses - ou não, se não foi nada santo o dia em que no meu quintal plantei uma árvore da ciência do bem e do mal, cujo fruto mordido me fez olhar para algo invisível aos ouvidos e perceber a santa contradição que há séculos se estabelecera, sinceramente não sei dizer. O fato é que naquela noite eu não sonhei com os anjos.
acho que estou lendo muito Saramago.
Todo santo dia tratamos de dormir e de acordar, comer, fazer o que se faz. Mas nem todo dia é santo, então dormimos, acordamos, comemos e ficamos matutando; uma ideia besta nos toma a cabeça, no sono, ao nos espreguiçarmos ou na mordida do pão à mesa. Tendo a ideia se apossado devidamente, ainda fazemos o que se faz, mas não como se costuma fazer; o alheamento agora pretende ser de um nível maior que aquela indiferença rotineira. Ora, temos, a partir daí, se nos perguntarem porque andamos tão avoados, um motivo mais do que forte para dizer que por ora não respondemos imediatamente à questões frívolas - frente ao iluminado pensamento - como a tal pergunta, que não é de imediato respondida. Além dos demais estímulos externos, que se anulam.
A ideia que tive não me causou tudo isso, e não sei se por isso dou graças aos céus ou os amaldiçôu. Ela também não durou muito; antes do fim do dia já tinha me deixado, ou eu por mim a abandonei, o que mais uma vez me deixa confuso, visto que já me soltaram um "Deus te livre de uma ideia fixa" ao passo que a ideia fixa é que constrói homens fortes. Não sou forte. Sou besta, com uma ideia besta, não passa disso. O que pensei é no máximo curioso, e parte dessa curiosidade já se evapora se a mesma ideia passou por outra cabeça que não a guardou, como não guardo agora.
Trata-se apenas de uma observação do cotidiano, digamos linguístico, já que o objeto está na área da palavra falada. Para ser mais preciso, são duas falas, comumente pronunciadas por todo mundo, seja a pessoa religiosa ou profana. São as seguintes: "todo santo dia...", seguida de um complemento indicado pelas reticências e "nem todo dia é santo". A contradição é explícita. Talvez porque não façam parte dos chamados ditados populares, embora sejam exaustivamente ditos e bem populares
Os ditados, apesar de serem usados tanto, não se desbotam - às vezes uma nódoa aqui ou acolá - e seguem de boca em boca, de tempos em tempos, sem perder a força significativa. E assim só sobrevivem porque podem ser ditos por todos e por cada um. Nisso são iguais às falas citadas. E uma sentença à moda ditado prova o que aqui se diz: "Jesus não tem dentes no país dos banguelas", nome - para dar o crédito - do disco gravado pelos Titãs em 1987. É simplesmente a adaptação humana, que não deixa de agir no campo das ideias. Se o dia é santo ou deixa de ser, isso não importa, o que vale é a ação da palavra sobre a realidade, a que nos é chamada a atenção pelos ditados e pelas falas em questão, enfatizando-a.
Se foi santo aquele dia em que os raios do Sol nascente iluminaram muito mais que o meu quarto, chegando a invadir os aposentos do meu cérebro - alguém falaria ser um contato com os próprios deuses - ou não, se não foi nada santo o dia em que no meu quintal plantei uma árvore da ciência do bem e do mal, cujo fruto mordido me fez olhar para algo invisível aos ouvidos e perceber a santa contradição que há séculos se estabelecera, sinceramente não sei dizer. O fato é que naquela noite eu não sonhei com os anjos.
acho que estou lendo muito Saramago.
4 comentários:
Poxa vida!um dos nossos Eufonicos mais afinados, que texto hein!poxa que inspiração em Saramago foi essa?ele morreu e vc quer pegar o lugar dele?
Como sempre muito é ótimo ver uma novo postagem sua e passar por este blog tão comovente
Aquele Abraço!
caralho, cronica meio viagem essa.
adorei!
Depois eu que sou emblemático, hein? Essa tá difícil de se compreender. Já li várias vezes e ainda to matutando, mas é assim, texto bom também nos deixa pensando. Com uma ideia fixa, ou não. Aliás, ter ideia fixa seria uma boa, mas nunca consigo, também sou um homem fraco. Mas parece que você escolheu o seu caminho, não sonhou com os anjos e plantou uma árvore científica, ta lascado, meu amigo!
incrível, pra variar...
tinha lido essa crônica tua faz é tempo, mas não sei pq não comentei.
talvez pq fiquei que nem o Hermes "matutando". Ela é mesmo viagem. E nem sei se entendi direito. Mas o fato é que me deixou mesmo pensando.
Quando eu crescer quero ser que nem o Paulo Henrique! hehe
beijos, querido =)
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