Esse quebra, mais uma vez, a sequência de textos mio velhos.
“São as pequenas coisas que valem mais.
É tão bom estarmos juntos
E tão simples: um dia perfeito”
Um dia perfeito – Renato Russo
“Como é barulhenta essa chuva. Só falta quebrar o telhado, meu Deus!” Assim pensou a senhora que, na cozinha, preparava um cheiroso jantar. “Essa chuva só serve pra dar susto na gente”, resmungou o velho que cochilava no sofá da sala e acordou de repente, com o estouro de um trovão. No mesmo instante, porém, se acalmou. Percebeu, pelo excitante cheiro de frango cozido, que tinha despertado na hora certa: a janta já estava pronta.
Queria pelo menos sentir esse cheiro o homem magro que se abrigava em um alpendre, a duas casas dali. E também pensava, “é tão doce a água da chuva”, enquanto bebia mais um gole do que conseguia obter nas mãos sujas feitas em concha. Expulsada a sede, veio o não menos incômodo frio. Se há um minuto tinha agradecido a chuva que caía, já então a condenava. Batia rápido e involuntariamente os dentes, tentava se agasalhar com uns panos ensopados e tinha raiva dos meninos que gritavam e corriam na rua; pareciam nem ligar para o fato de o céu estar caindo naquele momento.
Se essa era a aparência, a realidade era exatamente oposta. Uns seis garotos, de oito a doze anos, aproveitavam a chuva para tornar o corre-corre ainda mais gostoso e divertido. As poças que se formavam nos buracos da rua não pavimentada eram o que mais animava os meninos. Alvo dos pulos das crianças, essas poças ficavam numa oscilação entre cheia e vazia: a chuva, em poucos segundos, fazia transbordar os profundos buracos, mas estes logo eram só lama nos pés dos garotos. E assim, entre a gritaria e gargalhadas, entre a luz dos relâmpagos e o susto rápido com as trovoadas, eles brincavam. Só estavam ali por causa do toró que desabava. Caso contrário, estariam em suas casas, provavelmente assistindo à televisão, esperando o grito da mãe a chamar para comer.
E foi esse grito que, em direção aos pirralhos, os fez parar a correria. A senhora que temia perder o teto da própria casa para a chuva apareceu á porta da rua e soltou grito um estridente, a ver se superava a arrogância dos céus. Dos seis, três foram em direção a senhora gasguita. Os outros três se dispersaram em direções diferentes. Os meninos entraram na casa daí em pouco a chuva começou a parar.
A lua lentamente apareceu entre as nuvens e, sob a sua luz, um casal de namorados passou com cuidado entre os buracos cheios de água. Abraçados, aqueciam-se, depois de terem saído do alpendre que encontraram quando foram pegos de surpresa por alguns pingos da chuva. Aproveitavam, ainda, o abraço e os beijos para compartilhar e dissipar o medo daquele homem feio que, sob o alpendre, os encarou tão fixamente.
“São as pequenas coisas que valem mais.
É tão bom estarmos juntos
E tão simples: um dia perfeito”
Um dia perfeito – Renato Russo
“Como é barulhenta essa chuva. Só falta quebrar o telhado, meu Deus!” Assim pensou a senhora que, na cozinha, preparava um cheiroso jantar. “Essa chuva só serve pra dar susto na gente”, resmungou o velho que cochilava no sofá da sala e acordou de repente, com o estouro de um trovão. No mesmo instante, porém, se acalmou. Percebeu, pelo excitante cheiro de frango cozido, que tinha despertado na hora certa: a janta já estava pronta.
Queria pelo menos sentir esse cheiro o homem magro que se abrigava em um alpendre, a duas casas dali. E também pensava, “é tão doce a água da chuva”, enquanto bebia mais um gole do que conseguia obter nas mãos sujas feitas em concha. Expulsada a sede, veio o não menos incômodo frio. Se há um minuto tinha agradecido a chuva que caía, já então a condenava. Batia rápido e involuntariamente os dentes, tentava se agasalhar com uns panos ensopados e tinha raiva dos meninos que gritavam e corriam na rua; pareciam nem ligar para o fato de o céu estar caindo naquele momento.
Se essa era a aparência, a realidade era exatamente oposta. Uns seis garotos, de oito a doze anos, aproveitavam a chuva para tornar o corre-corre ainda mais gostoso e divertido. As poças que se formavam nos buracos da rua não pavimentada eram o que mais animava os meninos. Alvo dos pulos das crianças, essas poças ficavam numa oscilação entre cheia e vazia: a chuva, em poucos segundos, fazia transbordar os profundos buracos, mas estes logo eram só lama nos pés dos garotos. E assim, entre a gritaria e gargalhadas, entre a luz dos relâmpagos e o susto rápido com as trovoadas, eles brincavam. Só estavam ali por causa do toró que desabava. Caso contrário, estariam em suas casas, provavelmente assistindo à televisão, esperando o grito da mãe a chamar para comer.
E foi esse grito que, em direção aos pirralhos, os fez parar a correria. A senhora que temia perder o teto da própria casa para a chuva apareceu á porta da rua e soltou grito um estridente, a ver se superava a arrogância dos céus. Dos seis, três foram em direção a senhora gasguita. Os outros três se dispersaram em direções diferentes. Os meninos entraram na casa daí em pouco a chuva começou a parar.
A lua lentamente apareceu entre as nuvens e, sob a sua luz, um casal de namorados passou com cuidado entre os buracos cheios de água. Abraçados, aqueciam-se, depois de terem saído do alpendre que encontraram quando foram pegos de surpresa por alguns pingos da chuva. Aproveitavam, ainda, o abraço e os beijos para compartilhar e dissipar o medo daquele homem feio que, sob o alpendre, os encarou tão fixamente.
4 comentários:
histórias diferentes q se entrelaçam num certo momento.
a natureza une sem querer!
Muito bom isso... lembrou-me das minhas correrias na chuva, quando criança!
É incrível como tu tá escrevendo bem, viu?
Daqui a pouco a gente vai la no Passeio Público e a gente comenta mais! hehehehe
Abraço
Texto mto bem estruturado e escrito.
O tempo tbm me pareceu mto bom, se me permite dar a opinião, claro.
Tipo, a ordem que as coisas vão sendo colocadas, o efeito dominó e etc..
Cara, é impressionante o quanto tu tem talento, e o quanto sabe escrever. Muito boas linhas escritas, macho. Me prendeu muito, é engraçado o jeito que você faz o círculo para descrever a situação de um local: uma parte de uma rua. O primeiro parágrafo é cheio de coisas engraçadas, como o velho resmungão, o segundo ja é tocante, do cara sem abrigo, e depois as coisas vão se ligando e termina de uma maneira muito interessante. O casal estava em um belo momento, se abraçando, enquanto o cara tava ali, puto, sem ninguém e agasalho, talvez por isso estava mal humorado e com cara de "vou fazer algo de errado" mas também, possível que ela não fosse fazer nada. ôh homem de talento, esse.
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