Às vezes, quando me faltam idéias e assuntos, pego o meu caderninho e me debruço sobre uma folha em branco, à procura de estímulo. Isso bem que funciona, mas é uma angústia danada até surgir a primeira frase. Uma impaciência que me faz roer as unhas. E quem é que gosta dessa sensação? Então, para enfraquecer essa coisa queratinívora – porque ela não morre – pus-me logo a definir as primeiras linhas, que são essas.
Agora posso prosseguir com mais calma. Digo, agora eu posso iniciar, pois algo já germina nesse solo regado por muito barulho diário que é a minha cabeça. Iniciemos o que importa. Ah, cabe dizer aqui, também, que foi meu irmão caçula, de dez anos, quem me deu de bandeja o que faltava para construir o que se segue. Agora, chega de blá, blá, blá.
Quando ouço uma criança dizendo, tão veementemente, a expressão “Ai, meu Deus!”, repito-a só para mim, apavorado: ai, meu Deus! Ora, isso nunca devia sair da boca de uma criança, não podia existir na mentinha desses seres que deveriam ser inocentes e despreocupados. Há questões que dizem respeito somente a adultos. Esse “ai, meu Deus!” é de propriedade exclusiva dos marmanjos e marmanjas; mas aí vem uma criança traquinas e, com sua travessura, furta isso dos pais, tios e professores. Não sabe ela que é feio roubar. Um bando de adultos irresponsáveis! Que não perdem uma só chance de reclamara para o vento, como se estivessem sendo cutucados.
Dentre as variações de uso - susto, surpresa, decepção, raiva -, essa expressão é a mais comum manifestação de suplício; quase involuntariamente, a Deus nos queixamos. Às vezes seguida por um bufo, é dita, como todos sabem, quando a pessoa enche até a tampa e transborda. Mas os pequeninos não têm tampa, eles são o período em que tudo é absorvido e tudo é liberado. Talvez esteja aí causa de tanto se ouvir eles (os pequeninos) se lamentarem. Poder-se-ia dizer que as crianças são o espelho do mundo. Basta olhar para elas para perceber como está o resto, pelo menos socialmente. Como se fossem o termômetro em um corpo febril ou as células nervosas de um cérebro gigante. Cuidemos, então, de nossa saúde mental e procuremos manter nossa temperatura em 37°C. Olhemos para as nossas crianças, elas nos dizem alguma coisa a mais que “Ai, meu Deus!”.
5 comentários:
hehe, pode crer...
eu vivo dizendo...
Quando fui começar a ler, eu pensei: "o que será que Paulo Henrique trouxe para dá sequencia a tão bela crônica passada?". Fiquei com um certo receio de me decepcionar, estava enganado. Mais uma boa cronica!
A UNICEF devia ser mais rígida com esse tipo de lei mundial! Criança não devia falar "ai, meu Deus", nem palavrões que envolvam mãe, nem outras coisinhas... ehurheurheurhe
Mas é sério, aprendemos muito com as crianças. Quando escuto alguém dizer não gosta de crianças, eu me pergunto como pode ser isso! E tem outra coisa, se uma criança diz "ai, meu Deus", significa que a coisa não anda bem não! hehehehe
Aproveitando a deixa da palavra Deus, deixo a piada clássica dos Ateus:
"- Você é ateu?
- Graças a Deus!"
heurheuhruehruerueh
Isso de que as crianas são o termômetro do mundo foi uma ótima sacada, pensando bem realmente são. E olhando para elas vejo que o mundo não está muito bem não..hhaauaha...
Boa crônica.
E sobre o "ai meu deus" eu falo às vezes coisas do tipo, mesmo sendo agnóstico. É o costume de nossa sociedade, principalmente no Nordeste, que é mais religiosa ainda. Acaba sendo uma imposição, e falamos naturalmente. Em geral, mais por costume do que por fé.
Abraço. o/
Paulo Henrique, agora temos mais um integrante do blog's de quinta: João Henrique - http://oamortecesonhos.blogspot.com/
Adcione ao grupo! hehe
Mas esses seres são sim inocentes e despreocupados. O tempo quem se encarrega de destruir essas "qualidades". Claro, de uma forma boa.
=)
Prazer, João!
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