quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

TUDO PASSA

Para quem deseja morrer, não há nada mais confortante que a vida. Foi o que Nair mais ou menos pensou ou sentiu ao acordar naquela manhã.
Na noite anterior, ela apenas escutou. Os gritos do violento bate-boca entre os pais, àquela altura, já eram suficientes para deixá-la extremamente nervosa. Não teve coragem para ver, mais uma vez, os dois se agredindo. Ficou deitada na cama, rolando para lá e para cá, inquieta; os gritos vindos do quarto vizinho a perturbavam muito. As mãos puxando os cabelos com força, a pressão forte da mandíbula, o rosto avermelhado, a respiração forte. Aaaah! Quando é que isso vai acabar?!

O pai de Nair era garçom. Eram dez e trinta e cinco da noite quando ele chegou. Como o esperado, estava bêbado. Ele saíra no começo da tarde, sem dizer aonde iria exatamente.
- Vou me encontrar com uns amigos. Mais tarde eu tô chegando.
Somente isso. O bastante para as duas que ficaram em casa terem a certeza de que voltaria bêbado.
Para ele, nada melhor que os feriados. Nesses dias, não ficava apenas vendo os outros beberem.

Passava das onze e os dois ainda discutiam. Não se limitavam às ofensas e promessas de separação. Mesmo tonto, ele pegou ela pelos braços e a jogou brutalmente sobre a cama, fazendo-a cair do outro lado.

Nair pôs as mãos sobre os ouvidos e apertou, apertou, apertou. Não agüentava mais escutar os gritos. Se pudesse, explodiria a cabeça com as mãos ali mesmo. Aaaah! Um berro para espantar os dos pais. Quando percebeu, Nair só escutava o seu desespero. De novo, tudo havia cessado. E, de novo, o sono abateu aquele corpo de quinze anos. O sono, o alentador e compreensivo sono, a parte do dia de que Nair mais gostava, depois do amanhecer, é claro.
Ela acordou e tudo da noite passada tinha sumido. A casa estava silenciosa, ouvia-se apenas uns passos na cozinha, um cheiro de café. Seus pais estavam lá. Conversavam. Ela apareceu e, apesar de não ter esquecido aquela noite, viu que ainda estava viva, todos os três estavam ali, tomando o café-da-manhã juntos.
Nair tinha certeza que noites como aquela iriam se repetir. Mesmo assim, também sabia que a vida (ainda que no seu sentido mais restrito – a dormente passagem do tempo) haveria de acalmá-la e, quem sabe, resolver tudo.

6 comentários:

CA Ribeiro Neto disse...

Vou ler o texto assim que enviar esse e-mail! É que primeiramente quero avisá-lo que o meu outro blog www.aondeeuestavamesmo.blogspot.com foi reativado!

Quando puder, dá uma olhada!
Abraço

CA Ribeiro Neto disse...

Bem, o meu comentário acima está todo errado...
1. Eu não li o texto assim que enviei o recado.
2. eu não mandei um e-mail, apenas um comentário no blog.

Isso foi a pressa de te pegar ainda no pc, na hora que comentou no meu blog! hehehehe

Agora sim, Paulo Henrique, que texto perfeito. Já vejo que a disputa pelo nosso concurso de contos será boa! Cara, você fez um texto muito bom. Passou um sentimento muito forte, foi impecável no uso da pontuação, fez orações longas, como eu tinha recomendado, mas ainda podem ser um pouco mais longas, dê uma lida... hehehe; usou técnicas como repetição sucessiva de palavras adequadamente, cara, tá muito massa. E o mais importante, quando tu faz um texto bom assim (não foi o primeiro), parece que aconteceu de verdade...

Hermes disse...

Depois de ler esse conto, reforço minha idéia, acho que o pessoal da apple(não me inclua kk) deveria fazer um livro só de contos. o/ Muito bom. Seus textos e da Carlota Polar são os que mais conheço, e vocês tem que participar de algo assim.

abraços!

Thiago César disse...

continho bacana!

CA Ribeiro Neto disse...

Essa tal de Carlota Polar que o Hermes falou, humilhantemente foi referente a mim! ehurheurhuerhuerh

Anônimo disse...

O Carlinhos disse tudo. Acrescento ainda que a fluência do texto me fez deslizar pela história, pelo encadeamento dos fatos, pela profundiade da situação, e o melhor, sem me deixar tenso. De fato, não sei se foi a sua intenção, mas mergulhei na história, viajei nas palavras, me deliciei com a sutileza do texto. Absolutamente perfeito.

Admito ainda que, da primeira vez que vi (não que li), fiquei com preguiça. Porém, precisei apenas começar a ler e, do meu mundo, fugi.


Parabéns. Sou teu fã!