quinta-feira, 5 de março de 2009

JUSTIFICATIVA

Há um tempo já que neste blog não posto somente versos, o que me levou a pensar em mudar o título. Tanto os versos quanto a prosa se mostram para mim com beleza e insistência, um apelo para que eu os dê a liberdade de correr no papel em branco. Eu simplesmente sou bonzinho e os deixo sair. Enfim, mudei o nome para o que vocês vêem acima. Não quis e nem quero me referir à Bíblia, é apenas um modo de mostrar o quanto a escrita (e a leitura) são importantes na minha vida hoje. Com este blog, passei a escrever mais, o que foi e está sendo maravilhosamente bom É isso; no mais continuarei postando aqui e, lógico, roubando de vocês o que pra mim for melhor; sim, é isso mesmo, porque vocês não sabem o quanto aprendo com vossos comentários. MUITO OBRIGADO.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

DIA DE CHUVA

Um gato choramingava insistente na soleira de uma casa, querendo abrigar-se da chuva.

O menino, lá de dentro, ouviu as comoventes súplicas e foi abrir a porta. Em instantes, o garoto secou o pelo do gato com a própria toalha e já brincava com o felino pelo chão: rolava, arrastava-se atrás dos “miaauu!” e abraçava com força (e carinho) o bichano. Nisso, a mãe terminou de preparar o almoço. Viu a cena e, repreensiva, chamou o filho pra almoçar:

- Menino, larga esse gato e vem almoçar – gritou da cozinha.

Como ele não desse ouvidos, ela, irritada, atravessou o pequeno corredor que separava a rústica cozinha da rudimentar salinha-de-estar e o pegou pelo braço.

- ‘Bora, tá me ouvindo não, é? Vai tomar banho pra comer. Vai, vai, vai! – pondo-o à força para o banheiro, ao mesmo tempo em que o despia grosseiramente. Onde que tu arranjou esse bicho, hein? Só o que me faltava: um leproso dentro de casa. Olha aqui, eu não quero tu pegando nesse bicho – dizia olhando firme pro filho. Depois tu fica doente e vai sobrar pra mim.

O gato, longe de estar preocupado com o menino, repreendido por sua causa, procurava comida. Estava faminto. Por uma percepção sobrefelina, ele viu quem era sua arquiinimiga e não foi (como fariam os outros de sua espécie) se enroscar entre as pernas da dona da casa. Resolveu usar do seu instinto para caçar ratos. Num pulo, percorreu toda a casa e achou um na cozinha, atrás do fogão. Bem que podia ter sido em outro lugar, mas não havia tantas opções. Deu azar; invadiu o hábitat do temido monstro. Este até se esquecera do “leproso”, no entanto os movimentos do caçador não eram tão sorrateiros.

- Sai daqui, gato imundo! – e o levantou pelo couro pra colocá-lo pra fora.

O menino, seu salvador, tentou manter o título e gritou, esperneou, pedindo à mãe que não fizesse aquilo. O mesmo que nada.

E lá estava ele de novo na chuva, infeliz, triste. Pelo menos tinha um rato na boca. Um rato que não seria culpado pelas próximas estatísticas de leptospirose, das quais faria parte o menino salvador.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A ENCOSTA

Quero um dia presenciar a bela existência de um lírio
Um daqueles nascidos nos mais altos versos
Quero percorrer todo o caminho íngreme
Passar por lindas rosas e cortar-me com espinhos
Ter cãibra e pensar: “coitadas das pedras!”
Sentir o vento na cara e o suor pelo corpo
Sentir toda a possível e imperecível poesia
Vou andar, incessantemente, até respirar o abundante ar do cume
Quero ver um lírio, purificar-me com ele
Tocar na branca pureza da flor-de-lis
Não poderei roubá-la, mas ela será minha
Ornarei versos e estes me enfeitarão mais a vida
Um pingo do meu suor fará parte do orvalho a se depositar no lírio
E tudo isso me fará ver que a forte luz das brancas pétalas
A qual me atraiu e guiou-me por toda a subida,
Só me trouxe ali pra mostrar o quanto é bela e sublime a encosta

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

POR ISSO, MORRO

Vivo do amor dos outros
Por isso, morro
Agrado-me agradando
Por isso, sofro

Por isso, choro
Pois dos risos que planto
Não me sobram sequer lembranças
Por isso, iro-me
Pois tantas almas apascento,
Que carecem de esperança...

Expresso-me de todo
Por isso, calo-me
Abraço o coração alheio
Por isso, esse frio

Por isso, vomitam-me
Porque cuspo na face corrupta
E já suja com o próprio veneno
Por isso, intoleram-me
Pois minha força fraca e ininterrupta
Tanto bate que rocha vira feno

Percebo os meus
Por isso, não me veem
Crio laços que me prendem
Aos que voam de mim

Por isso, choro
Lágrimas me saem dos poros
Desidrato-me todos os dias
Por isso, morro
Nem mesmo todos os soros
Nem mesmo tu me reviverias