Na sequência da horrenda foto, surgiu o horrível vídeo e o repórter calou-se para que se pudesse assistir à breve reprodução.
O pequeno filme, em preto e branco e com uma imagem chiada e distante, mostrava uma mulher e uma criança numa sala de estar. Não se podia ouvir as vozes porque o áudio faltava, mas o eco que aquelas imagens causaram não podia ter sido maior.
Logo que a reportagem acabou, ou mesmo antes, assim que o vídeo findou e o jornalista voltou a falar, dezenas de milhares de telespectadores, segundos antes completamente calados e boquiabertos, explodiram em suas casas, em vozes isoladas, expressando sua revolta e estupefação. Em menos de dois dias, havia um só vozerio, disforme e assustador, engolindo toda a cidade, todo o país, ao mesmo tempo em que gritava, aproveitando a boca aberta.
O vozerio falava, ou melhor, atropelava-se tentando falar sobre o vídeo, sobre os gestos bruscos e decididos da mulher, sobre a criança indefesa, a violência, a instituição familiar, a injustiça, a impunidade no país, o despreparo dos profissionais, os benefícios da tecnologia, o amor, o stress nos dias atuais, o ódio, a (in)existência de Deus. Mas apesar da confusão de tantas vozes que falavam de tantos assuntos, uma coisa era dita por todos e entendida claramente, algo com o que todos concordavam, que acabava com qualquer divergência que pudesse existir ao se tratar daqueles assuntos mais escabrosos. De todo o falatório, podia-se distinguir algumas palavras, ditas pelo apresentador do telejornal e repetidas pelo transeunte entrevistado, pelo advogado, pelo policial, pelo delegado, pela psicóloga, bem como pelo presidente da República ao se pronunciar sobre o caso. As dezenas de milhões de telespectadores, enfim, comparavam as forças dos envolvidos no vídeo e diziam que, sendo a mulher o mais forte, não podia ir contra alguém mais fraco, ainda mais uma criança. Era pura covardia. Que fosse enfrentar alguém do seu tamanho. Era pura covardia, era pura covardia, que fosse enfrentar alguém do seu tamanho.
Passaram-se dias nessa ladainha incansável. O vídeo de poucos segundos tinha durado o suficiente para ser o maior longa de algumas semanas, e os críticos da sétima arte não pouparam análises e comentários – covardia pura, disseram. Não perceberam, no entanto, os não-ditos deixados pelo filme.
3 comentários:
texto novo: amém. aliás, gostei muito. esse quarto parágrafo citando toda essa nossa paranóia e essa vontade de ser feliz nesses tempos urbanóides de infelicidade gritou tao alto dento de mim, sabia...
beijo, ph. abandona isso aqui nao, rapá.
Homi, só deu pra avisar agora ao povo que voçê voltou ao Blogs de Quinta, dá uma olhada em como a lista está agora e dá uma atualizada!
Abraço
Homi, texto muito bom!
Mas é sempre assim, não é? As coisas passam despercebidas, como se só houvesse o superficial?
Muito legal também a sua linguagem. Àquela parte da boca aberta, o 4º parágrafo todo é perfeito; o final do 4º parágrafo, então...
parabéns!
Postar um comentário