A garota mexeu cuidadosamente no ferrolho do portão e o abriu bem devagar; entrou e o fechou com o mesmo zelo. Não queria fazer qualquer barulhinho que fosse. Atravessou, na ponta dos pés, a trilha do jardim e alcançou a porta principal da casa; ela sabia que nada estava trancado. Talvez a esperassem, mas, àquela hora da noite, não queria acordar ninguém; iria direto para o seu quarto dormir, sem aborrecimentos. Passou uma mão sobre a barriga já um pouco proeminente, ajeitou a mochila nas costas e abriu a porta, também lentamente. Na sala, uma penumbra; a cozinha, no outro lado do corredor que a separava desse aposento escuro, era o único cômodo iluminado, e sua luz irradiava-se até a sala chegando a ela já fraca. Ao contrário da luz, grande era o silêncio: parecia não morar ninguém ali. Um silêncio quebrado pelo “nhêêêm” da porta ao se abrir. Que droga! pensou. Amaldiçoou a porta, fechou-a e ia prosseguir quando sentiu sua bolsa sendo puxada. Estancou e olhou para trás: uma senhora, cabelos brancos e pele enrugada, levantava-se, a muita força, de uma poltrona atrás da porta, apoiando-se na mochila da garota. Ficou em pé e, carinhosamente, falou à neta, com uma voz rouca e cansada:
- Essa bolsa é muito pesada, minha filha; já te falei que assim tu pode prejudic...
- Ah! não enche! – interrompeu, zangada. Foi rumo à cozinha; sentira enjôo mais cedo e agora estava morta de fome. Deixou a avó sozinha na sala, sentada, entristecida, chorando.
Há cerca de dois anos avó e neta viviam juntas, e fazia algumas semanas que apenas elas duas dividiam aquela casa. Seu Alfredo, o avô, morreu e fez D. Alzira sentir enormemente a sua falta. Os dois, quando receberam Ana Clara para morar com eles, órfã dos pais, sabiam de sua rebeldia e não viram grande problema nisso – o que os preocupou foi dar a ela o carinho inexistente no seu relacionamento com os pais. Mas o convívio trouxe a intimidade e esta, a falta de pudor por parte da garota, permitindo-a mostrar-se bem como era.
Nos primeiros dias, a tristeza foi reinante na casa: D. Alzira, que perdera a filha, era entre choros e soluços, sempre tendo ao lado, como maior apoio, seu marido Alfredo. Este, talvez, sofreu em dobro, como pai e como marido, por ver a mulher em tão grande consternação. Ana Clara, que nunca tinha se aproximado dos avós maternos (e de nenhum outro), sentiu-se deslocada, estranha e, à sua maneira, sofreu pela perda dos pais. Mesmo com as tentativas dos anfitriões de acolhê-la naquele momento difícil, Ana encolhia-se num canto qualquer e calava-se. Passava horas nesse estado, sem derramar uma lágrima, até que se rendia à fome e ia à mesa, depois de muita insistência inútil dos avós.
As semanas passaram e consigo arrastaram a neblina de dor a qual, por incrível que pareça, embaraçara a relação entre os dois lados: os avós e Ana. Os meses vieram e se encarregaram de fazer o resto. Daí a pouco, Ana se acomodou completamente e voltou a seus hábitos de quando morava com os pais. Pela manhã, acordava tarde e merendava enquanto assistia à TV, o que fazia até a hora de sair para estudar, no começo da tarde. Estava no segundo ano do Ensino Médio. Se se adaptou a casa, não o fez com relação aos seus donos; não gostava daqueles velhos. Mal lhes falava, e adorava ir à escola, por dois motivos: deixava de esbarrar com rostos velhos e, principalmente, estando ainda no mesmo bairro, encontrava-se com velhas amigas. E com estas Ana saía quase todos os dias, ao fim das aulas, sem dar quaisquer satisfações aos avós. Algumas dessas vezes, ela voltava tarde da noite para casa, deixando os velhos muito preocupados, sobretudo D. Alzira. A neta passou a ser sua prioridade dentre as coisas de que tinha que cuidar; dava-lhe atenção quase total, tentava em vão aproximar-se mais, chegou a renunciar um pouco dos momentos com o marido para estar com Ana. Tudo isso a fim de, junto com os carinhos, dar-lhe conselhos sobre as saídas e chegadas tarde demais. Ana Clara, no entanto, não reconhecia o esforço da avó e irritava-se, às vezes, com o cuidado excessivo de D. Alzira, soltando-lhe gritos mandando que a deixassem em paz. Entre aquelas duas gerações, onde deveria haver um elo existia um imenso abismo.
4 comentários:
antes de eu xingar a menina é melhor ler o resto...
hehehe
Esse texto tá bem interessante, principalmente na forma que tu escreves. Tu transpassa pros teus textos características que considero tuas, mas que tu podes me desmentir!: calma e tranquilidade. E mais, com isso, deduzo que tu tem a capacidade de mantar a cabeça lúcida em momentos de aflição.
Enfim, o texto tá ótimo, o sentido acronológico e tal.
E concordo com a Gi, vamos esperar o resto do texto, mas não mexam com crianças e velhinhos na minha frente... hehehehe
coitada da véa, mah...
=S
No primeiro parágrafo pensei que ela se preocupava com as pessoas daquela casa. Me pareceu que ela não queria acordar as pessoas que alí moram por zelo. Mas depois, não. Ela me virou outra pessoa. Confesso que nunca conheci uma garota assim, ou então já, mas nunca fiquei tão perto de uma.
Gostei do "nhêêêm". Vou logo para a segunda parte, aí termino lá.
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