quinta-feira, 18 de junho de 2009

GERAÇÕES (CONT.)

Tá aí a "segunda parte" do texto. Para não ficar sem nexo, boto o último trecho da parte anterior:

...Ana Clara, no entanto, não reconhecia o esforço da avó e irritava-se, às vezes, com o cuidado excessivo de D. Alzira, soltando-lhe gritos mandando que a deixassem em paz. Entre aquelas duas gerações, onde deveria haver um elo existia um imenso abismo.

D. Alzira não resistiu: chorosa, buscou o ombro do marido, que a confortou um pouco. Mas as lágrimas na camisa de Seu Alfredo não secaram tão rápido assim. No outro dia, assim que acordou, ele foi ter uma conversinha com a garota “atrevida”, “respondona” e “mal-educada”.

- ‘Bora, menina, acorda! gritou Seu Alfredo, entrando no quarto onde Ana dormia. Acorda, acorda! Tô falando contigo, menina! continuou, aproximando-se da cama e sacudindo a garota pelas pernas.

Ana Clara acordou assustadíssima; pulou da cama e em um segundo ficou em pé, perturbada pelo despertar repentino. O que foi, o que foi?! Passou os dedos nos olhos, agitou a cabeça e os sentidos foram se recuperando.

Seu Alfredo ainda resmungava, gritando. Ana percebeu quem tinha lhe acordado, só não entendeu por quê. Mas não procurou saber; estava muito cansada, odiava ter de viver com aquele velho e não agüentaria esse desaforo.

- Olha aqui, seu velho nojento!...

O bate-boca só teve fim quando Seu Alfredo, velho conhecido da hipertensão, tombou no chão, ali mesmo no corredor, e bateu com a cabeça na parede, derramando sangue e morrendo poucos minutos depois.

Limpou-se o sangue, limpou-se o corpo e foi limpo, também, o episódio daquela triste manhã.

O tempo acalmou os ânimos. Exceto os de Ana Clara que, apesar de carregar uma barriga crescente, mesmo com um cansaço desanimador, não renunciou das suas saídas com as amigas. Digo, ela não tinha renunciado até aquela noite em que a vimos entrar cautelosamente em casa. Ela foi direto à cozinha.

Ana abriu a geladeira e no mesmo instante fechou: não gostou nada do que viu. Olhou ao redor e, sobre a mesa, viu algumas maçãs, peras e laranjas. Assim que mordeu maçã, sentiu algo no ventre se mexer. “Ah!”, soltou um gritinho de susto e largou a maçã no chão. Os próximos gritos, bem mais altos, foram para chamar a avó:

- Vó, vó, vóóó! Vem aqui vó!

D. Alzira emergiu da sua tristeza de repente, num sobressalto. Levantou-se custosamente, acendeu a luz da sala e, no mais rápido que pôde, dirigiu-se à cozinha. Chegou e viu Ana sentada numa cadeira, com as mãos na barriga, reclamando da demora da avó. D. Alzira puxou uma cadeira e sentou-se bem perto de Ana, de frente para ela. Passou a mão leve na barriga da neta, alisando, acarinhando; curvou-se para encostar a cabeça e ouvir a vida lá dentro.

Ana Clara viu-se numa situação embaraçosa: um misto de raiva (por não saber exatamente o que fazer) e tranqüilidade (por sentir-se em paz com a avó). Hesitante, pôs a mão sobre os cabelos brancos de D. Alzira e começou a alisá-los, bem devagar, ao mesmo tempo em que chorava, contida, lutando contra as lágrimas.

No dia seguinte, à mesa para tomar o café da manhã, as duas passaram alguns minutos que nem duas estranhas que se conheciam. Apenas os olhos falavam, inquietos, e, nas passagens pelos cantos da cozinha, a vista de uma corria pelo rosto da outra. Até que Ana quebrou o mutismo:

-Vó...

- Oh, minha filha! – antecipou-se D. Alzira – Desculpa por tudo, mas é que agora tu tem uma criança dentro de ti – disse, aproximando-se da neta – E ela exige cuidados. Não pode passar o dia no meio da rua assim, sem comer direito.

Se Ana Clara cessou as saídas, foi antes por causa do cansaço que começou a sentir nos meses que se seguiram. Nesse tempo, sentiu algumas sensações pertinentes a essa fase da vida feminina: dores nas costas, insônia e as incômodas contrações.

Veio a criança. E foi-se o que seria um início de conciliação, de uma aproximação maior. A chegada de Alfredo, como foi chamado, tomou toda a atenção de D. Alzira, que encontrou no filho o que, na mãe, não vira nem sombra: paz. Aqueles dois seres, aquelas duas sensibilidades, aquelas duas extremidades se encontram e mantiveram-se num auxílio recíproco. D. Alzira cuidava de Alfredo, banhava-o, dava-lhe comida, carinho, e este, sem saber, retribuía animando a vida da bisavó, fazendo-a voltar a sorrir.

Ana, que não quis saber muito do filho, até achou bom que os dois tivessem se entendido; seria menos preocupação (ou ocupação). Sentiu-se, porém, invisível entre eles. Não quis saber, enfim, de nenhum dos dois. E continuou vivendo como bem antes de conhecer os avós.

6 comentários:

CA Ribeiro Neto disse...

Paulo henrique, cara, esse teu texto está ótimo. Eu já enumerei umas coisas na primeira parte do texto, então não vou me repetir.

Mas vou dizer que enchergo com esse texto e outros que já li, teu, uma semelhança e que poder ser visto por ti como o início de um livro. Esses textos, que mostram uma classe social mais baixa e tão pouco citadas na literatura. Pense nisso.

Parábens, acabei de ler outra obra prima sua!
Abraço

Giovana disse...

continuo com vontade de bater na menina! =xx

hueheuheuhe

Hermes disse...

Mudou muito rápido de cena, mas foi horrível o velhinho morrendo, apesar de que eu já esperava e a cena é comum em obras de ficção. E essa menina...que virou mulher, não acho difícil nem distante da realidade. É uma pena, mas eu não fiquei com raiva de ninguém no texto, não sei o motivo. Apreciei muito. E o que o Guto falou, tem razão, parece um começo de um livro. Lembro daquele conto do cara que levanta a mãe, ahuaha.

Thiago César disse...

tem algo de mim nessa ana.

CA Ribeiro Neto disse...

Paulo Henrique, temos uma nova integrante do blogs de quinta!

Dalila Fonteles Mauler
Epifania da Flor
http://epifaniadaflor.blogspot.com/

Adcione-a, por favor!

A moça da flor disse...

gostei muito do texto!
gostei principalmente do final.
Você não simplesmente solucionou tudo no final. Sem mudanças mágicas.

Porém...Faço minhas as palavras do Carlim:
"não mexam com crianças e velhinhos na minha frente" xD