quinta-feira, 30 de setembro de 2010

CONVERSA (OU A ESCRITA DE MUNDO)

Dois amigos conversam num bar:

- E qual é o autor que mais te influencia na tua escrita?

- Quem foi que escreveu o mundo?

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

LEMBRANÇAS

E pensar que eu já fui o motivo de união daquele casal – o maior e melhor motivo, como eles mesmos me diziam.

Realmente não me lembro da casa da tia Vera, nem do primo Líbio, que por alguns segundos, com muito esforço e a coluna entortada para trás, conseguia me erguer nos braços, nem do cachorro Lupe, que tia Vera cuidava e que, apesar dos gritos de toda gente expulsando-o, insistia em se aproximar e lamber meu pé; gostei de saber que nessas horas eu me desmanchava em risos, gargalhava mesmo. A propósito, só sei disso tudo porque me contaram. E se é a baixíssima idade que eu tinha a razão pela qual não me lembro de nada, foi também ainda pequeno que me apareceu algo que hoje eu talvez já entenda, mas não me lembro de como surgiu.

Quando me contavam esses fatos e mais outros, engraçados e tristes, os meus pais sempre interrompiam a narração com comentários sobre a minha importância em suas vidas. Diziam que eu lhes tinha dado e ainda dava forças perante a as dificuldades da vida e do relacionamento, não me deixando esquecer que eu é que, apesar de tudo, os mantinha juntos.

E de uma coisa eu me lembro muito bem; lembro que já naquela idade – uns seis, sete anos – não me agradava nem um pouco tamanha responsabilidade. Preferia que contassem as minhas lembranças que eu não tinha, e preferia ouvi-las do meu pai, embora minha mãe ou soubesse de mais detalhes ou somente ela pudesse resgatar o passado, visto que meu pai se ausentava durante parte do dia por causa do trabalho. Mas o que ele tinha a dizer eu ouvia atentamente e aproveitava o pouco tempo que ele ficava em casa pra lhe extrair o máximo da memória. Do jantar até a ida pra a cama, era ele me falando tudo; minha mãe corrigia aqui e ali, e chegou a falar pro marido que deixasse de contar mentiras, mas viu o meu entusiasmo e largou de mão a conversa de nós dois. De fato, percebi que depois de alguns dias meu pai passou a inventar, mas nem liguei; adorava quando, na cama, entre ele e minha mãe, eu dormia ouvindo aquela voz grave.

Eu gostava, também, quando ele, chegando do trabalho, me chamava de filhão e, se agachando, me abraçava. Adoraria se na sequência do abraço ele me pusesse nos braços, mas sempre dizia estar muito cansado. Eu compensava a falta com um aperto mais forte e demorado, e no fim de alguns segundos, depois de achar que já tinha vivido o suficiente, dava-lhe, de remate, um beijo na bochecha. Só depois do abraço é que eu pensava que mais um dia de vida bastava, pra poder abraçá-lo de novo. E resoluto e feliz, no dia seguinte, eu o tomava nos braços como se fosse meu... meu último minuto de vida.

Vi que minha mãe gostava de abraçá-lo também, e de beijá-lo na boca e de lhe apalpar a bunda e de derrubá-lo deitado na cama e lhe tirar a roupa e transar com ele.

Uma vez só vi os dois transando, assim como uma só vez vi a mão da minha mãe batendo de leve e rapidamente no bumbum do meu pai, que resmungou alguma coisa e reclamou que parasse. Os abraços dela certamente não eram mais afetuosos que os meus e os beijos... Bem, pelo que me lembro eram só selinhos. Mas com meus olhos de criança e sentimentos de adulto vi tudo em proporções aumentadas, e até imaginei algumas consequencias daquelas situações, como a chegada de um irmão ou irmã que me tomasse toda a atenção que eu recebia ou qualquer forma de aproximação dos dois em meu prejuízo. O pior é que nada disso aconteceu.

Eu ainda tinha pouco mais de onze anos quando simplesmente começaram a me deixar de lado. Minha mãe, que sabia do meu maior carinho pelo meu pai, tentou se aproximar de mim, mas continuamos, um do outro, à mesma distância apática, não sei se pela fraqueza de sua tentativa ou se pela minha predisposição a não querer a aproximação. Acho que pelos dois motivos. Na verdade, se ela sempre me deixou de lado ou se nunca me deu atenção, isso não importa, e naquele momento também não foi importante. Meu pai é que, naquele tempo, em vez do abraço me passava a mão na cabeça, assanhando meu cabelo e, falando que eu estava grande, passava direto. Grande uma ova! Grandes eram os meus sentimentos, e eu ainda era pequeno demais pra sofrer e agüentar tão grande impacto e enraivecimento.

Um dia, emburrado, resolvi falar com ele. Com meus treze anos bem decididos, pus-me ombro a ombro com os seus trinta e quatro e perguntei o porquê da indiferença que há tanto tempo só crescia. Ele disse que não entendeu a pergunta – ou se fez de desentendido – e me fez falar novamente. Com a raiva crescendo, e quase gritando, afirmei que ele não me amava mais. Ele se espantou e pediu que me acalmasse, que era claro que me amava, afinal eu era seu único filho; aliás, da nossa família, eu era o único que ele ainda amava. Me falou que eu sabia da situação entre ele e minha mãe, que não estava nada fácil. O fato é que não estavam para se separar. E ele não sabia que, tentando me acalmar, só me deixava com mais raiva e decepcionado. Ora, se não havia motivos para estar tão mudado, se eu não tinha irmão com quem dividir atenção, se ele não amava mais minha mãe, se porra nenhuma impedia que a gente fosse feliz – só de lembrar, me tremo de raiva – então por que me pôs de lado? Tudo isso eu não lhe disse e saí bufando, sem querer ouvir mais nada.

Sem querer ouvir mais nada a não ser a voz dele. Não demorou uma semana para que eu o perdoasse e voltássemos a nos falar normalmente. Não queria perdê-lo. Conformado, por um tempo aceitei a voz como o único contato entre nós; a voz e também a visão. Eu o via e ouvia em tudo que era hora. Eu crescia e ele me tratava cada vez mais como um irmão ou primo distante, de quem somente se aperta a mão ou, quando nem isso, fala apenas um oi. Quando não podia vê-lo nem ouvi-lo, imaginava-o, e na sala de aula, a bagunça dos outros meninos é que me acordava do transe. Na hora do sono, ele estava do meu lado me abraçando para que eu pudesse dormir tranquilo.

Hoje, ainda mais fortemente, eu o imagino e sempre me lembro, amedrontado, do último dia em que o vi.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

FRAQUEZAS

Na sequência da horrenda foto, surgiu o horrível vídeo e o repórter calou-se para que se pudesse assistir à breve reprodução.

O pequeno filme, em preto e branco e com uma imagem chiada e distante, mostrava uma mulher e uma criança numa sala de estar. Não se podia ouvir as vozes porque o áudio faltava, mas o eco que aquelas imagens causaram não podia ter sido maior.

Logo que a reportagem acabou, ou mesmo antes, assim que o vídeo findou e o jornalista voltou a falar, dezenas de milhares de telespectadores, segundos antes completamente calados e boquiabertos, explodiram em suas casas, em vozes isoladas, expressando sua revolta e estupefação. Em menos de dois dias, havia um só vozerio, disforme e assustador, engolindo toda a cidade, todo o país, ao mesmo tempo em que gritava, aproveitando a boca aberta.

O vozerio falava, ou melhor, atropelava-se tentando falar sobre o vídeo, sobre os gestos bruscos e decididos da mulher, sobre a criança indefesa, a violência, a instituição familiar, a injustiça, a impunidade no país, o despreparo dos profissionais, os benefícios da tecnologia, o amor, o stress nos dias atuais, o ódio, a (in)existência de Deus. Mas apesar da confusão de tantas vozes que falavam de tantos assuntos, uma coisa era dita por todos e entendida claramente, algo com o que todos concordavam, que acabava com qualquer divergência que pudesse existir ao se tratar daqueles assuntos mais escabrosos. De todo o falatório, podia-se distinguir algumas palavras, ditas pelo apresentador do telejornal e repetidas pelo transeunte entrevistado, pelo advogado, pelo policial, pelo delegado, pela psicóloga, bem como pelo presidente da República ao se pronunciar sobre o caso. As dezenas de milhões de telespectadores, enfim, comparavam as forças dos envolvidos no vídeo e diziam que, sendo a mulher o mais forte, não podia ir contra alguém mais fraco, ainda mais uma criança. Era pura covardia. Que fosse enfrentar alguém do seu tamanho. Era pura covardia, era pura covardia, que fosse enfrentar alguém do seu tamanho.

Passaram-se dias nessa ladainha incansável. O vídeo de poucos segundos tinha durado o suficiente para ser o maior longa de algumas semanas, e os críticos da sétima arte não pouparam análises e comentários – covardia pura, disseram. Não perceberam, no entanto, os não-ditos deixados pelo filme.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

13 DE MAIO

Quando a polícia chegou, encontrou Bernardo Matias chorando. Não se sabe quais eram os sentimentos dele naquele momento, quando por ironia tanta gente o observava tão atentamente. Mas Matias não se achava nem um pouco inferior àquelas pessoas que, depois das missas, saíam em bando da Igreja de Fátima. Perambulando lento pelas redondezas da igreja ou sentado em algum ponto da escada vermelha que dá entrada para o templo, muitas vezes pedindo esmola, o quase velho sempre retribuía o olhar esquivo e desconfiado que as pessoas lhe enviavam. Ele até se divertia com isso, ao ver os outros assustados com sua aparência suja e desgrenhada, com seus olhos respondões, mas o que Matias mais gostava era de observá-los de longe, cada rostinho angelical e sereno escondendo os mais vis pensamentos. A grande estátua de Nossa Senhora de Fátima, no meio da Praça Pio IX, seria um lugar perfeito; se pudesse, trepava na cacunda dela e de lá, sem ser visto, veria a todos e a tudo. Nem aos pés da santa, no entanto, ele conseguia chegar; o máximo que podia era encostar-se na base sobre a qual se erguia a imagem. E assim estava quando os policiais chegaram e o algemaram, encostado de frente ao concreto, apoiando a cabeça com a testa sobre o braço levantado e escondendo o rosto.

O antigo e temporário companheiro de Matias realmente não o conhecia quando o chamou para participar da maldita ação. Serginho chegou manso e, mexendo em algo preso na cintura do calção, mostrou um revólver a Matias, que pôde ver apenas o cabo pelo buraco rasgado – propositalmente? – na camisa do outro. Este só falou que a “parada” iria ser rápida e que o “negócio” seria dividido, meio a meio. Eu sei que tu fica aí de ôi atento no pessoal, falou Serginho, num tom debochado e imperioso, então é só mostrar o peixe mais gordo que a gente fisga ele e deixa só as espinha. A cara de Matias, assustado, provocou no outro uma gargalhada, que ficou ecoando na cabeça do quase velho até ser tomada por um som bem mais forte.

Se o peixe tinha que ser grande, o escolhido não o era exatamente. Uma mulher bonita e bem arrumada foi parada por Matias que, empunhando discretamente a arma, pediu avexado pelo dinheiro. Não queria fazer nada, só queria o dinheiro. Serginho dava a cobertura; ele também só queria o dinheiro. A mulher suplicava, com um olhar medroso, que a deixassem viva. Matias retribuiu o olhar, pedindo, porém, que ela tirasse do rosto aqueles olhos tão ameaçadores. Ele não gostava que fosse assim desse jeito tão perto, tinha que ser mesmo de longe. Aquele susto, lembrança da atitude de Serginho, transformou-se em medo, mas ele não queria sentir medo, então pedia com insistência à mulher, implorava, sem falar nada, a suspensão daquele olhar, ou que ao menos fechasse os olhos. Ela fechou, mas só depois que o tiro soou pela avenida.