quinta-feira, 19 de agosto de 2010

FRAQUEZAS

Na sequência da horrenda foto, surgiu o horrível vídeo e o repórter calou-se para que se pudesse assistir à breve reprodução.

O pequeno filme, em preto e branco e com uma imagem chiada e distante, mostrava uma mulher e uma criança numa sala de estar. Não se podia ouvir as vozes porque o áudio faltava, mas o eco que aquelas imagens causaram não podia ter sido maior.

Logo que a reportagem acabou, ou mesmo antes, assim que o vídeo findou e o jornalista voltou a falar, dezenas de milhares de telespectadores, segundos antes completamente calados e boquiabertos, explodiram em suas casas, em vozes isoladas, expressando sua revolta e estupefação. Em menos de dois dias, havia um só vozerio, disforme e assustador, engolindo toda a cidade, todo o país, ao mesmo tempo em que gritava, aproveitando a boca aberta.

O vozerio falava, ou melhor, atropelava-se tentando falar sobre o vídeo, sobre os gestos bruscos e decididos da mulher, sobre a criança indefesa, a violência, a instituição familiar, a injustiça, a impunidade no país, o despreparo dos profissionais, os benefícios da tecnologia, o amor, o stress nos dias atuais, o ódio, a (in)existência de Deus. Mas apesar da confusão de tantas vozes que falavam de tantos assuntos, uma coisa era dita por todos e entendida claramente, algo com o que todos concordavam, que acabava com qualquer divergência que pudesse existir ao se tratar daqueles assuntos mais escabrosos. De todo o falatório, podia-se distinguir algumas palavras, ditas pelo apresentador do telejornal e repetidas pelo transeunte entrevistado, pelo advogado, pelo policial, pelo delegado, pela psicóloga, bem como pelo presidente da República ao se pronunciar sobre o caso. As dezenas de milhões de telespectadores, enfim, comparavam as forças dos envolvidos no vídeo e diziam que, sendo a mulher o mais forte, não podia ir contra alguém mais fraco, ainda mais uma criança. Era pura covardia. Que fosse enfrentar alguém do seu tamanho. Era pura covardia, era pura covardia, que fosse enfrentar alguém do seu tamanho.

Passaram-se dias nessa ladainha incansável. O vídeo de poucos segundos tinha durado o suficiente para ser o maior longa de algumas semanas, e os críticos da sétima arte não pouparam análises e comentários – covardia pura, disseram. Não perceberam, no entanto, os não-ditos deixados pelo filme.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

13 DE MAIO

Quando a polícia chegou, encontrou Bernardo Matias chorando. Não se sabe quais eram os sentimentos dele naquele momento, quando por ironia tanta gente o observava tão atentamente. Mas Matias não se achava nem um pouco inferior àquelas pessoas que, depois das missas, saíam em bando da Igreja de Fátima. Perambulando lento pelas redondezas da igreja ou sentado em algum ponto da escada vermelha que dá entrada para o templo, muitas vezes pedindo esmola, o quase velho sempre retribuía o olhar esquivo e desconfiado que as pessoas lhe enviavam. Ele até se divertia com isso, ao ver os outros assustados com sua aparência suja e desgrenhada, com seus olhos respondões, mas o que Matias mais gostava era de observá-los de longe, cada rostinho angelical e sereno escondendo os mais vis pensamentos. A grande estátua de Nossa Senhora de Fátima, no meio da Praça Pio IX, seria um lugar perfeito; se pudesse, trepava na cacunda dela e de lá, sem ser visto, veria a todos e a tudo. Nem aos pés da santa, no entanto, ele conseguia chegar; o máximo que podia era encostar-se na base sobre a qual se erguia a imagem. E assim estava quando os policiais chegaram e o algemaram, encostado de frente ao concreto, apoiando a cabeça com a testa sobre o braço levantado e escondendo o rosto.

O antigo e temporário companheiro de Matias realmente não o conhecia quando o chamou para participar da maldita ação. Serginho chegou manso e, mexendo em algo preso na cintura do calção, mostrou um revólver a Matias, que pôde ver apenas o cabo pelo buraco rasgado – propositalmente? – na camisa do outro. Este só falou que a “parada” iria ser rápida e que o “negócio” seria dividido, meio a meio. Eu sei que tu fica aí de ôi atento no pessoal, falou Serginho, num tom debochado e imperioso, então é só mostrar o peixe mais gordo que a gente fisga ele e deixa só as espinha. A cara de Matias, assustado, provocou no outro uma gargalhada, que ficou ecoando na cabeça do quase velho até ser tomada por um som bem mais forte.

Se o peixe tinha que ser grande, o escolhido não o era exatamente. Uma mulher bonita e bem arrumada foi parada por Matias que, empunhando discretamente a arma, pediu avexado pelo dinheiro. Não queria fazer nada, só queria o dinheiro. Serginho dava a cobertura; ele também só queria o dinheiro. A mulher suplicava, com um olhar medroso, que a deixassem viva. Matias retribuiu o olhar, pedindo, porém, que ela tirasse do rosto aqueles olhos tão ameaçadores. Ele não gostava que fosse assim desse jeito tão perto, tinha que ser mesmo de longe. Aquele susto, lembrança da atitude de Serginho, transformou-se em medo, mas ele não queria sentir medo, então pedia com insistência à mulher, implorava, sem falar nada, a suspensão daquele olhar, ou que ao menos fechasse os olhos. Ela fechou, mas só depois que o tiro soou pela avenida.

sábado, 17 de abril de 2010

NA IX BIENAL DO LIVRO DO CEARÁ

Era dia 14/04, uma quarta-feira, à noite. A "Arena Multicultural 'Memorial de Maria Moura'", no Centro de Convenções, estava lotada de espectadores que esperavam ansiosamente a chegada de Ziraldo, o mineiro criador do Menino Maluquinho. O tema da conversa era: ler é mais importante do que estudar? A resposta afirmativa do ilustre convidado gerou reações, principalmente das crianças que, para graça da noite, manifestaram-se com o microfone nas mãos. Um menino, então, falou e mostrou sua esperteza e não se importou com a tal "conveniência", dos adultos:

- Ziraldo, você falou que é mais importante ler do que estudar. Mas quando a gente tá estudando a gente num tá lendo?

Juntas a essa pergunta, as primeiras palavras de Ziraldo como resposta fizeram todos rirem. Num tom repreensivo brincalhão e bem humorado, Ziraldo falou:

- Menino, deixe de se meter a sabido!

Pouco depois, um outro garoto, já tendo feito sua pergunta, foi chamado por Ziraldo para se aproximar da mesa. Este, então, falou:

- Você gosta de ler?

- Gosto.

- Você lê muito?

- Leio.

- Seus pais leem pra você?

- Leem.

- Menino, você tá salvo!

E, na platéia, alguns aplaudiram e todos riram

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O AMORZINHO QUE EU NUNCA TIVE

E quem sabe nunca terei, é uma garotinha linda. Linda e leve e pequena e com um vestidinho rosa que se agita quando ela corre atrás de mim depois de eu lhe atormentar com muitos carinhos, porque eu a amo tanto!... Mas ela corre, calçando aquelas sapatilhas de boneca, ela corre feliz, balançando o cabelo arrumado, e me bate com pancadinhas que mais me afeiçoam do que me magoam. Na verdade, só me afeiçoam, porque ela é uma garotinha linda. Linda e meiga e frágil e forte com seus bracinhos que enlaçam o meu pescoço num abraço bem aconchegante, seguido de um beijo demorado na minha bochecha.

O amorzinho que nunca tive é uma garotinha que, com esses gestos puros, dispensa qualquer palavra, corruptora do encanto existente nos seus pequenos olhos que brilham. Olhinhos que brilham, com maior ou menor intensidade, mesmo quando não há sorrisos, mesmo quando há lágrimas; e é assim que percebo nela as sutilezas de criança, pois logo noto a diferença de luz no meu caminho. Brilham até quando, sentada sobre minhas pernas e encostada ao meu peito, ela dorme; ou quando ela o faz com a cabeça sobre um dos meus ombros, eu a segurando. A luz dos olhos, nesses momentos, resguarda-se no corpo e se espalha por todo ele, acalmando-o, fazendo com que ela, minha pequena, tenha um sono tranquilo. Tranquilo e sereno e livre de todos os problemas é como me sinto quando a vejo assim, nesses instantes de grande proximidade entre nós dois, e sinto seu cheiro suave e percebo a luz por trás de suas pálpebras.

É muito bom, meu amorzinho que nunca tive, segurar na tua mão e te ajudar a chegar a um lugar que seja bom e bonito para ti, e para mim, e para todos; sinto-me bem por poder te ensinar o que sei e te amo ainda mais por me ensinares o que nunca saberei; sou o cara mais feliz do mundo por te ter ao meu lado a cada dia, mas me aperta o coração ter que te ver em outros rostinhos e segurada por outras mãos que não as minhas; e quando, pelas ruas da cidade, dás um sorriso para mim, não sabes, pequenina, o quanto és impiedosa e generosa comigo.

Mãe, por que nunca me deste uma irmãzinha?