quinta-feira, 11 de junho de 2009

GERAÇÕES

Esse é um texto de corpo único, mas resolvi dividi-lo em duas partes por causa do tamanho. Então, aí vai a "primeira parte"

A garota mexeu cuidadosamente no ferrolho do portão e o abriu bem devagar; entrou e o fechou com o mesmo zelo. Não queria fazer qualquer barulhinho que fosse. Atravessou, na ponta dos pés, a trilha do jardim e alcançou a porta principal da casa; ela sabia que nada estava trancado. Talvez a esperassem, mas, àquela hora da noite, não queria acordar ninguém; iria direto para o seu quarto dormir, sem aborrecimentos. Passou uma mão sobre a barriga já um pouco proeminente, ajeitou a mochila nas costas e abriu a porta, também lentamente. Na sala, uma penumbra; a cozinha, no outro lado do corredor que a separava desse aposento escuro, era o único cômodo iluminado, e sua luz irradiava-se até a sala chegando a ela já fraca. Ao contrário da luz, grande era o silêncio: parecia não morar ninguém ali. Um silêncio quebrado pelo “nhêêêm” da porta ao se abrir. Que droga! pensou. Amaldiçoou a porta, fechou-a e ia prosseguir quando sentiu sua bolsa sendo puxada. Estancou e olhou para trás: uma senhora, cabelos brancos e pele enrugada, levantava-se, a muita força, de uma poltrona atrás da porta, apoiando-se na mochila da garota. Ficou em pé e, carinhosamente, falou à neta, com uma voz rouca e cansada:

- Essa bolsa é muito pesada, minha filha; já te falei que assim tu pode prejudic...

- Ah! não enche! – interrompeu, zangada. Foi rumo à cozinha; sentira enjôo mais cedo e agora estava morta de fome. Deixou a avó sozinha na sala, sentada, entristecida, chorando.

Há cerca de dois anos avó e neta viviam juntas, e fazia algumas semanas que apenas elas duas dividiam aquela casa. Seu Alfredo, o avô, morreu e fez D. Alzira sentir enormemente a sua falta. Os dois, quando receberam Ana Clara para morar com eles, órfã dos pais, sabiam de sua rebeldia e não viram grande problema nisso – o que os preocupou foi dar a ela o carinho inexistente no seu relacionamento com os pais. Mas o convívio trouxe a intimidade e esta, a falta de pudor por parte da garota, permitindo-a mostrar-se bem como era.

Nos primeiros dias, a tristeza foi reinante na casa: D. Alzira, que perdera a filha, era entre choros e soluços, sempre tendo ao lado, como maior apoio, seu marido Alfredo. Este, talvez, sofreu em dobro, como pai e como marido, por ver a mulher em tão grande consternação. Ana Clara, que nunca tinha se aproximado dos avós maternos (e de nenhum outro), sentiu-se deslocada, estranha e, à sua maneira, sofreu pela perda dos pais. Mesmo com as tentativas dos anfitriões de acolhê-la naquele momento difícil, Ana encolhia-se num canto qualquer e calava-se. Passava horas nesse estado, sem derramar uma lágrima, até que se rendia à fome e ia à mesa, depois de muita insistência inútil dos avós.

As semanas passaram e consigo arrastaram a neblina de dor a qual, por incrível que pareça, embaraçara a relação entre os dois lados: os avós e Ana. Os meses vieram e se encarregaram de fazer o resto. Daí a pouco, Ana se acomodou completamente e voltou a seus hábitos de quando morava com os pais. Pela manhã, acordava tarde e merendava enquanto assistia à TV, o que fazia até a hora de sair para estudar, no começo da tarde. Estava no segundo ano do Ensino Médio. Se se adaptou a casa, não o fez com relação aos seus donos; não gostava daqueles velhos. Mal lhes falava, e adorava ir à escola, por dois motivos: deixava de esbarrar com rostos velhos e, principalmente, estando ainda no mesmo bairro, encontrava-se com velhas amigas. E com estas Ana saía quase todos os dias, ao fim das aulas, sem dar quaisquer satisfações aos avós. Algumas dessas vezes, ela voltava tarde da noite para casa, deixando os velhos muito preocupados, sobretudo D. Alzira. A neta passou a ser sua prioridade dentre as coisas de que tinha que cuidar; dava-lhe atenção quase total, tentava em vão aproximar-se mais, chegou a renunciar um pouco dos momentos com o marido para estar com Ana. Tudo isso a fim de, junto com os carinhos, dar-lhe conselhos sobre as saídas e chegadas tarde demais. Ana Clara, no entanto, não reconhecia o esforço da avó e irritava-se, às vezes, com o cuidado excessivo de D. Alzira, soltando-lhe gritos mandando que a deixassem em paz. Entre aquelas duas gerações, onde deveria haver um elo existia um imenso abismo.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

ELE E ELA

Sem querer me depreciar, mas na falta de algo melhor e no compromisso de postar toda quinta-feira (nem sempre cumprido, eu sei) ponho uns versos que, folheando meu caderno onde escrevi minhas "primeiras" palavras, achei algo que... enfim, vejam.

Ele não se aquieta
Porque ela não deixa.
Ela o move.
Ele tem irmãos
Ela tem filhos
Ele a ama
Ela o chama
Ela é a chama
Que nele se acende
E o desperta
Por sempre estar queimando.
Ele dela depende
Ela basta-se
Ele a compreende.
Ele e ela
São cúmplices do sentir
Ele a sente assente
Com tudo que ela faz e diz
Ela fala
Ele traduz.


quinta-feira, 21 de maio de 2009

PAPEL EM BRANCO

Papel em branco
Assim que te vi
Sem muito pensar
Em ti escrevi

Com ou sem pauta
Acabas me atraindo
Em branco és bonito
Se escrevo tu és lindo

quinta-feira, 7 de maio de 2009

NO BALANÇAR DA REDE

Era fim de tarde e o Sol se punha num bairro periférico da cidade. As casas, longes das grandes avenidas movimentadas, nessa hora aumentavam a sua calmaria, adquiriam um sossego que nada mais era que o reflexo da paz de seus moradores. E estes, como para compartilhar essa paz, ocupavam as calçadas em frente as suas respectivas moradias. Os vizinhos mais próximos se juntavam e jogavam conversa fora até o Sol desaparecer completamente. Assim, os quarteirões do bairro se enchiam de cadeiras (de plástico, de madeira, de balanço) nas quais se sentavam quase todos os membros da família, gozando a brisa fresca do fim de tarde e descansando os músculos da lida diária.


Em uma das casas, porém, nem todos tinham saído para a calçada; não pelo motivo comum e geral para que isso ocorra, que é a televisão. A causa era bem outra.


Em frente a essa casa três pessoas conversavam: os seus donos e uma vizinha; falavam sobre o último assalto a uma padaria. Ao lado dos donos da residência, uma cadeira vazia. A vizinha, uma senhora que contava detalhes do referido roubo, percebeu o fato incomum e perguntou ao casal onde estava a filha deles. A mãe respondeu que ela estava dormindo, que uma dor de cabeça muito forte a tinha atingido. A senhora “observadora” aceitou a resposta, e até desejou melhoras a menina chamando-a de “coitadinha”, mas não viu que a mãe, quando respondeu, trouxe a cadeira vazia para mais perto de si, como se esperasse a filha querida.


Adentrando a casa, logo na sala, o primeiro cômodo, via-se, entre um pequeno sofá afundado e rasgado e uma TV velha, Francisca se balançando numa rede. Tinha 17 anos. O grande cabelo crespo mal enxugado molhava o tecido vermelho, e a pele morena cheirava a sabonete. Deitada de forma vertical à extensão maior da rede, mantinha metade das pernas para fora; com a ponta dos pés encostando no sofá, pegava impulso para manter contínuo o vaivém em que estava. Tinha um livro nas mãos; o grunhido dos armadores não a incomodava porque apenas folheava-o, sem se deter a uma só pagina. Prestava atenção, sim, ao movimento lá fora, às conversas, as quais chegavam a ela como um vozerio baixo. Queria ocupar o lugar dela de costume, ao lado dos pais, e bater um papo com todo mundo, ficar a par dos últimos acontecimentos. Mas não podia. Não depois do que começou a sentir por um rapaz. Até mesmo não tinha ido à escola, para não vê-lo.

- Mas por que Francisca não foi estudar hoje? – perguntou a senhora vizinha, curiosa. Estranhava a mudança de hábito repentina da menina.


- Ora, Matilde, eu num já te falei! – disse Socorro, cansada da insistência da velha em se manter no mesmo assunto. Ela tá descansando por causa da “dô” de cabeça.


Chico também não estava gostando de ter sua filha como assunto principal. Ele e Socorro sabiam o motivo real da ausência de Francisca, e não queriam que a inquirição da expansiva Matilde acabasse por fazer eles dizerem a verdade. Então Chico entrou num outro papo.


- E me diga, Matilde, como foi mesmo que aconteceu aquele acidente lá naquela avenida, no centro.


A velha, eufórica em contar, sabia de tudo do ocorrido. “Mas vocês não sabem?!...” E começou a falar.


Os últimos raios solares já sumiam quando Oscar chegou aos três que conversavam na calçada. Um garoto com seus 18 anos, alto, negro e franzino; um varapau. Vestia a farda de uma escola e carregava um caderno e livros nas mãos. Cumprimentou todos com um “boa tarde” e um sorriso e voltou-se para o casal:


- A Fran não foi pra aula hoje – afirmou Oscar, com um tom de estranhamento. Antes de Chico e Socorro abrirem a boca para explicar, ele continuou:


- Mas eu copiei as aulas de hoje e trouxe pra ela, tá aqui no meu caderno – disse, com um desejo mesmo de ajudar, de entrar naquela casa, de entregar o caderno nas mãos dela, de vê-la, de falar-lhe.


- Sente aí, rapaz – falou Chico, indicando a cadeira vazia e percebendo a simpatia de Oscar, principalmente por Francisca.


- Pode deixá meu “fi”, que eu entrego o caderno pra ela – acudiu Dona Socorro, vendo também que, se deixassem, o garoto entraria na casa no mesmo instante. – É que num tá muito bem não; ta “cuma” baita dô de cabeça e agora já deve tá dormindo.


Dormindo?! Francisca estava bem esperta e notou quando com as outras vozes se juntou uma voz jovem e masculina. Só podia ser ele! Era ele! Tinha vindo vê-la. Mas ela não o queria ver, não queria, não tinha coragem de olhar-lhe na cara e dizer que ele era a sua primeira paixão. Ela sabia que o que sentia era recíproco e, por isso, tinha medo de iniciar algo e correr o risco de decepcionar o rapaz, ferir-lhe o sentimento de alguma forma.


As mãos dela começaram a suar levemente; largou o livro dentro da rede e levou um dos dedos direto à boca. Roeu, roeu, até ver o vermelhinho do sangue surgir na borda da unha. “Ai!” De repente, fez parar a rede, tendo como recursos para frear os mesmos que usou para impulsionar o balanço: os pés e o sofá rasgado. Posicionou-se sentada para descer e ir aonde estava todo mundo, aonde estava Oscar. Queria vê-lo, abraçá-lo, beijar-lhe a boca. Assim como o sofá e os pés, porém, o que lhe causava euforia e lhe dava gosto pela liberdade também sufocava, asfixiava e paralisava. Passou pouco tempo sentada, pensativa, e deitou-se novamente na mesma posição de antes. Voltou a balançar-se. Fixou a visão no telhado encardido pelo tempo e ali ficou, em meio à fraca escuridão que se formava (deixara a luz apagada) e naquele vaivém, o qual bem representava o seu então estado, a sua alma hesitante, depois de descobrir algo mais forte que ela própria.


Essa oscilação, entretanto, não atingira Oscar; lá de fora, duvidando muito do que tinha lhe falado Dona Socorro, tentou olhar para dentro da casa; a porta semi-aberta não o deixou ver muita coisa, e os postes já haviam se acendido. Fingiu acreditar naquela história de dor de cabeça e foi embora, deixando o caderno com a mãe de Francisca; foi pra casa sentindo, ao mesmo tempo, tristeza e contentamento, porque sabia que ela também estava apaixonada, e se não quisera vê-lo, ele tinha sido pelo menos complacente com a sua amada, e isso o encheu de alegria.