Bom, esses versos foram impressos no "NEM - Solidão". No entanto, fiz umas modificações que achei necessárias.
Eu estava junto de ti
Porém estava só
Só... só distraindo
A solidão sem dó
Engraçado é a paixão:
Tu não viste meu medo
Mas agora enxergas bem
O meu corpo aí quedo
Foi o único jeito
Que eu encontrei
Deixando-te só
A solidão eu matei
P.S. Não fique só
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
AH, GOSTO!
Mau gosto o meu gosto?
Meio gasto o que gosto?
Gastura do meu gosto?
Gasto o tempo que for
Gostando do que gosto.
Tu não perdes o gosto de gastar
O Agosto em não gostar.
Ah, gosto sim!
E gosto sempre!
E gosto tanto!
E gozo tanto
O que eu gosto!
Mas tu com esse olhar desgastado
Dá-me desgosto.
Meio gasto o que gosto?
Gastura do meu gosto?
Gasto o tempo que for
Gostando do que gosto.
Tu não perdes o gosto de gastar
O Agosto em não gostar.
Ah, gosto sim!
E gosto sempre!
E gosto tanto!
E gozo tanto
O que eu gosto!
Mas tu com esse olhar desgastado
Dá-me desgosto.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
NO COLETIVO - II
Que o tal do espírito do Natal está desaparecendo, isso talvez seja verdade, mas fato mesmo é o fortalecimento, nesse período do ano, de algo essencial à graça da vida: a imaginação. A imaginação que reaviva vidas e a que cria vidas.
Sim, vejo agora o poder da imaginação nesses dois sentidos, e os demonstrarei contando a situação a partir da qual comecei a percebê-los.
Estamos no finalzinho de Dezembro e há poucos dias atrás, na faculdade, eu ainda me encontrava sufocado pelos trabalhos e provas finais. Ainda que tenha sido o primeiro semestre, ou justamente por ter sido o primeiro, a tensão foi muito grande. Apesar de não trabalhar, leve-se em conta que eu sempre quis dar o melhor de mim. E muito mais que a preocupação em ser aprovado, o que me desgastava era o trabalho que davam os trabalhos e saber que ainda iria encarar outras avaliações.
Foi nesse estado de cansaço que, voltando da faculdade para casa, subi na topique. Passei a viagem toda em pé e, como se tratava de um coletivo – o meu templo ambulante – passei a viagem inteira também pensando. Entre os pensamentos daquele dia, porém, não havia uma idéia que me permitisse criar, uma sequer que me deixasse cair na ficção; apenas o estresse do dia-a-dia me ocupava a cabeça. Como era forte o meu desejo de que tudo aquilo acabasse! E como era intensa, também, a esperança em tempos melhores, em dias mais calmos. Posso estar aumentando as proporções ou, sem querer, devo estar parecendo meio dramático, mas se eu estava sentindo o que eu realmente estava sentindo, a esperança foi fundamental para que minha cabeça, concordando com o resto do corpo, também ficasse de pé.
Empurrada por essa esperança, minha imaginação foi longe. Vi, no ano que viria, um estudante mais bem sucedido, um escritor mais inspirado e... mais escritor, um leitor mais atento – não só das palavras, um amigo mais presente, uma pessoa mais calor, um ser mais amor, com uma vida mais sonho. Todas essas imagens fizeram surgir no meu rosto um sorriso discreto. Fosse outra época, esse sorriso viria de lembranças de bons momentos, mas eu pensava unicamente no lado oposto: o futuro.
É, o clima natalino inevitavelmente junto ao final de um ano permite mesmo os sentimentos mais ternos e esperançosos. Mas naquela topique eu não era o único contagiado por esse clima. Com a cabeça mais leve e o olhar menos preocupado, pude observar que, apesar de todo o aperto e de toda a pressão involuntária de corpos sobre corpos, sentimentos de ternura voavam livremente; embora muitos estivessem sufocados fisicamente, não o estavam pelo que sentiam; desejos de felicidade, declarações de boas-novas do que ainda iria acontecer, sonhos revelados, abraços de amigos, beijos de namorados, todas essas palavras e gestos se executavam na mais intensa reciprocidade.
E se eu atentei para tudo isso, de repente desviei meu foco e voltei-me para algo quase totalmente alheio ao que se passava. Um garoto, talvez com uns oito anos, sentado no colo da mãe, aproveitou o veículo parado e indicou, pela janela aberta, o Papai Noel lá fora. Chamando a atenção dos pais – e a minha – o menino quase gritava, repetindo freneticamente “Tá ali, ó, o Papai Noel, tá ali!”, com o dedo esticado servindo de seta. O pai não viu nenhum homem gordo e vestido de vermelho, e como estava em pé, até se curvou um pouco para observar melhor, mas continuou não vendo Noel nenhum. Eu também não vi. A mãe, talvez tentando disfarçar a incredulidade, deu um forte beijo no rosto do filho e o chamou de coisa linda: “Ô coisa linda!”. O pai deu uma risadinha, passou a mão nos cabelos do garoto e voltou à posição normal. A topique saiu e o menino girou a cabeça para trás, como ainda querendo ver o Papai Noel, que se distanciava cada vez mais; acompanhei-o no movimento e não vi nada. Digo, vi sim. Vi perfeitamente a imaginação agindo, com toda a sua força e magia.
Foi saindo dentre esses dois belíssimos quadros que, no final da linha, desci da topique. Mais do que nunca, senti-me realmente deixando um lugar sagrado e sereno: senti-me renovado e quando olhei para trás, no lugar do carro barulhento havia o mais exuberante templo sobre a Terra. Sinos enormes badalavam nas duas imponentes torres e a porta por onde eu tinha saído ostentava agora uma pesada aldrava, encostada na espessa superfície de madeira trabalhada. Fiquei parado ali por uns dois minutos, boquiaberto, até que a buzina de um carro que pedia passagem me trouxe à realidade. Virei-me de volta e fui para casa.
Se alguns momentos deste ano que acaba foram ruins, ou se os dias que virão trarão tempos desagradáveis, já não me falta imaginação – nos dois sentidos – para que eu possa transformá-los nas horas mais lindas que existem.
Sim, vejo agora o poder da imaginação nesses dois sentidos, e os demonstrarei contando a situação a partir da qual comecei a percebê-los.
Estamos no finalzinho de Dezembro e há poucos dias atrás, na faculdade, eu ainda me encontrava sufocado pelos trabalhos e provas finais. Ainda que tenha sido o primeiro semestre, ou justamente por ter sido o primeiro, a tensão foi muito grande. Apesar de não trabalhar, leve-se em conta que eu sempre quis dar o melhor de mim. E muito mais que a preocupação em ser aprovado, o que me desgastava era o trabalho que davam os trabalhos e saber que ainda iria encarar outras avaliações.
Foi nesse estado de cansaço que, voltando da faculdade para casa, subi na topique. Passei a viagem toda em pé e, como se tratava de um coletivo – o meu templo ambulante – passei a viagem inteira também pensando. Entre os pensamentos daquele dia, porém, não havia uma idéia que me permitisse criar, uma sequer que me deixasse cair na ficção; apenas o estresse do dia-a-dia me ocupava a cabeça. Como era forte o meu desejo de que tudo aquilo acabasse! E como era intensa, também, a esperança em tempos melhores, em dias mais calmos. Posso estar aumentando as proporções ou, sem querer, devo estar parecendo meio dramático, mas se eu estava sentindo o que eu realmente estava sentindo, a esperança foi fundamental para que minha cabeça, concordando com o resto do corpo, também ficasse de pé.
Empurrada por essa esperança, minha imaginação foi longe. Vi, no ano que viria, um estudante mais bem sucedido, um escritor mais inspirado e... mais escritor, um leitor mais atento – não só das palavras, um amigo mais presente, uma pessoa mais calor, um ser mais amor, com uma vida mais sonho. Todas essas imagens fizeram surgir no meu rosto um sorriso discreto. Fosse outra época, esse sorriso viria de lembranças de bons momentos, mas eu pensava unicamente no lado oposto: o futuro.
É, o clima natalino inevitavelmente junto ao final de um ano permite mesmo os sentimentos mais ternos e esperançosos. Mas naquela topique eu não era o único contagiado por esse clima. Com a cabeça mais leve e o olhar menos preocupado, pude observar que, apesar de todo o aperto e de toda a pressão involuntária de corpos sobre corpos, sentimentos de ternura voavam livremente; embora muitos estivessem sufocados fisicamente, não o estavam pelo que sentiam; desejos de felicidade, declarações de boas-novas do que ainda iria acontecer, sonhos revelados, abraços de amigos, beijos de namorados, todas essas palavras e gestos se executavam na mais intensa reciprocidade.
E se eu atentei para tudo isso, de repente desviei meu foco e voltei-me para algo quase totalmente alheio ao que se passava. Um garoto, talvez com uns oito anos, sentado no colo da mãe, aproveitou o veículo parado e indicou, pela janela aberta, o Papai Noel lá fora. Chamando a atenção dos pais – e a minha – o menino quase gritava, repetindo freneticamente “Tá ali, ó, o Papai Noel, tá ali!”, com o dedo esticado servindo de seta. O pai não viu nenhum homem gordo e vestido de vermelho, e como estava em pé, até se curvou um pouco para observar melhor, mas continuou não vendo Noel nenhum. Eu também não vi. A mãe, talvez tentando disfarçar a incredulidade, deu um forte beijo no rosto do filho e o chamou de coisa linda: “Ô coisa linda!”. O pai deu uma risadinha, passou a mão nos cabelos do garoto e voltou à posição normal. A topique saiu e o menino girou a cabeça para trás, como ainda querendo ver o Papai Noel, que se distanciava cada vez mais; acompanhei-o no movimento e não vi nada. Digo, vi sim. Vi perfeitamente a imaginação agindo, com toda a sua força e magia.
Foi saindo dentre esses dois belíssimos quadros que, no final da linha, desci da topique. Mais do que nunca, senti-me realmente deixando um lugar sagrado e sereno: senti-me renovado e quando olhei para trás, no lugar do carro barulhento havia o mais exuberante templo sobre a Terra. Sinos enormes badalavam nas duas imponentes torres e a porta por onde eu tinha saído ostentava agora uma pesada aldrava, encostada na espessa superfície de madeira trabalhada. Fiquei parado ali por uns dois minutos, boquiaberto, até que a buzina de um carro que pedia passagem me trouxe à realidade. Virei-me de volta e fui para casa.
Se alguns momentos deste ano que acaba foram ruins, ou se os dias que virão trarão tempos desagradáveis, já não me falta imaginação – nos dois sentidos – para que eu possa transformá-los nas horas mais lindas que existem.
Desejo um ótimo Natal e um excelente Réveillon a todos. E que não lhes falte imaginação nunca. "Feche os olhos, mas deixe a mente bem aberta" - Ponte para Terabítia
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
A CHUVA
Esse quebra, mais uma vez, a sequência de textos mio velhos.
“São as pequenas coisas que valem mais.
É tão bom estarmos juntos
E tão simples: um dia perfeito”
Um dia perfeito – Renato Russo
“Como é barulhenta essa chuva. Só falta quebrar o telhado, meu Deus!” Assim pensou a senhora que, na cozinha, preparava um cheiroso jantar. “Essa chuva só serve pra dar susto na gente”, resmungou o velho que cochilava no sofá da sala e acordou de repente, com o estouro de um trovão. No mesmo instante, porém, se acalmou. Percebeu, pelo excitante cheiro de frango cozido, que tinha despertado na hora certa: a janta já estava pronta.
Queria pelo menos sentir esse cheiro o homem magro que se abrigava em um alpendre, a duas casas dali. E também pensava, “é tão doce a água da chuva”, enquanto bebia mais um gole do que conseguia obter nas mãos sujas feitas em concha. Expulsada a sede, veio o não menos incômodo frio. Se há um minuto tinha agradecido a chuva que caía, já então a condenava. Batia rápido e involuntariamente os dentes, tentava se agasalhar com uns panos ensopados e tinha raiva dos meninos que gritavam e corriam na rua; pareciam nem ligar para o fato de o céu estar caindo naquele momento.
Se essa era a aparência, a realidade era exatamente oposta. Uns seis garotos, de oito a doze anos, aproveitavam a chuva para tornar o corre-corre ainda mais gostoso e divertido. As poças que se formavam nos buracos da rua não pavimentada eram o que mais animava os meninos. Alvo dos pulos das crianças, essas poças ficavam numa oscilação entre cheia e vazia: a chuva, em poucos segundos, fazia transbordar os profundos buracos, mas estes logo eram só lama nos pés dos garotos. E assim, entre a gritaria e gargalhadas, entre a luz dos relâmpagos e o susto rápido com as trovoadas, eles brincavam. Só estavam ali por causa do toró que desabava. Caso contrário, estariam em suas casas, provavelmente assistindo à televisão, esperando o grito da mãe a chamar para comer.
E foi esse grito que, em direção aos pirralhos, os fez parar a correria. A senhora que temia perder o teto da própria casa para a chuva apareceu á porta da rua e soltou grito um estridente, a ver se superava a arrogância dos céus. Dos seis, três foram em direção a senhora gasguita. Os outros três se dispersaram em direções diferentes. Os meninos entraram na casa daí em pouco a chuva começou a parar.
A lua lentamente apareceu entre as nuvens e, sob a sua luz, um casal de namorados passou com cuidado entre os buracos cheios de água. Abraçados, aqueciam-se, depois de terem saído do alpendre que encontraram quando foram pegos de surpresa por alguns pingos da chuva. Aproveitavam, ainda, o abraço e os beijos para compartilhar e dissipar o medo daquele homem feio que, sob o alpendre, os encarou tão fixamente.
“São as pequenas coisas que valem mais.
É tão bom estarmos juntos
E tão simples: um dia perfeito”
Um dia perfeito – Renato Russo
“Como é barulhenta essa chuva. Só falta quebrar o telhado, meu Deus!” Assim pensou a senhora que, na cozinha, preparava um cheiroso jantar. “Essa chuva só serve pra dar susto na gente”, resmungou o velho que cochilava no sofá da sala e acordou de repente, com o estouro de um trovão. No mesmo instante, porém, se acalmou. Percebeu, pelo excitante cheiro de frango cozido, que tinha despertado na hora certa: a janta já estava pronta.
Queria pelo menos sentir esse cheiro o homem magro que se abrigava em um alpendre, a duas casas dali. E também pensava, “é tão doce a água da chuva”, enquanto bebia mais um gole do que conseguia obter nas mãos sujas feitas em concha. Expulsada a sede, veio o não menos incômodo frio. Se há um minuto tinha agradecido a chuva que caía, já então a condenava. Batia rápido e involuntariamente os dentes, tentava se agasalhar com uns panos ensopados e tinha raiva dos meninos que gritavam e corriam na rua; pareciam nem ligar para o fato de o céu estar caindo naquele momento.
Se essa era a aparência, a realidade era exatamente oposta. Uns seis garotos, de oito a doze anos, aproveitavam a chuva para tornar o corre-corre ainda mais gostoso e divertido. As poças que se formavam nos buracos da rua não pavimentada eram o que mais animava os meninos. Alvo dos pulos das crianças, essas poças ficavam numa oscilação entre cheia e vazia: a chuva, em poucos segundos, fazia transbordar os profundos buracos, mas estes logo eram só lama nos pés dos garotos. E assim, entre a gritaria e gargalhadas, entre a luz dos relâmpagos e o susto rápido com as trovoadas, eles brincavam. Só estavam ali por causa do toró que desabava. Caso contrário, estariam em suas casas, provavelmente assistindo à televisão, esperando o grito da mãe a chamar para comer.
E foi esse grito que, em direção aos pirralhos, os fez parar a correria. A senhora que temia perder o teto da própria casa para a chuva apareceu á porta da rua e soltou grito um estridente, a ver se superava a arrogância dos céus. Dos seis, três foram em direção a senhora gasguita. Os outros três se dispersaram em direções diferentes. Os meninos entraram na casa daí em pouco a chuva começou a parar.
A lua lentamente apareceu entre as nuvens e, sob a sua luz, um casal de namorados passou com cuidado entre os buracos cheios de água. Abraçados, aqueciam-se, depois de terem saído do alpendre que encontraram quando foram pegos de surpresa por alguns pingos da chuva. Aproveitavam, ainda, o abraço e os beijos para compartilhar e dissipar o medo daquele homem feio que, sob o alpendre, os encarou tão fixamente.