Fortaleza
Cidade bela
Cidade deles
A brônzea cor
Te ilumina a pele
E outros corpos
Sentem teus prazeres.
Fortaleza
Cidade minha
Cidade minha
As tuas ruas
Gritam-te "mesquinha!"
E o teu povo
Entorta a boquinha.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
quinta-feira, 18 de junho de 2009
GERAÇÕES (CONT.)
Tá aí a "segunda parte" do texto. Para não ficar sem nexo, boto o último trecho da parte anterior:
...Ana Clara, no entanto, não reconhecia o esforço da avó e irritava-se, às vezes, com o cuidado excessivo de D. Alzira, soltando-lhe gritos mandando que a deixassem em paz. Entre aquelas duas gerações, onde deveria haver um elo existia um imenso abismo.
D. Alzira não resistiu: chorosa, buscou o ombro do marido, que a confortou um pouco. Mas as lágrimas na camisa de Seu Alfredo não secaram tão rápido assim. No outro dia, assim que acordou, ele foi ter uma conversinha com a garota “atrevida”, “respondona” e “mal-educada”.
- ‘Bora, menina, acorda! gritou Seu Alfredo, entrando no quarto onde Ana dormia. Acorda, acorda! Tô falando contigo, menina! continuou, aproximando-se da cama e sacudindo a garota pelas pernas.
Ana Clara acordou assustadíssima; pulou da cama e em um segundo ficou em pé, perturbada pelo despertar repentino. O que foi, o que foi?! Passou os dedos nos olhos, agitou a cabeça e os sentidos foram se recuperando.
Seu Alfredo ainda resmungava, gritando. Ana percebeu quem tinha lhe acordado, só não entendeu por quê. Mas não procurou saber; estava muito cansada, odiava ter de viver com aquele velho e não agüentaria esse desaforo.
- Olha aqui, seu velho nojento!...
O bate-boca só teve fim quando Seu Alfredo, velho conhecido da hipertensão, tombou no chão, ali mesmo no corredor, e bateu com a cabeça na parede, derramando sangue e morrendo poucos minutos depois.
Limpou-se o sangue, limpou-se o corpo e foi limpo, também, o episódio daquela triste manhã.
O tempo acalmou os ânimos. Exceto os de Ana Clara que, apesar de carregar uma barriga crescente, mesmo com um cansaço desanimador, não renunciou das suas saídas com as amigas. Digo, ela não tinha renunciado até aquela noite em que a vimos entrar cautelosamente em casa. Ela foi direto à cozinha.
Ana abriu a geladeira e no mesmo instante fechou: não gostou nada do que viu. Olhou ao redor e, sobre a mesa, viu algumas maçãs, peras e laranjas. Assim que mordeu maçã, sentiu algo no ventre se mexer. “Ah!”, soltou um gritinho de susto e largou a maçã no chão. Os próximos gritos, bem mais altos, foram para chamar a avó:
- Vó, vó, vóóó! Vem aqui vó!
D. Alzira emergiu da sua tristeza de repente, num sobressalto. Levantou-se custosamente, acendeu a luz da sala e, no mais rápido que pôde, dirigiu-se à cozinha. Chegou e viu Ana sentada numa cadeira, com as mãos na barriga, reclamando da demora da avó. D. Alzira puxou uma cadeira e sentou-se bem perto de Ana, de frente para ela. Passou a mão leve na barriga da neta, alisando, acarinhando; curvou-se para encostar a cabeça e ouvir a vida lá dentro.
Ana Clara viu-se numa situação embaraçosa: um misto de raiva (por não saber exatamente o que fazer) e tranqüilidade (por sentir-se em paz com a avó). Hesitante, pôs a mão sobre os cabelos brancos de D. Alzira e começou a alisá-los, bem devagar, ao mesmo tempo em que chorava, contida, lutando contra as lágrimas.
No dia seguinte, à mesa para tomar o café da manhã, as duas passaram alguns minutos que nem duas estranhas que se conheciam. Apenas os olhos falavam, inquietos, e, nas passagens pelos cantos da cozinha, a vista de uma corria pelo rosto da outra. Até que Ana quebrou o mutismo:
-Vó...
- Oh, minha filha! – antecipou-se D. Alzira – Desculpa por tudo, mas é que agora tu tem uma criança dentro de ti – disse, aproximando-se da neta – E ela exige cuidados. Não pode passar o dia no meio da rua assim, sem comer direito.
Se Ana Clara cessou as saídas, foi antes por causa do cansaço que começou a sentir nos meses que se seguiram. Nesse tempo, sentiu algumas sensações pertinentes a essa fase da vida feminina: dores nas costas, insônia e as incômodas contrações.
Veio a criança. E foi-se o que seria um início de conciliação, de uma aproximação maior. A chegada de Alfredo, como foi chamado, tomou toda a atenção de D. Alzira, que encontrou no filho o que, na mãe, não vira nem sombra: paz. Aqueles dois seres, aquelas duas sensibilidades, aquelas duas extremidades se encontram e mantiveram-se num auxílio recíproco. D. Alzira cuidava de Alfredo, banhava-o, dava-lhe comida, carinho, e este, sem saber, retribuía animando a vida da bisavó, fazendo-a voltar a sorrir.
Ana, que não quis saber muito do filho, até achou bom que os dois tivessem se entendido; seria menos preocupação (ou ocupação). Sentiu-se, porém, invisível entre eles. Não quis saber, enfim, de nenhum dos dois. E continuou vivendo como bem antes de conhecer os avós.
quinta-feira, 11 de junho de 2009
GERAÇÕES
Esse é um texto de corpo único, mas resolvi dividi-lo em duas partes por causa do tamanho. Então, aí vai a "primeira parte"
A garota mexeu cuidadosamente no ferrolho do portão e o abriu bem devagar; entrou e o fechou com o mesmo zelo. Não queria fazer qualquer barulhinho que fosse. Atravessou, na ponta dos pés, a trilha do jardim e alcançou a porta principal da casa; ela sabia que nada estava trancado. Talvez a esperassem, mas, àquela hora da noite, não queria acordar ninguém; iria direto para o seu quarto dormir, sem aborrecimentos. Passou uma mão sobre a barriga já um pouco proeminente, ajeitou a mochila nas costas e abriu a porta, também lentamente. Na sala, uma penumbra; a cozinha, no outro lado do corredor que a separava desse aposento escuro, era o único cômodo iluminado, e sua luz irradiava-se até a sala chegando a ela já fraca. Ao contrário da luz, grande era o silêncio: parecia não morar ninguém ali. Um silêncio quebrado pelo “nhêêêm” da porta ao se abrir. Que droga! pensou. Amaldiçoou a porta, fechou-a e ia prosseguir quando sentiu sua bolsa sendo puxada. Estancou e olhou para trás: uma senhora, cabelos brancos e pele enrugada, levantava-se, a muita força, de uma poltrona atrás da porta, apoiando-se na mochila da garota. Ficou em pé e, carinhosamente, falou à neta, com uma voz rouca e cansada:
- Essa bolsa é muito pesada, minha filha; já te falei que assim tu pode prejudic...
- Ah! não enche! – interrompeu, zangada. Foi rumo à cozinha; sentira enjôo mais cedo e agora estava morta de fome. Deixou a avó sozinha na sala, sentada, entristecida, chorando.
Há cerca de dois anos avó e neta viviam juntas, e fazia algumas semanas que apenas elas duas dividiam aquela casa. Seu Alfredo, o avô, morreu e fez D. Alzira sentir enormemente a sua falta. Os dois, quando receberam Ana Clara para morar com eles, órfã dos pais, sabiam de sua rebeldia e não viram grande problema nisso – o que os preocupou foi dar a ela o carinho inexistente no seu relacionamento com os pais. Mas o convívio trouxe a intimidade e esta, a falta de pudor por parte da garota, permitindo-a mostrar-se bem como era.
Nos primeiros dias, a tristeza foi reinante na casa: D. Alzira, que perdera a filha, era entre choros e soluços, sempre tendo ao lado, como maior apoio, seu marido Alfredo. Este, talvez, sofreu em dobro, como pai e como marido, por ver a mulher em tão grande consternação. Ana Clara, que nunca tinha se aproximado dos avós maternos (e de nenhum outro), sentiu-se deslocada, estranha e, à sua maneira, sofreu pela perda dos pais. Mesmo com as tentativas dos anfitriões de acolhê-la naquele momento difícil, Ana encolhia-se num canto qualquer e calava-se. Passava horas nesse estado, sem derramar uma lágrima, até que se rendia à fome e ia à mesa, depois de muita insistência inútil dos avós.
As semanas passaram e consigo arrastaram a neblina de dor a qual, por incrível que pareça, embaraçara a relação entre os dois lados: os avós e Ana. Os meses vieram e se encarregaram de fazer o resto. Daí a pouco, Ana se acomodou completamente e voltou a seus hábitos de quando morava com os pais. Pela manhã, acordava tarde e merendava enquanto assistia à TV, o que fazia até a hora de sair para estudar, no começo da tarde. Estava no segundo ano do Ensino Médio. Se se adaptou a casa, não o fez com relação aos seus donos; não gostava daqueles velhos. Mal lhes falava, e adorava ir à escola, por dois motivos: deixava de esbarrar com rostos velhos e, principalmente, estando ainda no mesmo bairro, encontrava-se com velhas amigas. E com estas Ana saía quase todos os dias, ao fim das aulas, sem dar quaisquer satisfações aos avós. Algumas dessas vezes, ela voltava tarde da noite para casa, deixando os velhos muito preocupados, sobretudo D. Alzira. A neta passou a ser sua prioridade dentre as coisas de que tinha que cuidar; dava-lhe atenção quase total, tentava em vão aproximar-se mais, chegou a renunciar um pouco dos momentos com o marido para estar com Ana. Tudo isso a fim de, junto com os carinhos, dar-lhe conselhos sobre as saídas e chegadas tarde demais. Ana Clara, no entanto, não reconhecia o esforço da avó e irritava-se, às vezes, com o cuidado excessivo de D. Alzira, soltando-lhe gritos mandando que a deixassem em paz. Entre aquelas duas gerações, onde deveria haver um elo existia um imenso abismo.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
ELE E ELA
Sem querer me depreciar, mas na falta de algo melhor e no compromisso de postar toda quinta-feira (nem sempre cumprido, eu sei) ponho uns versos que, folheando meu caderno onde escrevi minhas "primeiras" palavras, achei algo que... enfim, vejam.
Ele não se aquieta
Porque ela não deixa.
Ela o move.
Ele tem irmãos
Ela tem filhos
Ele a ama
Ela o chama
Ela é a chama
Que nele se acende
E o desperta
Por sempre estar queimando.
Ele dela depende
Ela basta-se
Ele a compreende.
Ele e ela
São cúmplices do sentir
Ele a sente assente
Com tudo que ela faz e diz
Ela fala
Ele traduz.
Ele não se aquieta
Porque ela não deixa.
Ela o move.
Ele tem irmãos
Ela tem filhos
Ele a ama
Ela o chama
Ela é a chama
Que nele se acende
E o desperta
Por sempre estar queimando.
Ele dela depende
Ela basta-se
Ele a compreende.
Ele e ela
São cúmplices do sentir
Ele a sente assente
Com tudo que ela faz e diz
Ela fala
Ele traduz.