Era fim de tarde e o Sol se punha num bairro periférico da cidade. As casas, longes das grandes avenidas movimentadas, nessa hora aumentavam a sua calmaria, adquiriam um sossego que nada mais era que o reflexo da paz de seus moradores. E estes, como para compartilhar essa paz, ocupavam as calçadas em frente as suas respectivas moradias. Os vizinhos mais próximos se juntavam e jogavam conversa fora até o Sol desaparecer completamente. Assim, os quarteirões do bairro se enchiam de cadeiras (de plástico, de madeira, de balanço) nas quais se sentavam quase todos os membros da família, gozando a brisa fresca do fim de tarde e descansando os músculos da lida diária.
Em uma das casas, porém, nem todos tinham saído para a calçada; não pelo motivo comum e geral para que isso ocorra, que é a televisão. A causa era bem outra.
Em frente a essa casa três pessoas conversavam: os seus donos e uma vizinha; falavam sobre o último assalto a uma padaria. Ao lado dos donos da residência, uma cadeira vazia. A vizinha, uma senhora que contava detalhes do referido roubo, percebeu o fato incomum e perguntou ao casal onde estava a filha deles. A mãe respondeu que ela estava dormindo, que uma dor de cabeça muito forte a tinha atingido. A senhora “observadora” aceitou a resposta, e até desejou melhoras a menina chamando-a de “coitadinha”, mas não viu que a mãe, quando respondeu, trouxe a cadeira vazia para mais perto de si, como se esperasse a filha querida.
- Mas por que Francisca não foi estudar hoje? – perguntou a senhora vizinha, curiosa. Estranhava a mudança de hábito repentina da menina.
- Ora, Matilde, eu num já te falei! – disse Socorro, cansada da insistência da velha em se manter no mesmo assunto. Ela tá descansando por causa da “dô” de cabeça.
Chico também não estava gostando de ter sua filha como assunto principal. Ele e Socorro sabiam o motivo real da ausência de Francisca, e não queriam que a inquirição da expansiva Matilde acabasse por fazer eles dizerem a verdade. Então Chico entrou num outro papo.
- E me diga, Matilde, como foi mesmo que aconteceu aquele acidente lá naquela avenida, no centro.
A velha, eufórica em contar, sabia de tudo do ocorrido. “Mas vocês não sabem?!...” E começou a falar.
Os últimos raios solares já sumiam quando Oscar chegou aos três que conversavam na calçada. Um garoto com seus 18 anos, alto, negro e franzino; um varapau. Vestia a farda de uma escola e carregava um caderno e livros nas mãos. Cumprimentou todos com um “boa tarde” e um sorriso e voltou-se para o casal:
- A Fran não foi pra aula hoje – afirmou Oscar, com um tom de estranhamento. Antes de Chico e Socorro abrirem a boca para explicar, ele continuou:
- Mas eu copiei as aulas de hoje e trouxe pra ela, tá aqui no meu caderno – disse, com um desejo mesmo de ajudar, de entrar naquela casa, de entregar o caderno nas mãos dela, de vê-la, de falar-lhe.
- Sente aí, rapaz – falou Chico, indicando a cadeira vazia e percebendo a simpatia de Oscar, principalmente por Francisca.
- Pode deixá meu “fi”, que eu entrego o caderno pra ela – acudiu Dona Socorro, vendo também que, se deixassem, o garoto entraria na casa no mesmo instante. – É que num tá muito bem não; ta “cuma” baita dô de cabeça e agora já deve tá dormindo.
Dormindo?! Francisca estava bem esperta e notou quando com as outras vozes se juntou uma voz jovem e masculina. Só podia ser ele! Era ele! Tinha vindo vê-la. Mas ela não o queria ver, não queria, não tinha coragem de olhar-lhe na cara e dizer que ele era a sua primeira paixão. Ela sabia que o que sentia era recíproco e, por isso, tinha medo de iniciar algo e correr o risco de decepcionar o rapaz, ferir-lhe o sentimento de alguma forma.
As mãos dela começaram a suar levemente; largou o livro dentro da rede e levou um dos dedos direto à boca. Roeu, roeu, até ver o vermelhinho do sangue surgir na borda da unha. “Ai!” De repente, fez parar a rede, tendo como recursos para frear os mesmos que usou para impulsionar o balanço: os pés e o sofá rasgado. Posicionou-se sentada para descer e ir aonde estava todo mundo, aonde estava Oscar. Queria vê-lo, abraçá-lo, beijar-lhe a boca. Assim como o sofá e os pés, porém, o que lhe causava euforia e lhe dava gosto pela liberdade também sufocava, asfixiava e paralisava. Passou pouco tempo sentada, pensativa, e deitou-se novamente na mesma posição de antes. Voltou a balançar-se. Fixou a visão no telhado encardido pelo tempo e ali ficou, em meio à fraca escuridão que se formava (deixara a luz apagada) e naquele vaivém, o qual bem representava o seu então estado, a sua alma hesitante, depois de descobrir algo mais forte que ela própria.
Essa oscilação, entretanto, não atingira Oscar; lá de fora, duvidando muito do que tinha lhe falado Dona Socorro, tentou olhar para dentro da casa; a porta semi-aberta não o deixou ver muita coisa, e os postes já haviam se acendido. Fingiu acreditar naquela história de dor de cabeça e foi embora, deixando o caderno com a mãe de Francisca; foi pra casa sentindo, ao mesmo tempo, tristeza e contentamento, porque sabia que ela também estava apaixonada, e se não quisera vê-lo, ele tinha sido pelo menos complacente com a sua amada, e isso o encheu de alegria.