quinta-feira, 7 de maio de 2009

NO BALANÇAR DA REDE

Era fim de tarde e o Sol se punha num bairro periférico da cidade. As casas, longes das grandes avenidas movimentadas, nessa hora aumentavam a sua calmaria, adquiriam um sossego que nada mais era que o reflexo da paz de seus moradores. E estes, como para compartilhar essa paz, ocupavam as calçadas em frente as suas respectivas moradias. Os vizinhos mais próximos se juntavam e jogavam conversa fora até o Sol desaparecer completamente. Assim, os quarteirões do bairro se enchiam de cadeiras (de plástico, de madeira, de balanço) nas quais se sentavam quase todos os membros da família, gozando a brisa fresca do fim de tarde e descansando os músculos da lida diária.


Em uma das casas, porém, nem todos tinham saído para a calçada; não pelo motivo comum e geral para que isso ocorra, que é a televisão. A causa era bem outra.


Em frente a essa casa três pessoas conversavam: os seus donos e uma vizinha; falavam sobre o último assalto a uma padaria. Ao lado dos donos da residência, uma cadeira vazia. A vizinha, uma senhora que contava detalhes do referido roubo, percebeu o fato incomum e perguntou ao casal onde estava a filha deles. A mãe respondeu que ela estava dormindo, que uma dor de cabeça muito forte a tinha atingido. A senhora “observadora” aceitou a resposta, e até desejou melhoras a menina chamando-a de “coitadinha”, mas não viu que a mãe, quando respondeu, trouxe a cadeira vazia para mais perto de si, como se esperasse a filha querida.


Adentrando a casa, logo na sala, o primeiro cômodo, via-se, entre um pequeno sofá afundado e rasgado e uma TV velha, Francisca se balançando numa rede. Tinha 17 anos. O grande cabelo crespo mal enxugado molhava o tecido vermelho, e a pele morena cheirava a sabonete. Deitada de forma vertical à extensão maior da rede, mantinha metade das pernas para fora; com a ponta dos pés encostando no sofá, pegava impulso para manter contínuo o vaivém em que estava. Tinha um livro nas mãos; o grunhido dos armadores não a incomodava porque apenas folheava-o, sem se deter a uma só pagina. Prestava atenção, sim, ao movimento lá fora, às conversas, as quais chegavam a ela como um vozerio baixo. Queria ocupar o lugar dela de costume, ao lado dos pais, e bater um papo com todo mundo, ficar a par dos últimos acontecimentos. Mas não podia. Não depois do que começou a sentir por um rapaz. Até mesmo não tinha ido à escola, para não vê-lo.

- Mas por que Francisca não foi estudar hoje? – perguntou a senhora vizinha, curiosa. Estranhava a mudança de hábito repentina da menina.


- Ora, Matilde, eu num já te falei! – disse Socorro, cansada da insistência da velha em se manter no mesmo assunto. Ela tá descansando por causa da “dô” de cabeça.


Chico também não estava gostando de ter sua filha como assunto principal. Ele e Socorro sabiam o motivo real da ausência de Francisca, e não queriam que a inquirição da expansiva Matilde acabasse por fazer eles dizerem a verdade. Então Chico entrou num outro papo.


- E me diga, Matilde, como foi mesmo que aconteceu aquele acidente lá naquela avenida, no centro.


A velha, eufórica em contar, sabia de tudo do ocorrido. “Mas vocês não sabem?!...” E começou a falar.


Os últimos raios solares já sumiam quando Oscar chegou aos três que conversavam na calçada. Um garoto com seus 18 anos, alto, negro e franzino; um varapau. Vestia a farda de uma escola e carregava um caderno e livros nas mãos. Cumprimentou todos com um “boa tarde” e um sorriso e voltou-se para o casal:


- A Fran não foi pra aula hoje – afirmou Oscar, com um tom de estranhamento. Antes de Chico e Socorro abrirem a boca para explicar, ele continuou:


- Mas eu copiei as aulas de hoje e trouxe pra ela, tá aqui no meu caderno – disse, com um desejo mesmo de ajudar, de entrar naquela casa, de entregar o caderno nas mãos dela, de vê-la, de falar-lhe.


- Sente aí, rapaz – falou Chico, indicando a cadeira vazia e percebendo a simpatia de Oscar, principalmente por Francisca.


- Pode deixá meu “fi”, que eu entrego o caderno pra ela – acudiu Dona Socorro, vendo também que, se deixassem, o garoto entraria na casa no mesmo instante. – É que num tá muito bem não; ta “cuma” baita dô de cabeça e agora já deve tá dormindo.


Dormindo?! Francisca estava bem esperta e notou quando com as outras vozes se juntou uma voz jovem e masculina. Só podia ser ele! Era ele! Tinha vindo vê-la. Mas ela não o queria ver, não queria, não tinha coragem de olhar-lhe na cara e dizer que ele era a sua primeira paixão. Ela sabia que o que sentia era recíproco e, por isso, tinha medo de iniciar algo e correr o risco de decepcionar o rapaz, ferir-lhe o sentimento de alguma forma.


As mãos dela começaram a suar levemente; largou o livro dentro da rede e levou um dos dedos direto à boca. Roeu, roeu, até ver o vermelhinho do sangue surgir na borda da unha. “Ai!” De repente, fez parar a rede, tendo como recursos para frear os mesmos que usou para impulsionar o balanço: os pés e o sofá rasgado. Posicionou-se sentada para descer e ir aonde estava todo mundo, aonde estava Oscar. Queria vê-lo, abraçá-lo, beijar-lhe a boca. Assim como o sofá e os pés, porém, o que lhe causava euforia e lhe dava gosto pela liberdade também sufocava, asfixiava e paralisava. Passou pouco tempo sentada, pensativa, e deitou-se novamente na mesma posição de antes. Voltou a balançar-se. Fixou a visão no telhado encardido pelo tempo e ali ficou, em meio à fraca escuridão que se formava (deixara a luz apagada) e naquele vaivém, o qual bem representava o seu então estado, a sua alma hesitante, depois de descobrir algo mais forte que ela própria.


Essa oscilação, entretanto, não atingira Oscar; lá de fora, duvidando muito do que tinha lhe falado Dona Socorro, tentou olhar para dentro da casa; a porta semi-aberta não o deixou ver muita coisa, e os postes já haviam se acendido. Fingiu acreditar naquela história de dor de cabeça e foi embora, deixando o caderno com a mãe de Francisca; foi pra casa sentindo, ao mesmo tempo, tristeza e contentamento, porque sabia que ela também estava apaixonada, e se não quisera vê-lo, ele tinha sido pelo menos complacente com a sua amada, e isso o encheu de alegria.




sexta-feira, 17 de abril de 2009

O CONFORTO DE CADA DIA

Eram oito e quarenta da noite quando o homem chegou em casa. A testa negra brilhava, reflexo do leve suor nela fixada; o cheiro de calor impregnava toda a roupa; o cansaço no rosto denunciava o quanto o dia fora difícil. A pasta de plástico que ele carregou consigo o dia todo, quando à noite foi posta sobre uma cadeira na sala, estava deformada. Mas estava vazia, e foi isso que fez com que ele entrasse em casa quase correndo e com um sorriso no rosto. Largou a pasta e quis logo abraçar a mãe, que preparava o jantar na cozinha. Naquela noite, nem perguntou o que iria ser a mistura; de tão feliz, havia se esquecido da fome. Passou o dia inteiro na rua deixando cópias amassadas do seu currículo em lojas do comércio da cidade e em escritórios de Recursos Humanos, que usavam o papel para anotações cotidianas.

A senhora só sentiu os enormes braços do filho a enlaçando, como se fossem esmagá-la. Ele levantou a coitada da velha, que nem a uma criança, e rodou naquele cubículo que era a cozinha, derrubando uma panela e dois pratos. Nem ligou pros protestos da dona da casa, que gritava, batia, se sacudia, mandando lhe soltar. O homenzarrão, de 27 anos, gargalhava, beijava sem parar a querida mãe. Esta, depois de ver que já não haveria janta e ter a certeza de que o filho enlouquecera de vez, tacou com toda a força a colher melada de feijão na cabeça daquele homem irreconhecível.

- Ai, mãe! – reclamou, como acordando do transe. E a colocou no chão.

- Tu ficou louco, Reginaldo?!

- Não, mãe, é que...

- Eu não quero saber. Tá vendo o que tu fez? Estragou a janta toda. Olha aí, que meladeira! – falou zangada. E sabendo que, apesar de não ter sido a causadora do desastre, iria ter que limpar tudo sozinha, tratou rápido de pegar o rodo e o pano para botar o precioso jantar no lixo. Nisso, balbuciava, baixinho, pragas contra o filho e a vida, duas coisas que arduamente tinha de sustentar. Reginaldo, que não ouvia as ofensas, tentava chamar a atenção da mãe; em vão. Sem perder a paciência, ele segurou os braços dela e a fez o encarar.

- Mãe, eu acho que vou conseguir um emprego – uma euforia na voz. É pra trabalhar nos Serviços Gerais num shopping. Eu vou poder ajudar a senhora, pagar as contas... Tudo vai melhorar, a senhora vai ver. Ainda não tá nada certo, mas ficaram de me ligar amanhã.

- Ah, é?! Tu bem que poderia começar me ajudando a limpar essa sujeira que tu fez aqui. Hoje a gente vai dormir sem comer, e a culpa é dessa sua loucura.

Assim que o chão ficou limpo, deu a hora de ligar a TV. Os dois, naquela noite, assistiram à telenovela sem o prato de janta entre as pernas. E, em frente à televisão, se esqueceram da fome e a mãe perdeu a raiva e o filho viu com era bom não trabalhar. Mas a resposta do dia seguinte por ora ansiava Reginaldo, o que não o desesperou, pois a esperança e a televisão ainda brilhavam fortemente.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

A VIDA JUSTIFICADA

- Ora! A vida é uma só!
- Calma! A vida é só uma!